“Tive a decisão de ficar no turismo”

“Tive a decisão de ficar no turismo”

Categoria Advisor, Entrevistas

 Como veio parar ao turismo?
Não foi uma decisão pensada. No final da década de 80, sendo esta a única década que não trabalho em turismo na minha carreira profissional, ingressei num grupo económico que tinha um conjunto de empresas na área dos seguros e na área financeira. Estavam ligadas à Associação Nacional de Farmácias, ao Banco Mello e à Império, e o grupo detinha a agência de viagens Igestur. Fiquei responsável por algumas áreas financeiras da agência em representação do grupo e mais tarde, ainda e sempre em representação do grupo, acabei por ser diretor-geral da agência e, por fim, administrador. Fico então na Igestur durante toda a década de 90, até ser vendida à Macrotur. Não entro no turismo pela mão do turismo, mas sim pela minha área, que é financeira.

Por um ocaso portanto…
Sim, por um ocaso, como quase tudo na vida. Quando se dá a compra, é exigido pela Macrotur que eu continue a integrar a empresa. Eu diria que não tive a decisão de entrar no turismo, mas tive a decisão de ficar no turismo, porque aí sim eu aceitei ficar na Macrotur.
A Igestur foi uma história muito bonita com resultados muito importantes, uma agência que era conhecida no mercado por ser francamente diferente na maneira de estar, de se relacionar, nos colaboradores que tinha. A exigência que havia desta ser comprada somente se eu continuasse, fez-me sentir feliz, mas para que esta história fosse feliz até ao fim teríamos que a encerrar. Portanto tomei o compromisso de ir, depois de falar muito calmamente com o grupo para o qual trabalhava.
Como continuou o seu percurso?
Andei uma década pelo grupo Macrotur, que depois é comprado pelo Grupo Espírito Santo, e mais tarde tem a fusão com a Top Tours. Entre 89 e 99 estive neste universo, quando ingressei na Space, que englobou a Igestur, rapidamente passei para a área dos operadores turísticos e, de certa maneira, a minha carreira acaba por ser mais visível nesta fase em que entrei no Club Vip. Dirigi a fusão deste com o Mapa Mundo, que na altura criou o maior operador turístico de capital nacional, que chegou a ter 70 milhões de euros de vendas.
No final da década de 2000, ao aproximar-me dos 50 anos, senti a necessidade de mudar de vida para outro registo. Nesta altura decidi ser empresário, estávamos em 2010. A empresa é a Lounge, mas tenho outras participações de capital, por exemplo, numa empresa de incoming no Algarve, a Word. Por outro lado, tenho uma atividade baseada na minha empresa de consultoria com vários clientes, dentro e fora da área do turismo. Esta também é uma fase em crescimento, na segunda parte desta década espero que se dê lugar a mais projetos e a um maior volume dos atuais.

O que é o projeto Lounge?
É um projeto muito focado num nicho de mercado de lazer de luxo. Tem a ver com uma visão de futuro que tenho para o lazer e uma área de intervenção que acho que as agências de viagens irão continuar a ter que é a transformação de informação (que existe na internet) e conhecimento (tratada em função do cliente); é disto que fala a Lounge. Um dos traços caracterizadores da Lounge é ter já, e só estamos no 6º ano de existência, uma série de comunidades profissionais internacionais relacionadas com o luxo das quais somos membros.

Como foi parar ao setor associativo?
Não faço a menor das ideias (risos). Coincidiu com a minha passagem a empresário, isso pareceu-me importante. Coincidiu com um momento de alteração na APAVT, de dirigentes, e com uma série de players de mercado com significado do ponto de vista de quota de mercado que me pediram para avançar e, de certa maneira, resolver um eventual problema que existiria de falta de quadros, e por acharem que era a pessoa certa naquela altura.
Eu já tinha história na APAVT, por razões diferentes, porque o meu grupo na altura fez algumas vice-presidências na APAVT, sendo que duas foram feitas por mim. Ou seja, eu sabia para onde ia quando me colocaram a possibilidade e o desafio de ser presidente.
Para mim, as associações são espaços de interesse comum dos empresários. Se não forem os empresários, ainda que seja por um momento, a emprestarem o seu tempo, capacidade de trabalho e eventuais conhecimentos a esse compromisso comum, então as associações nunca irão servir para nada.

