ABAV: Mercado brasileiro continua a ser estratégico para Portugal

ABAV: Mercado brasileiro continua a ser estratégico para Portugal

Em 2015, Portugal desafiou os brasileiros a “consumir sem moderação” o que de melhor há no nosso país: uma taça de vinho, acompanhada de boa música, sol, cultura e golfe. Na edição deste ano, apela-se aos sentidos, transportando até São Paulo o ambiente cosmopolita da cidade de Lisboa. Quem visitar o stand do Turismo de Portugal não ficará indiferente ao aroma do café, ao sabor do típico pastel de nata e ao elétrico em tamanho real que, desde o ano passado, pode ser visitado e fotografado. Existirá ainda um espaço dedicado ao centenário das aparições de Fátima, que se celebra em 2017.

A Feira das Américas, como é também conhecida, realiza-se, este ano, de 28 a 30 de setembro no Expo Center Norte, em São Paulo e conta com a presença de nove empresas portuguesas, cinco regiões – Centro, Alentejo, Lisboa, Madeira e Porto e Norte de Portugal – e quatro start-ups. Números que ficam aquém dos registados o ano passado, quando o stand do Turismo de Portugal reuniu, para além de quatro regiões, 18 empresas do setor. Também o espaço da Associação Portuguesa das Agências de Viagens e Turismo (APAVT), que acolheu em 2015 cerca de 20 associados é nesta edição substituído por um “pequeno espaço institucional”. De acordo com Pedro Costa Ferreira, presidente da APAVT, “o reduzido número de empresas com necessidade de espaço de exposição não justificou a criação de um stand com as dimensões do ano passado”.

Pedro Costa Ferreira - APAVT

Pedro Costa Ferreira

Apesar das empresas portuguesas estarem a investir menos neste mercado, o Turismo de Portugal “não dúvida que o Brasil continua a ser um mercado relevante” para o nosso país, permanecendo como um mercado estratégico, sendo o quinto país em número de hóspedes. Por esta razão, explica fonte do Turismo de Portugal, “acreditamos que nesta fase continua a fazer sentido investir no mercado, procurando públicos mais qualificados e com maior capacidade de gerar receita”. Nesse sentido, o Instituto “tem mantido e até reforçado a sua atividade no mercado, designadamente ao nível de operação turística e na relação direta com o trade e imprensa”. Uma opinião partilhada por Pedro Costa Ferreira que afirma que a ABAV continua a ser a “principal feira do mercado brasileiro, quer a nível do incoming, quer a nível do outgoing, e constitui uma grande oportunidade para quem pretenda desenvolver ou reforçar relações e criar novas parcerias. A participação em feiras de turismo como esta são sempre investimentos de médio e longo prazos, que ultrapassam eventuais dificuldades na atualidade”, dá conta.

Feira de presença obrigatória

Bruno Matos

Bruno Matos

É a participação de Portugal com o menor número de empresas dos últimos anos, no entanto, existem companhias que não abdicam de estar representadas neste certame. Para a maioria dos responsáveis com que a Ambitur falou, a ABAV continua a ser, mesmo em tempos de crise, uma feira de presença obrigatória. Por ser o único evento onde estão presentes fisicamente e “com mesa própria”, a ABAV é para o grupo Turim uma feira de presença incontornável. “Existem outros eventos neste mercado, como o World Travel Market Latin America, mas onde não temos participado. Pelas características do nosso produto, mantemos a convicção que este é aquele evento de eleição para podermos ter acesso ao vasto universo do trade brasileiro que de muito longe se desloca a São Paulo e que de outra forma, dificilmente conseguiríamos chegar ao contacto”, afirmou Luís Santos, diretor comercial do grupo hoteleiro.

Pedro Ribeiro

Pedro Ribeiro

Uma realidade também partilhada por Pedro Ribeiro, diretor comercial e de marketing do grupo Dom Pedro e Bruno Matos, diretor de vendas do Hotel Mundial. Para o primeiro, “tratando-se a ABAV do maior evento de turismo no mercado brasileiro e sendo este de elevada importância (número um em duas unidades da Dom Pedro) é sem dúvida uma feira em que não podemos deixar de estar presentes”. “É uma das feiras mais importantes para nós, devido à possibilidade que temos de contactar não só com os operadores nossos parceiros de São Paulo, mas também de todos os outros estados do Brasil”, complementa Bruno Matos, diretor de vendas do Hotel Mundial, que conta com uma média de 25.000 a 30.000 dormidas/ano do mercado brasileiro. Para a edição deste ano da ABAV, as expetativas de Bruno Matos são “enormes”, “acima de tudo para avaliar como o mercado está a reagir a esta mudança que existiu, e neste sentido delinear os objetivos do próximo ano”.

