A Ambitur entrevistou Rui Ventura, presidente da Turismo Centro de Portugal, e quis saber quais as prioridades e desafios da região ao nível do turismo.
Quais são as principais prioridades estratégicas da Região de Turismo Centro de Portugal para os próximos anos?
O Centro de Portugal vive um momento muito especial. É uma região que tem sabido consolidar a sua posição como um dos destinos mais procurados do país, mas que tem um imenso potencial por explorar. A prioridade, para mim, é clara: crescer com equilíbrio. Isso significa consolidar o que já conquistámos, distribuir melhor os fluxos turísticos e levar desenvolvimento a todo o território.
Queremos um turismo mais sustentável, mais acessível e mais inteligente. Para tal, apostamos em produtos estruturantes para o território, como a natureza, a cultura, a gastronomia ou o enoturismo, e em programas que dão corpo a essa identidade. Um exemplo paradigmático desta estratégia é o “Sabores ao Centro”, que junta as oito Comunidades Intermunicipais na promoção da nossa gastronomia e dos nossos vinhos.
Outra prioridade é reforçar a cooperação com as regiões vizinhas, dentro e fora de Portugal. A ligação ao Norte, ao Alentejo, a Castela e Leão e à Extremadura é natural e estratégica: juntos, somos mais fortes e mais visíveis.
A ligação ao Norte, ao Alentejo, a Castela e Leão e à Extremadura é natural e estratégica: juntos, somos mais fortes e mais visíveis.
Como vê o papel do Centro de Portugal no panorama turístico nacional e internacional?
O Centro de Portugal é o coração de Portugal. O coração geográfico, mas também simbólico. É aqui que o país se revela na sua grande diversidade.
No contexto nacional, temos assumido um papel de equilíbrio. Ajudamos a desconcentrar fluxos turísticos e a mostrar que há muito mais país para descobrir além dos destinos mais saturados. A nível internacional, somos cada vez mais reconhecidos por aquilo que nos distingue: autenticidade, diversidade e hospitalidade. As grandes rotas, como a EN2 ou os Caminhos de Santiago, as Aldeias Históricas, do Xisto e de Montanha, ou produtos endógenos como os queijos ou os vinhos, são plataformas de internacionalização em que podemos e devemos fazer a diferença.
De que forma o turismo sustentável está a ser integrado na estratégia regional?
A sustentabilidade é o fio condutor de toda a nossa ação. Não é um capítulo à parte, é a base sobre a qual tudo o resto se constrói. Falo de sustentabilidade ambiental, claro – proteger as paisagens, valorizar os recursos hídricos, incentivar mobilidades suaves – mas também de sustentabilidade económica e social.
Temos de garantir que o turismo chega a todos e que os territórios afetados pelos incêndios voltam a ter esperança. Muitos desses locais estão a renascer com o apoio do turismo, que traz novas atividades, emprego e visitantes.
Paralelamente, estamos a trabalhar com as comunidades intermunicipais, os municípios e várias associações regionais no sentido de certificar o Centro de Portugal como região turística sustentável.
Que mercados internacionais são prioritários para o Centro de Portugal?
Os nossos mercados prioritários continuam a ser os de proximidade, como Espanha e França, que representam uma fatia importante da procura. Mas estamos a diversificar cada vez mais. Países como Alemanha, Reino Unido, Bélgica e Itália têm ganhado relevância, e mercados de longo curso, como os Estados Unidos, o Canadá e o Brasil, estão a crescer a bom ritmo. A grande aposta é trabalhar cada mercado de forma diferenciada.
O turismo religioso e o turismo literário têm vindo a ganhar destaque – que estratégias estão a ser seguidas?
O turismo religioso tem uma força imensa no Centro de Portugal, e isso deve-se em grande parte a Fátima, um dos maiores destinos de peregrinação do mundo. Mas o que estamos a fazer é alargar essa experiência, ligando os Caminhos de Santiago e outros percursos espirituais, como os Caminhos de Fátima, a dimensões culturais e naturais. Não podemos também esquecer a importância crescente do turismo judaico.
