“O setor é um exemplo para a economia do país”

“O setor é um exemplo para a economia do país”

Naquele que poderá ser o seu último mandato à frente da APAVT, Pedro Costa Ferreira admite que não será uma surpresa a chegada de um novo presidente à associação, algo que até considera “desejável pela necessidade de mudança”. A Ambitur foi entrevistar, naquela que foi a última Grande Entrevista de 2016, o atual presidente da APAVT, que não hesitou em responder, com frontalidade e clareza, às várias questões que se acabaram por se transformar numa conversa sem pressas sobre o seu percurso, as suas ideias e o que quer fazer no futuro. Uma coisa é certa: Pedro Costa Ferreira diz que se pudesse voltar atrás, a única coisa que provavelmente mudaria seria iniciar a sua vida de empresário mais cedo.

Porque é o associativismo essencial à dinâmica de negócio do setor?
Diria que uma associação tem de estar com os vários momentos da cadeia de distribuição, mas não só, a defender o interesse de uma parte dessa cadeia, neste caso a distribuição, onde esse interesse esteja ameaçado e/ou onde haja capacidade de percecionar que a situação desse subsetor possa melhorar. Desse ponto de vista, é eclética porque inclui áreas tão díspares como o relacionamento com fornecedores, promoção de Portugal enquanto destino turístico, dada a quota que as agências de viagens têm na sua comercialização, as relações internacionais e com a tutela, nomeadamente no que concerne ao ordenamento jurídico. Por exemplo, o meu mandato teve nesta área dois momentos absolutamente cruciais, um que já passou, relacionado com a nova Lei das Agências de Viagens, e outro que está a decorrer, relacionado com a transposição da nova Diretiva Comunitária.
Jjulgo que não se esgota no interesse da defesa comum uma associação, ou pelo menos o papel de um presidente, eu tentei que não se esgotasse. Há dois tipos de presidentes, aquele que se limita a ser caixa-de-ressonância das queixas, feridas e momentos menos bons do setor. Por outro lado, há aquele que ao lado desta caixa-de-ressonância, tenta estabelecer uma direção e um olhar para o futuro. Tentei estabelecer essa direção em todos os momentos da APAVT. Nos nossos Congressos tentei sempre olhar e falar para o futuro.

Olhando para o primeiro dia como presidente da APAVT que análise fez aos desafios que tinha pela frente e também a nível interno?
Do ponto de vista financeiro, deu-se uma volta muito grande. Entre o meu primeiro ano do primeiro mandato e o último ano do último mandato, os capitais próprios deverão duplicar na APAVT. Isso é um êxito financeiro assinalável, sobretudo se pensarmos que atravessámos uma crise financeira muito importante.
Em segundo lugar, do ponto de vista da dinâmica associativa ao nível do número de agências, sabemos que atravessámos uma crise grande, que correspondeu necessariamente a uma quebra do número de associados. Mas desde o ano passado que virámos a situação.
Tentei ser um presidente mais próximo das agências e dos agentes. Esta foi uma decisão muito concreta e que deu trabalho. Estive sempre disponível para estar nos eventos dos agentes de viagens. Fui o primeiro presidente da APAVT que fez um acordo institucional com a Amadeus, que estava afastada da Associação há muitos e muitos anos. Todos estes momentos foram de maior proximidade com o mercado, em que tentei juntar em vez de dividir.
Descentralizei a APAVT, e esse foi o grande momento da vida dos Capítulos, estes são autónomos e tomam decisões autónomas, sendo preenchidos justamente pelos associados.