Alexandre Marto

Alexandre Marto

A promoção no Brasil é uma aposta do Fátima Hotels que conta com uma “participação ininterrupta no país há muitos anos”, através da sua presença, não só na ABAV, mas também na WTM Latin America, na Expo Católica, em workshops do Turismo de Portugal ou em ações desenhadas pela empresa. À Ambitur, Alexandre Marto, administrador do Fátima Hotels, afirmou por isso que, no seu entender, “uma presença na ABAV é importante, mas pode fazer-se de forma intermitente. O que é obrigatório na nossa opinião é uma presença no Brasil”. “O nosso objetivo é manter a notoriedade e reconhecimento dos nossos hotéis junto dos operadores brasileiros e dos profissionais de turismo brasileiros. As reservas são, no entanto, na esmagadora maioria, geradas depois por DMC’s nacionais e espanhóis”, dá conta Alexandre Marto, acrescentando que as 25 mil dormidas do mercado brasileiro que se registam em Fátima todos os anos são apenas “uma fração dos brasileiros que visitam o Santuário”. “Precisamos convencer os brasileiros da importância de dormirem em Fátima – promovendo, por exemplo, a Procissão de Velas que se dá todas as noites em Fátima”, afirma. Na edição deste ano, a Fátima Hotels vai ainda “sublinhar a importância do ano 2017 como o ano do Centenário de Fátima”.

Como é já habitual, o grupo Vila Galé e a Abreu Online apresentam-se neste certame com um stand individual. Segundo Gonçalo Rebelo de Almeida, administrador do grupo Vila Galé, o objetivo na ABAV é “promover os 27 hotéis da rede, ainda que dando maior destaque às unidades no Brasil. Pretendemos também divulgar novos produtos como o Vila Galé Sun, no Cumbuco, e o novo resort em Touros”. Já a Abreu Online estará na ABAV “para dar continuidade ao trabalho que tem vindo a ser feito há anos: fortalecer as parcerias com os hotéis e agentes locais, de modo a manter e potenciar as sinergias deste B2B no e com o Brasil”, deu conta Luís Tonicha, managing diretor da Abreu Online.

Regiões procuram seduzir brasileiros com alto poder de compra
A floresta Laurissilva, as tradições e culturas, associadas, por exemplo, aos bordados, o vinho e o Fim de Ano são apenas alguns dos produtos que a Associação de Promoção da Madeira estará a promover neste seu regresso à ABAV. Já o Alentejo destacará os produtos ligados ao touring cultural e paisagístico, a gastronomia e vinhos e também o turismo ativo e de natureza.

Roberto Santa Clara

Roberto Santa Clara

“Portugal está definitivamente na moda para o turista brasileiro, o que pode ser uma mais valia para a Madeira e uma boa alavanca. O turista brasileiro que visita Portugal tem um alto poder de compra, e frequentemente associado ao segmento de luxo, procurando experiências únicas e diferenciadoras”, começou por afirmar Roberto Santa Clara, diretor executivo da Associação de Promoção da Madeira, acrescentando que “dada a massiva presença do trade brasileiro, imprensa e consumidor final neste certame, é absolutamente vital a presença do destino. Estamos a falar de uma feira que em 2015 contou com mais de 32.000 profissionais do setor e 900 elementos da imprensa”.

O mercado brasileiro tem vindo a apresentar, desde 2015, uma performance negativa, em termos de hóspedes e dormidas, na Madeira. Uma realidade que a Associação está a tentar mudar. Para isso, explica Roberto Santa Clara, “realizámos, recentemente, um estudo, que estamos ainda a analisar em profundidade, a bordo dos aviões da TAP para analisar as características e motivações deste mercado, mas também conhecer o nível de conhecimento que o mercado tem do destino Madeira”. Por apenas ter a “responsabilidade de gestão deste mercado há cerca de um ano” e pelo facto de estar a “estudar o mesmo desde a raiz”, o investimento da Associação de Promoção da Madeira no mercado brasileiro é ainda “pequeno”, “na ordem dos 100.000 euros, abrangendo a presença em feiras, apoio a tour operadores e ações com agentes do setor”. Para a ABAV deste ano, a “expetativa é grande, sendo o objetivo prioritário o de fortalecer a relação com os maiores tour operadores brasileiros. É necessário tornar a Madeira mais conhecida no Brasil, e temos a vantagem de ter uma delegação do Turismo de Portugal em São Paulo, o que certamente abrirá portas bem como uma excelente parceria com a TAP que nos pode ajudar”, afirma o responsável.

Vitor Silva

Vítor Silva

Para a região do Alentejo e Ribatejo, o mercado brasileiro é o quarto mais importante em termos de dormidas, pelo que a ABAV se torna num evento chave e de “oportunidade única para contatar com os operadores dos diferentes estados do Brasil”. Dando conta que a quebra do número de visitantes brasileiros sentida na região é “ligeira”, Vítor Silva, presidente da Agência Regional de Promoção Turística do Alentejo, afirma que “o brasileiro se destaca claramente da média, deixando na região proveitos mais significativos”, e que o investimento da agência neste mercado é de cerca de 125 mil euros. “Este ano, além da habitual participação no stand de Portugal, com um conjunto grande de reuniões já agendadas, estamos a preparar um almoço com imprensa de São Paulo e que irá decorrer num restaurante português e com gastronomia alentejana. O objetivo é dar a conhecer o destino de uma forma mais intimista e desafiar a imprensa de referência a vir conhecer-nos”, explica o responsável, acrescentando que, depois da ABAV, a ARPT Alentejo irá levar a cabo um roadshow, envolvendo oito empresas associadas, que se irá centrar no Sul do Brasil.