No turismo literário, temos dado passos firmes. O Centro de Portugal é berço de alguns dos maiores escritores portugueses, e essa herança é um ativo que queremos transformar em produto turístico. As casas-museu, os festivais literários, os roteiros temáticos e as residências de escrita são formas de aproximar a literatura do público e de projetar o território através da cultura.
Acredito que o futuro passa por uma verdadeira integração entre transportes, que permita ao visitante chegar a qualquer ponto do território sem obstáculos.
Que investimentos estão previstos para melhorar a acessibilidade e as ligações internas da região?
A mobilidade é um tema central para o futuro do turismo no Centro de Portugal. Não cabe à Turismo Centro de Portugal decidir investimentos nesta área, naturalmente, mas temos uma palavra a dizer e uma opinião vincada sobre o assunto. A região tem uma rede ferroviária desadequada, que precisa de ser desenvolvida, e ligações rodoviárias que nem sempre servem as necessidades dos visitantes. Acredito que o futuro passa por uma verdadeira integração entre transportes, que permita ao visitante chegar a qualquer ponto do território sem obstáculos.
O Centro de Portugal é conhecido pela autenticidade – como se mantém este equilíbrio entre crescimento e preservação?
Com respeito. O segredo está em crescer de forma sustentada e sem pressas. O Centro de Portugal é um território autêntico por natureza, e a pior coisa que poderíamos fazer seria transformar essa autenticidade em produto artificial. Temos apostado numa promoção muito cuidada, que privilegia a qualidade e não a quantidade. A autenticidade é, no fundo, a nossa maior riqueza. Se a soubermos proteger, o crescimento virá naturalmente, com mais tempo de estada, maior despesa média e também com mais reconhecimento internacional.
A nossa estratégia passa por tornar o turismo mais equilibrado ao longo do ano e com maior permanência dos visitantes.
Quais são os maiores desafios que o Centro de Portugal enfrenta no setor do turismo?
Os desafios são vários, mas todos ultrapassáveis com visão e trabalho. Um deles, que já referi, é a mobilidade, que continua a ser uma limitação para quem chega do exterior e quer circular pela região. Outro é a sazonalidade, a par com a necessidade de aumentar a estada média. A nossa estratégia passa por tornar o turismo mais equilibrado ao longo do ano e com maior permanência dos visitantes. Isso faz-se através da diversificação da oferta, da cultura, do turismo de natureza, do enoturismo e dos eventos.
Como todo o país, também enfrentamos um desafio de qualificação e retenção de talento. E não podemos esquecer o impacto das alterações climáticas. O turismo tem de estar preparado para responder a fenómenos extremos, como os incêndios, que são cada vez de maior dimensão, como se verificou este ano.
Mas sou otimista. Vejo uma nova geração de empresários e autarcas muito empenhada, com projetos inovadores e um entendimento mais próximo do que é o turismo moderno. Se mantivermos esta energia coletiva, o Centro de Portugal continuará a afirmar-se como uma região de referência.
Como imagina o Centro de Portugal dentro de 10 anos?
Daqui a 10 anos, imagino um Centro de Portugal plenamente consolidado como destino internacional de excelência. Vejo cooperação alargada com o Norte, o Alentejo e Espanha, e um destino que lidera pela autenticidade, pela hospitalidade e pela qualidade da experiência.
Acredito que seremos um exemplo de como o turismo pode transformar sem destruir, crescer sem perder autenticidade e modernizar-se sem perder a alma. Vejo mais jovens empreendedores, mais inovação, mais desenvolvimento local. E vejo visitantes que ficam mais tempo, que regressam e que se tornam embaixadores do nosso território.
Em suma, vejo um Centro de Portugal mais unido, mais confiante e mais internacional. Um lugar que encanta quem o visita e que enche de orgulho quem aqui nasceu ou o escolheu para viver.
Por Inês Gromicho, publicado na edição 355 da Ambitur.



















































