“Considero-me um gestor no sentido mais amplo”

“Considero-me um gestor no sentido mais amplo”

No ano em que todas as atenções estão viradas para Fátima, Ambitur esteve à conversa com Alexandre Marto Pereira, administrador do Fátima Hotels Group e vice-presidente da ACISO, que procurou explicar de que forma a região está a viver este período. Nascido com a hotelaria nos genes, o gestor hoteleiro defende que “Portugal é Futebol, Fado e Fátima” não hesitando em pedir a todos que reconheçam Fátima como algo que faz parte do código genético do País.

O que significa o turismo para Fátima e Fátima para o turismo?
Fátima é uma das principais âncoras turísticas de Portugal. É o primeiro destino turístico de Portugal sem acesso ao mar com uma dimensão absolutamente excecional. São mais de 700 mil noites em estabelecimentos hoteleiros, sem falar em toda a oferta de camas da igreja, que provavelmente eleva estes números para cima de um milhão de noites por ano, o que representa números quase irrepetíveis em todo o território. Fátima tem uma visibilidade internacional extraordinária, cerca de 70% das noites são reservadas por estrangeiros. É um destino que não depende do sol, da praia ou do clima. É um destino cultural. Do ponto de vista da visibilidade mundial, da capacidade de atração para o país, é um ativo estratégico para Portugal. Isso tem vindo a ser descoberto, ou aceite, pelos decisores políticos que começam a ter uma análise sobre o destino que é essencialmente técnica, e não preconceituosa.
Foi neste meio que o Alexandre Marto cresceu?
Sim. Tecnicamente nasci em Coimbra, porque não havia, nem há, um hospital em Fátima. Mas nasci e cresci numa família de pequenos hoteleiros. O meu avô criou uma pensão nos anos 50 e por ali andei até ter vindo estudar Gestão para a Universidade Católica, em Lisboa. Depois dos estudos fui para um banco recém-criado, o Banco de Investimentos, onde fiquei até regressar a Fátima, à família, numa mudança de gestão geracional do negócio.

Pensou sempre que a hotelaria acabaria por ser o seu caminho?
Nunca pensei muito nisso. Há pessoas que têm prazer em ser quadros de grandes empresas, eu sempre tive prazer em controlar as decisões de uma organização. Sempre disse que preferia estar à frente de uma loja do que ser um quadro da maior multinacional.

Sempre na área da gestão…
Sim. Mas a hotelaria está nos genes, conheço muito bem a operação, tenho muito prazer em fazê-lo, mas considero-me um gestor no sentido mais amplo.

Quais os segredos de um gestor? Quais os elementos essenciais a ter em conta na gestão?
Um gestor tem que planear, tem de executar e controlar/corrigir. Esta é a regra básica de qualquer gestor, em qualquer negócio, e na hotelaria também.

Como define o grupo em que estão integrados?
Eu sou coproprietário, com os meus dois irmãos, de duas unidades hoteleiras. Mas ao chegar a Fátima, reparámos que havia um problema de escala: todas as unidades em Fátima eram, e são, muito pequenas. Por outro lado, verificámos que havia uma oportunidade extraordinária que nascia do facto de Fátima ter uma visibilidade internacional fortíssima que não era aproveitada pelo país. Se o país turístico não aproveitava a marca, nós iríamos fazê-lo. Passámos assim a fazer promoção internacional. Sendo esta muito cara, e precisando de diluir o custo e potenciar o eventual retorno por várias unidades hoteleiras, passámos a fazer parcerias com diversas unidades hoteleiras para fazer promoção a nível internacional. Criámos então uma série de mecanismos e passámos a fazer uma representação conjunta. Esta fase inicial foi com quatro unidades hoteleiras. Entretanto chegámos às 10 unidades e tornou-se extremamente complicado fazer a gestão de todo o processo sem existir uma organização formal.
Criámos assim, na última semana de dezembro, com mais sete empresas, uma empresa com natureza jurídica que se chama FHG Representatives – Fátima Hotels Group, que fará a gestão comercial de 10 hotéis em Fátima.
Que tipo de gestor é o Alexandre Marto?
Sou um gestor hoteleiro, mas não tanto ao nível da gestão operacional; no caso dos nossos hotéis essa vertente está com os meus irmãos; nem ao nível das outras unidades que está no reino de cada um dos seus hotéis.
A marca FHG não entra dentro de cada um dos hotéis associados. Normalmente cada uma das unidades é familiar, portanto a família impõe uma forma de gestão muito própria. Pensamos que este elemento é uma força, primeiro porque não há muitas organizações que consigam ser tão eficientes como uma empresa familiar. Em segundo lugar, porque acreditamos que para a hotelaria é cada vez mais importante sair dos formatos das grandes cadeias e voltar à tradição do hoteleiro enquanto família. O nosso hóspede, quando entra num hotel, tem um relacionamento com uma família ou com uma organização familiar. Isso sente-se na preocupação com os detalhes; uma família tem orgulho na sua casa e para sempre, a longo prazo. Os nossos clientes valorizam isso.
O que tentamos fazer melhor é o que só pode ser feito melhor coletivamente. O Grupo faz a gestão comercial que engloba as reservas, a gestão do revenue das unidades hoteleiras, sendo as unidades que nos propõem uma estratégia, em diálogo connosco, e nós executamo-la. Temos também aqui a responsabilidade da promoção internacional, interna e o marketing.

