“O nosso maior diferencial é a aposta no futuro”

“O nosso maior diferencial é a aposta no futuro”

Categoria Advisor, Entrevistas

Há dois anos não hesitou em aceitar o desafio de gerir a equipa da Amadeus Portugal e hoje, Miguel Ángel Puertas, acredita que está no bom caminho para conseguir o seu objetivo no mercado nacional, sublinhando que 2016 foi mesmo o melhor ano para a multinacional no nosso país. Em entrevista à Ambitur, nos novos escritórios da Amadeus Portugal, o diretor geral deste sistema de distribuição global falou do seu percurso que, há 20 anos, passa pela Amadeus, e de como consegue dividir a sua vida, profissional e pessoal, entre Madrid e Lisboa, todas as semanas. Não hesita em afirmar que Portugal é um mercado crucial para a Amadeus.

Qual a sua missão em Portugal ou a missão da Amadeus Portugal?
Esta é uma pergunta simultaneamente fácil e difícil. Fácil porque a resposta é moldar o futuro das viagens. Mas também tenho de ter resultados a nível do negócio. Estamos a crescer, estamos a fazer muitas coisas com clientes com os quais nunca antes tínhamos conseguido falar, e isso é importantíssimo. O meu perfil profissional é para isso. Mas também o ADN que temos na direção da Amadeus é fazer algo mais. O grande desafio é moldar o futuro das viagens, juntamente com a restante indústria. E nem todas as empresas privadas do setor têm este grau de compromisso para com o futuro. Mas o grande desafio de hoje, e não só na indústria do turismo, é a mudança do comportamento humano. O ser humano está a mudar tão depressa, a adotar novas tecnologias, novos métodos de comunicação… Se não captarmos a atenção de uma pessoa em seis segundos, essa pessoa está perdida. Esse tipo de comportamento é o que está a definir o futuro da indústria, especialmente no turismo, onde temos de lutar por atrair o cliente e depois cobrir as suas necessidades para não o perder, para que o cliente seja fiel. O desafio aqui e o meu objetivo é claramente de negócio mas também uma aposta a longo prazo.

Está a fazer dois anos em Portugal. Poder-se-á dizer que terminou a sua fase de adaptação? Vamos entrar numa nova fase da Amadeus Portugal?
Totalmente. O mercado português é muito complexo, tem um “establishment” muito tradicional, muito difícil de romper. Mas é certo que há uma fase de adaptação, em que aprendi como fazer as coisas em Portugal. Procurei o meu lugar, encontrei o meu lugar. E depois há uma fase de amadurecimento, em que começo a desenvolver o que quero fazer.

Não diria que é uma nova etapa mas estamos a fazer as coisas de uma forma um pouco diferente para ter mais resultados e mais impacto no futuro das viagens em Portugal.

Até que ponto um mercado económico como o português interessa a uma multinacional como a Amadeus?
O mercado português é pequeno comparado com outros europeus mas todos os mercados para a Amadeus têm a mesma importância. Há um ranking de dimensão, mas não de importância. Na Amadeus, os principais mercados, em termos de dimensão, são Espanha, França, Alemanha e Escandinávia. Mas em importância são todos iguais. O investimento da Amadeus em Portugal está fora de todas as dúvidas. Há uma equipa, nem todos os mercados Amadeus têm uma equipa local; há um novo escritório. A importância de Portugal para a Amadeus é crucial. Nós queremos ser líderes. Já somos a nível mundial, temos 46% de quota de mercado, não há comparação com nenhum outro concorrente do setor. O futuro é o que nos diferencia.

Tivemos uma estratégia muito inteligente e acertada na altura, em 2000. Estávamos a fazer um GDS, isso esteve bem até ao ano 2000. E depois olhámos para cima e vimos fornecedores, hotéis, companhias aéreas, cruzeiros, etc… Se somos capazes de ser um sistema de distribuição para as agências de viagens – temos máquinas, engenharia e conhecimento da indústria – porque não fazemos o mesmo para outros? Atualmente, neste mercado, 87% das companhias aéreas são clientes Amadeus – TAP, Lufthansa, SATA. Porque o nosso sistema é interessante em termos de tecnologia mas também eficiente em termos económicos. É algo que a nossa concorrência não tem. Eles têm um sistema de distribuição, lançam cabos para os fornecedores para trocar informação; mas nós não lançamos cabos, o fornecedor está no sistema Amadeus, tudo está no mesmo sistema. Este foi um investimento em 2000 que fez com que a Amadeus crescesse e agora tenha 46% de quota de mercado mundial, algo indiscutível.