É nesta altura que traça o trajeto que se seguiu nos seis anos seguintes?
De certa maneira sim, mas tudo vai surgindo com o tempo. A primeira prioridade da APAVT, que já vinha de trás, teve a ver com a nova Lei das Agências de Viagens. Houve decisões polémicas, mas também se deve olhar para os desafios que existiam na altura. Passados estes anos podemos observar uma paz jurídica e social no setor e, tenha-se a bondade de se concretizar, que as decisões foram bem tomadas.
Depois seguiu-se a vertente internacional. Fizemos aqui um esforço muito grande, seguindo o princípio que tudo o que pudesse afetar o trabalho dos agentes de viagens em Portugal era tratado, e muitas vezes decidido, num contexto europeu. É o caso da nova Diretiva Comunitária, que terá uma enorme influência no mercado português. De acordo com esse princípio tentámos desenvolver um trabalho de maior existência da APAVT na ECTAA; vou no segundo mandato da Vice-Presidência da ECTAA e pertenço ao Comité Estratégico. Esta relação também teve uma expressão no país que foi bastante visível, pois vamos organizar três encontros bianuais da ECTAA (Ponta Delgada, Porto e Coimbra, no próximo ano), recebemos o Congresso da DRV e vamos receber em Ponta Delgada, no próximo ano, o congresso inglês da ABTA.
Se me perguntar se tinha a ambição de concretizar isto tudo? Não, tinha apenas a ambição de termos uma vertente internacional mais importante. Porque tinha a consciência que os grandes desafios seriam percecionados mais cedo lá fora e também seriam resolvidos mais cedo lá fora. A Associação tinha que estar mais presente lá fora, tudo o resto foi sendo desencadeado.

É importante uma boa relação com a tutela?
É importante porque cria paz para o setor e confiabilidade. Estando na presidência da APAVT com três secretários de Estado, julgo que no setor do turismo essa harmonia não é difícil de alcançar. Somos um belíssimo exemplo, o turismo de uma forma geral, de harmonia entre setor e tutela, sendo que alguns dos nossos resultados derivam dessa confiabilidade e previsibilidade, que ajudam ao investimento por parte das empresas. Desse ponto de vista o setor é um exemplo para a economia do país, mais setores existissem com esta capacidade de coordenação entre a vertente pública e privada e provavelmente os nossos resultados económicos seriam bem melhores.

Encara uma recandidatura à APAVT?
Neste momento o timing das minhas preocupações ainda não pode ser daqui a um ano. Acabo de sair de um Comité Estratégico da ECTAA, segue-se o Congresso da APAVT em Aveiro, de extraordinária exigência, e saindo do Congresso temos a preparação da BTL. E sobretudo temos um dossier extremamente exigente que tem a ver com a transposição da nova Diretiva Comunitária dos Pacotes Turísticos. São nestes itens que, como presidente da APAVT, tenho de estar motivado a trabalhar.
Dito isto, não é surpresa para ninguém que a minha visão das Associações, e neste caso da APAVT, incorpora uma necessidade francamente importante de novas visões de tempos a tempos. Não é surpresa para ninguém que a maneira de incorporar novas visões é incorporar novas pessoas. Não será surpresa para ninguém se depois deste mandato vier outro presidente para a APAVT. Eu veria essa situação como normal, quiçá desejável pela necessidade de mudança e julgo mesmo que existirão já alguns, se não anúncios de candidatura, trabalhos preliminares que visam candidaturas. São todos bem-vindos.

Entrou num momento menos bom na APAVT, sai num momento diferente, não é prematuro não encarar uma recandidatura?
Tenho vincada na minha visão das associações que elas não devem ser confundidas com pessoas e não devemos cometer o erro de estar lá tanto tempo que achamos que as podemos substituir ou que a nossa opinião é a das associações.
Como sabem, a minha liderança na APAVT tem sido visível no sentido em que não sou propriamente uma pessoa que me esconda, que não dê opiniões ou que não seja pró-ativa, mas isso não deve ser confundido com alguém que ache que a Associação é ela própria.

Quais os desafios que devem preocupar os empresários do setor?
É a pergunta de um milhão de dólares (risos), porque quem souber identificar os desafios é quem vai ficar rico na próxima década. Como um todo julgo que os maiores desafios das agências de viagens têm a ver com saber redirecionar o olhar para o cliente, e não para o fornecedor, o que implica deixar de falar em comissões. Na Europa já não falamos de comissões há quase uma década: a criação de valor é o grande desafio.
Um segundo desafio, particular para Portugal tendo em conta a dimensão das empresas, tem a ver com a capacidade de incorporar tecnologia, que faz parte desse desafio da criação de valor ou que pode limitar essa criação de valor.

 

Leia aqui a 2ª Parte desta Grande Entrevista.

Pedro Chenrim e Inês Gromicho/ Fotos de Raquel Wise