Considera-se ambicioso?
Sim, no sentido saudável da palavra. As pessoas devem ser ambiciosas e, quando atingem alguns patamares, devem ser orgulhosas, desde que de uma forma saudável. Mas tenho consciência que a hotelaria em Fátima é ridiculamente pequena, assim como o nosso grupo, sendo que os grupos nacionais continuam a ser de igual forma pequenos.

Como é que as pessoas da região vivem 2017?
Para nós 2017 é o apogeu de uma caminhada que tem sido feita por toda a região. De forma especial, pelo Santuário de Fátima, que lidera todo o processo. As pessoas da região têm uma relação muito forte com o Santuário e com a sua mensagem. Numa segunda linha, do ponto de vista turístico, é também o apogeu. Acreditamos que vai ser um ano extraordinário, com um peso diferente de outras regiões do país, pois as taxas de ocupação ainda são muito baixas, o que faz com que os preços médios continuem a ser muito baixos. Haverá algumas alterações nestes indicadores, mas também não extraordinários pois há um respeito pelos clientes habituais, assim como pelos operadores que não permitem posições especulativas. Será por esta via um ano que está feito, no sentido de que a maioria das vendas está contratualizada.
É um ano que nos preocupa muito no sentido de poder constituir um clímax que depois pode, ou não, desenvolver-se em 2018 para um anticlímax. Este ano vai ter uma mediatização absolutamente extraordinária pelos jornalistas de todo o mundo que, ao longo de 2017, estarão na região para falar sobre o destino. Muitas das pessoas vêm a Portugal com o objetivo de visitar Fátima, sendo esta uma oportunidade para dar a conhecer às pessoas o resto do país.

Qual é para si o significado do mistério de Fátima?
É paz. Há vários Santuários no mundo que estão baseados em conceitos de milagres ou curas. O Santuário de Fátima nunca se focou muito nesse tema. É mais despido, mais anónimo, no sentido de permitir uma vivência da fé de uma forma muito individual, e é isso que dá muita força a Fátima. Acima de tudo, a mensagem é de paz internacional. É um dos poucos do mundo que consegue ter uma visibilidade absolutamente global.
O que poderão as pessoas descobrir em Fátima e na região?
O Santuário de Fátima é o espaço mais visitado. Há também o espaço dos Valinhos que remete para um ambiente rural do início do século passado. É muito importante que as pessoas visitarem esse espaço. O terceiro pilar é a igreja Paroquial de Fátima, ainda pouco visitada mas com imenso potencial.
Depois temos Fátima num contexto regional em que, na primeira linha, deve ser considerado o património da UNESCO – Tomar, Alcobaça e Batalha. Os mercados mais longínquos, da minha experiência de promoção internacional, não reconhecem estes três locais. É preciso comunicá-los para dar densidade à região. Ao não se comunicar de forma coordenada e conjunta não se consegue criar na mente das pessoas e dos operadores a ideia de que é possível permanecer na região mais tempo.
Fátima tem cerca de 6 milhões de visitantes por ano, que geram 700 mil noites, com 400 mil pessoas que dormem. Andamos num rácio de conversão entre os 10 a 15%. A primeira linha de esforço a ser feita é transformar as pessoas que não dormem em pessoas que dormem e, em segundo lugar, as que dormem uma noite ou duas aumentarem a sua estadia. Este tem que ser um esforço feito com toda a densidade regional.

*Esta é a 2ª Parte da Grande Entrevista publicada na Edição 297 da Ambitur. Leia aqui a 1ª Parte.

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos de Raquel Wise