Crise faz-se sentir… mas pouco!

Luís Santos

Luís Santos

A redução do número de turistas brasileiros em Portugal tem-se vindo a repetir nos últimos meses, no entanto, as descidas não são, para os hoteleiros com unidades em Lisboa, “alarmantes”. No grupo Turim Hotéis, o mercado brasileiro mantém-se como um dos cinco principais, “com especial importância em alguns dos hotéis de Lisboa, pela sua localização central na cidade”. “Acreditamos que é um mercado que recuperará a força que teve e por isso mesmo não desconsideramos de forma alguma a manutenção da nossa presença promocional neste país”, afirma Luís Santos, acrescentando que as ligeiras quedas registadas não são “assustadoras” e foram compensadas por outros mercados.

Apesar de ter registado um crescimento em agosto e de continuar a ser o mercado mais importante nas unidade do grupo Dom Pedro, em Lisboa, o mercado brasileiro regista uma queda de 6% no acumulado de janeiro a agosto. No Hotel Mundial, o decréscimo atinge os 30%, cerca de seis mil dormidas a menos, sendo atualmente o 3º principal mercado.

Luís Tonicha

Luís Tonicha

Já Luís Tonicha explica que na Abreu Online o Brasil “é assumidamente uma aposta mas não estamos dependentes da sua performance. Aliás, temos vindo a crescer nas vendas de hotelaria brasileira e Argentina e verificamos que existe manutenção das vendas para Europa e Caraíbas”. “No caso da Abreu Online Brasil ainda não verificámos impactos negativos significativos. O facto de o Brasil ser um mercado de compra e venda ajuda-nos a manter a atividade desenvolvida até aos dias de hoje, seguindo uma estratégia de acompanhamento da evolução do mercado, integração de novos hotéis e redes hoteleiras que vão entrando no país, estabelecimento de novos contratos com clientes e fornecedores, etc. A nossa experiência no Brasil tem vários anos e diz-nos que o setor turístico tem imensa capacidade em se restabelecer e ultrapassar as diversas crises e acredito que será isso que irá acontecer”, complementa.

Gonçalo Rebelo de Almeida

Gonçalo Rebelo de Almeida

Afirmando que o “mercado interno brasileiro é incontornável na operação do grupo, representando quase 90% da ocupação e receita no total dos hotéis do grupo no Brasil”, Gonçalo Rebelo de Almeida dá conta de que o grupo não regista, até à data, quedas. “Os clientes brasileiros estão a aumentar nos nossos hotéis. Apesar da conjuntura e de ser difícil antecipar a evolução do mercado interno brasileiro, prevemos um aumento de receitas neste mercado de 5% a 6%. Os brasileiros estão a viajar mais dentro do seu país”.

Já em Fátima, a realidade é bastante menos simpática. As unidades do grupo Fátima Hotels esperam uma quebra de vendas no mercado brasileiro que supera os 20%, continuando ainda assim no top 10 dos mercados mais importantes. “Acreditamos que a economia do Brasil é cíclica, muito colada a ciclos políticos e do preço das commodities (que observam aliás já uma recuperação). Julgo que é avisado manter uma relação num mercado tão importante, principalmente na fase negativa do ciclo, por forma a aproveitar da melhor forma a fase positiva”, acrescenta Alexandre Marto.
Novidades
Ancorada em três pilares – Lazer, Corporativo e MICE -, a 44ª edição da ABAV, e a primeira sob o comando de Edmar Bull, apresenta algumas novidades para profissionais e visitantes. À Ambitur, o presidente da ABAV explicou que, nesta edição, também os visitantes vão ter a oportunidade de agendar reuniões prévias com os expositores, “uma funcionalidade que só era oferecida aos hosted buyers”. Destaque ainda para a reformulação do conceito da Vila do Saber, que passa a ser denominada “Arena do Conhecimento”, e que será um espaço dedicado a debates do setor, essencialmente em quatro áreas temáticas chave – Gestão, Inovação, Segmentação e Tecnologia.
Segundo Edmar Bull, também o Programa Hosted Buyers será reforçado em 2016. “Contaremos com a presença de compradores nacionais e internacionais, com foco nas negociações para a temporada 2016/2017. Recursos inseridos na plataforma possibilitarão o agendamento prévio das reuniões, que este ano ocorrerão exclusivamente nos stands, o que vai proporcionar uma maior interação e identificação dos compradores com os produtos e serviços de cada expositor”. “Por acontecer tradicionalmente no final do terceiro trimestre, a ABAV Expo é sempre um marco na abertura do calendário de negócios para o ano seguinte. Isto porque define tendências, oportunidades e os melhores investimentos em cada segmento. E este ano não será diferente. O volume de reserva antecipada de stands e de inscrições prévias de visitantes é uma demonstração de confiança na nossa feira e na qualificação dos profissionais que ela atrai”, concluiu o responsável.

Raquel Pedrosa Loureiro