Numa altura de incertezas quanto aos próximos tempos na economia europeia e de como o turismo irá reagir, a Ambitur.pt está a ouvir alguns dos seus Conselheiros no sentido de perceber de que forma perspetivam o momento presente e futuro. Hoje damos voz a Manuel Proença, presidente do Grupo Hoti Hotéis.
O cenário de juros altos nos próximos anos obriga a um novo paradigma de gestão?
O atual enquadramento macroeconómico obriga as empresas a ter mais prudência nos investimentos, uma vez que as perspectivas de médio prazo indiciam um abrandamento da procura turística, os custos continuam com uma forte pressão inflacionista e os custos do capital atingiram valores recordes, desde a última crise financeira de 2008.
Numa indústria de capital intensivo, como a Hoteleira, as condições de financiamento são críticas na decisão de investimento. No atual contexto de aumento das restrições ao crédito através da redução dos rácios de Loan-to-value (LTV) e de aumento das taxas de juro, associado a um aumento exponencial dos custos da construção, antecipam novos tempos difíceis para o investimento no setor.
Na sua opinião, aproxima-se um cenário de retração económica na Europa?
A inversão de ciclo macroeconómico já é uma realidade em algumas das principais economias europeias. A Alemanha já está em recessão técnica, no entanto as economias do sul da Europa, como a portuguesa deverão ter crescimentos nos próximos trimestres, impulsionadas pelos setores exportadores, como o turismo e do investimento dinamizado pelo Plano de Recuperação e Resiliência (PRR). O investimento público e privado previsto para os próximos anos é significativo, o que nos permite algum otimismo sobre o enquadramento macroeconómico da economia portuguesa.
Se, por um lado, há consequências ao nível dos mercados europeus, quais poderão ser as consequências ao nível dos mercados fora da Europa?
A maioria da procura turística nacional é principalmente do mercado europeu, pelo que seremos muito influenciados pelo enquadramento macroeconómico de países como a Alemanha, Reino Unido, França e Espanha. O mercado interno será muito condicionado pela elevada carga fiscal que não dâ indícios de abrandamento.
Relativamente às economias extra comunitárias, como a norte americana, brasileira ou chinesa, as perspetivas são muito melhores do que a que temos sobre o mercado interno europeu. Estamos conscientes que 2024 será um ano repleto de desafios mas preparados para o futuro.
O turismo tem mostrado resiliência em períodos de dificuldade económica. Este facto permite encarar com maior normalidade o futuro do turismo nacional no que diz respeito aos mercados externos?
Portugal tem vantagens competitivas no setor turístico, como resultado da oferta diversificada e abrangente, da localização e das acessibilidades aos principais mercados emissores internacionais, pela perceção de destino seguro, do clima ameno, da simpatia do nosso povo, entre outros. Esta vantagem competitiva permite às empresas do setor turístico nacional continuar a crescer, com mais investimento, mais emprego e consequentemente mais valor para a economia como um todo.
Estou convicto, no que respeita à exportação de serviços turísticos, que irá continuar a crescer e a contribuir positivamente para a Balança de Transações Correntes da economia portuguesa.
Qual a perspetiva de evolução da procura no mercado interno no próximo ano?
A procura turística interna tem duas grandes vertentes, a procura das famílias e a procura empresarial (corporate).
A procura das famílias e dos individuais estará muito condicionada com o rendimento disponível, a carga fiscal e com os níveis de poupança existentes. O aumento das taxas de juro, as elevadas taxas de inflação e os reduzidos níveis de poupança, também condicionarão a procura do turismo, pelo que é expectável uma tendência para a estagnação ou até ligeira diminuição.
A procura do segmento das empresas (Corporate e MICE) deverá ter uma evolução mais positiva, uma vez que o investimento continuará a ter um bom momento e a economia continuará a crescer pouco, mas num sentido ascendente.






















































