“Temos que estimular mais inovação no nosso turismo”

“Temos que estimular mais inovação no nosso turismo”

Categoria Advisor, Entrevistas

Numa altura em que o Turismo “dá cartas” na economia do país, Ambitur lançou o desafio a Manuel Caldeira Cabral e o Ministro da Economia aceitou-o. O governante partilha a sua visão sobre a importância do Turismo a nível nacional, a sua vitalidade e o que está a ser feito para que continue a crescer, de forma sustentada. Não se escusando a números, Manuel Caldeira Cabral adiantou que no Portugal 2020 estão já 466 projetos aprovados com um investimento superior a 300 milhões de euros; no Capitalizar já há 36 operações aprovadas no turismo; e que o Governo vai abrir uma nova linha de apoio à qualificação da oferta, com 75 milhões de euros.

De que forma o impacto do turismo na economia nacional pode ser alargado?
Tivemos em 2016 um crescimento fantástico, um novo recorde de número de turistas, mas o que queremos é que continue a crescer e de forma sustentável. Isso significa ter algum equilíbrio, quer ambiental, quer ao espalhar o benefício económico pelo território e ao longo do ano. Isso verificou-se em 2016, quando se inverteu algum aumento da sazonalidade registado nos últimos anos, onde 2/3 do crescimento se verificou na época baixa, com crescimentos de 12/13/15% em alguns dos meses. O facto de o turismo ter crescido de uma forma equilibrada ajudou ao aumento de 10 a 15% do emprego no turismo. Chegou-se a mais 40 mil novos postos de trabalho na época alta, mas na época baixa o valor foi sempre superior a 30 mil novos postos de trabalho.

Neste momento, o que vemos é o turismo a crescer em número de turistas, receitas e proveitos hoteleiros, a um ritmo superior ao número de hóspedes, sendo estes fatores parte de um crescimento com mais sustentabilidade. O aumento do RevPar, que ainda tem espaço para crescer, e o aumento dos proveitos, significam que o turismo está a crescer em qualidade e está a haver uma maior sustentabilidade económica e financeira.

A diminuição da sazonalidade e a desconcentração do turismo pelo país dá-nos uma ideia importante: o turismo pode desempenhar, e está já a fazê-lo, um papel mais forte no desenvolvimento regional.

Houve também um aumento muito grande dos residentes não habituais no país, sendo que em 2016 se registou um crescimento de 10.700, o que significa um crescimento de mais de 40% face ao ano anterior. Para além dos franceses e chineses, estamos a registar o interesse de muitos outros países, como os escandinavos. Também registamos um crescimento de interesse por parte da Índia e Brasil, mercados que consideram ter uma segunda casa ou residir em Portugal. De facto, as pessoas estão a sentir confiança no país. Portugal está a projetar-se bem como um país que recebe todos bem, tolerante, aberto, com segurança e estabilidade.

E para este ano, quais as previsões de crescimento da atividade?
Os dados sobre reservas e procura são positivos. Temos razões para crer que 2017 vai ser também um ano turístico muito bom e que, no final, se possa ultrapassar a fasquia dos 20 milhões de turistas. Isto demonstra que Portugal é um destino muito competitivo, as pessoas revêem-se nele, de formas muito diferentes.

Reconhecendo-se que os bons resultados do turismo resultam, em grande medida, do exponencial crescimento da capacidade aérea para Portugal, pode haver ainda uma maior articulação de políticas de transporte com as do turismo?
Temos feito um esforço muito intenso no sentido de aumentar as ligações aéreas para o país. Em 2016 abriram 64 novas rotas aéreas, que passaram a ligar Portugal a diferentes destinos ao longo de todo o ano, e não só na época alta. Em 2017 já temos asseguradas 56 novas rotas, que poderão crescer ao longo do ano. Estamos a falar de um milhão e meio de lugares em voos, o que é muito interessante.

Estamos a trabalhar não só os mercados clássicos do turismo – Reino Unido, França, Espanha, Alemanha –, mas também a diversificação de mercados. Trabalhámos muito na promoção nos EUA, onde houve aumento de rotas, com mais 20% dos turistas. Estamos a trabalhar também com a China onde vai abrir, a meio deste ano, um voo direto. Estamos atentos a outros mercados como a Polónia, Escandinávia, Canadá, para o qual vão também abrir novas rotas, e a Índia. Tem que haver uma diversificação de mercados para não ficarmos dependentes de alguns, que podem ter flutuações cíclicas.

Que visão tem sobre estes novos mercados emissores e o que deve ser feito para Portugal beneficiar dos seus fluxos turísticos?
O que estamos a fazer, com muita determinação, é promoção. Por exemplo, na Índia estamos a trabalhar com os filmes de Bollywood que têm centenas de milhões de espectadores. Estamos também a trabalhar nestes mercados nas rotas diretas. A da China terá um impacto muito grande.

Nos muitos encontros que tenho com os operadores turísticos e hoteleiros em Portugal, o que digo é que é muito importante prepararmo-nos para estes mercados. Os turistas destes países têm requisitos em termos de línguas, alimentação, entre outros, mas por outro lado têm desafios de serem turistas com um gasto muito elevado, sendo muito interessantes em termos de receita. É importante que saibamos dar uma resposta e este desafio.

O turismo continua a marcar pontos ao nível da promoção externa, contribuindo para a exposição de Portugal no mundo. Este é hoje um capital importante que pode ser estendido a outras atividades económicas?
A imagem que o turismo passa é muito positiva. Os 19 milhões de pessoas que nos visitam veem um país desenvolvido, seguro e que os acolhe bem, mas também um país sofisticado, em que as coisas funcionam. Além disso, o turismo tem um potencial muito grande de ajudar à promoção de outros produtos. Claramente quando os turistas vêm a Portugal gostam da nossa gastronomia, dos nossos produtos, e temos que fazer com que cada vez mais, quem nos visita leve essa imagem de bons produtos, mas também das imagens das marcas que os acompanham. Ou seja, que levem uma imagem forte da marca Portugal. Esse é um trabalho que estamos a fazer em conjunto com os produtores, hoteleiros e o Turismo de Portugal. Tem que se juntar mais a promoção do turismo aos produtos portugueses e a promoção dos produtos portugueses ao turismo. Essa ligação reforçará as suas componentes.

Esta é a 1ª Parte da Grande Entrevista publicada na Edição 299 da Ambitur.

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos Raquel Wise