O que procurou trazer de novo à APAVT?
Penso que convivi com alguns aspetos felizes da APAVT, em primeiro lugar do ponto de vista financeiro deu-se uma volta muito grande. Entre o meu primeiro ano do primeiro mandato e o último ano do último mandato os capitais próprios deverão duplicar na APAVT. Isso é um êxito financeiro assinalável, sobretudo se pensarmos que atravessámos uma crise financeira muito importante.
Em segundo lugar, do ponto de vista da dinâmica associativa ao nível do número de agências, sabemos que atravessámos uma crise grande, que correspondeu a uma quebra do número de associados. Mas desde o ano passado, virámos a situação. Estamos agora a consolidar um crescimento.
Tentei ser um presidente mais próximo das agências e dos agentes, o que pelo meu histórico anterior, nomeadamente ao ter pertencido a um grande grupo, pode não ter sido fácil. Esta foi uma decisão muito concreta e que deu trabalho. Estive sempre disponível para estar nos eventos dos agentes de viagens. Fui o primeiro presidente da APAVT que fez um acordo institucional com a Amadeus, que esteva afastada da associação durante muitos anos. Todos estes momentos foram de maior proximidade com o mercado, em que tentei juntar em vez de dividir.
Descentralizei a APAVT, e esse foi o grande momento da vida dos Capítulos, estes são autónomos e tomam decisões autónomas, sendo preenchidos justamente pelos associados.
Vincaria também, porque julgo que será um traço muito visível de caráter, nestes seis anos de trabalho, faltando um para concluir o mandato, o trabalho internacional. Fizemos aqui um esforço muito grande de acordo pois sentimos que tudo o que pudesse afetar o trabalho dos agentes de viagens em Portugal era tratado, e muitas vezes decidido, num contexto europeu. É o caso da nova Diretiva Comunitária que terá uma enorme influência no mercado português. De acordo com esse princípio tentámos desenvolver um trabalho de maior existência da APAVT na ECTAA. Vou no segundo mandato da vice-presidência da ECTAA e pertenço ao Comité Estratégico. Esta relação também teve uma expressão no país que foi bastante visível. Vamos organizar, em seis anos de mandato, três encontros bianuais da ECTAA (Ponta Delgada, Porto e Coimbra, no próximo ano). Recebemos pelo nosso envolvimento na ECTAA o Congresso da DRV. E vamos receber em Ponta Delgada, no próximo ano, o Congresso inglês da ABTA. Desse ponto de vista acho que tivemos dois mandatos e um círculo político na área internacional muito feliz. Arriscaria dizer, sem falsa modéstia, que vão ser precisos alguns anos para sermos tão felizes nesta linha, com um conjunto de eventos tão expressivos e com tanta importância, quer para Portugal como destino turístico, quer para o trabalho dos agentes de viagens.

É ambicioso?
Sim. Isso é um traço positivo e é perfeitamente visível para as pessoas que se relacionam comigo. Entendo a ambição como a vontade de progredir e fazer os outros crescerem também.

Foi isso que o levou a lançar o projeto empresarial Lounge?
Completamente. Se há algo que eu tento fazer nesta fase da minha vida é juntar-me a projetos com outras pessoas, ajudá-las a crescer e, não vamos ser cínicos, também ganhar dinheiro com isso. Um traço fundamental dos meus projetos é juntar-me a pessoas mais novas que eu, portanto não sou só ambicioso relativamente a mim próprio, mas aos projetos, e julgo que o sou relativamente à vontade que tenho de fazer outras pessoas crescer.

Que momentos destaca do seu percurso profissional?
A venda da Igestur, porque foi o fim de um ciclo e de uma história bonita, finalizada no auge da empresa. A fusão dos operadores Club Vip e Mapa Mundo; foi um projeto muito novo no mercado português, muito interessante e muito exigente. Finalmente, estou a gostar muito desta minha fase enquanto empresário. Se me perguntasse o que eu teria feito diferente, se pudesse, a única dúvida que tenho é se não deveria ter começado o meu trajeto de empresário mais cedo.

 

Leia a 1ª Parte desta entrevista aqui.

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos Raquel Wise