O que é a Amadeus hoje?
É um sistema de distribuição global não só para a parte de B2B e B2C, fornecedores. A Amadeus teve uma evolução de mudar de um GDS de aviação para um GDS global. A boa notícia foi que os nossos clientes não são apenas os agentes de viagens, como no resto dos sistemas de distribuição. Os nossos clientes são rent-a-cars, hoteleiros, companhias aéreas… O que estamos a criar é um ecossistema de viagens onde nós facilitamos a tecnologia, porque somos capazes, porque temos o know how da indústria e porque temos o compromisso de moldar o futuro das viagens e de fazer uma análise de como vai ser o futuro das viagens.
O evento do Amadeus Technology Forum é isto. É partilhar com todos as tendências do setor, no consumo, a tendência de futuro, de como estar preparado para o futuro. Acho que esta é a nossa mais-valia para o futuro das viagens em Portugal.

Falando agora do Amadeus Technology & Innovation Forum, o que foram estas cinco edições em Madrid e o que se pretendeu em Lisboa?
O primeiro fórum foi exclusivamente para partilhar com os clientes, nomeadamente agências de viagens, as nossas soluções. Foi uma plataforma para venda. A partir da segunda edição do Technology Forum de Madrid e Barcelona, começámos a fazer as coisas de outra forma, e a convidar oradores com um conhecimento muito profundo do setor, das tendências do futuro, e começámos a ter uma conversa distinta. O alcance do evento não é só agências de viagens, mas toda a indústria, e a partir da terceira, quarta e quinta edições, foi exclusivamente para partilhar tendências de futuro. O que fizemos dia 1 de junho, em Lisboa, foi isso. Eu falei do modo como as novas gerações vão consumir. A nossa intenção é sacudir as cabeças e consciências. Isto está a acontecer agora e temos que estar preparados para o futuro.

Estávamos a falar de algumas falhas do mercado português. Há uma direção conservadora e tradicional, e isso não pode ser assim, pois está-se a condenar à morte. Tem que mudar, adaptar-se.

A Amadeus tem crescido nos últimos anos em Portugal, muito baseado na eDreams… Mas começa a ver-se outra mentalidade das empresas nacionais. Acredita que poderá mudar nos próximos anos?
Sim. Mas há um trabalho. Acho que o nosso maior diferencial como empresa, para o mercado português e para os clientes portugueses, é a nossa aposta no futuro. Não há ninguém em Portugal com a nossa capacidade de prever o futuro e ter a mais absoluta intenção de crescimento com o cliente. Acho que a estratégia das empresas aqui é imediata, é operacional para o dia-a-dia, não é estratégica. Muitas vezes empresas que parecem ser muito conservadoras são depois mais conscientes da necessidade de mudança que precisam para enfrentar o futuro. Fiquei surpreendido, principalmente com empresas grandes. Acho que esse é o contributo da Amadeus aqui. Ninguém no mercado português está capacitado para fazer esta consultoria, não estou a falar de plataformas tecnológicas. Na Amadeus fizemos esta consultoria para muitos mercados. A Amadeus é uma multinacional com 15 mil funcionários. Aqui somos 17.

Olhando para Portugal, ao nível da distribuição turística, que desafios/ oportunidades tem pela frente? É necessário uma maior consolidação neste setor em Portugal?
Não sei dizer se é necessário, mas é uma tendência. A consolidação é um fenómeno inevitável. Consolidação nas agências de viagens, nos hotéis, nas companhias aéreas… não há barreiras, nem linhas. E quais as vantagens da consolidação? Capacidade de negociação, de representação, branding, uma imagem mais poderosa. Há uma tendência clara.

O rendimento das agências de viagens portuguesas anda muito aquém dos mercados com os quais a Amadeus as compara?
Depende da segmentação. Há agências de viagens muito pequenas, com dois a três funcionários, que estão apenas a pensar em como sobreviver. Não têm estratégia para o futuro, e é um problema. Penso que as agências de viagens devem apostar no dia-a-dia, claro, porque é o seu “ganha-pão” mas devem reservar uma parte do seu pensamento e estratégia para o futuro, porque senão, antes ou depois, caem. A consolidação é uma opção para as agências de viagens pequenas, pois os grandes grupos têm uma capacidade de negociação maior e trazem mais vantagens.

 

Esta é a 1ª Parte da Grande Entrevista publicada na Edição 302 da Ambitur. Veja aqui a 2ª Parte.

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos de Raquel Wise