Algarve: A rota que mantém viva a tradição do medronho

O Algarve é o destino do mês de novembro da Ambitur. Num roteiro de cinco dias elaborado pelo Turismo do Algarve, percorremos a região de lés a lés, passando pelos 16 concelhos deste vasto território. De Alcoutim ou Vila Real de Santo António até Vila do Bispo ou Aljezur, atravessámos o litoral e o interior, e conhecemos iniciativas e projetos turísticos que contribuem para que o Algarve continue a ser hoje um destino que merece ser visitado ao longo de todo o ano.

Paulo Alves

A serra acorda devagar, envolta pela neblina que sobe dos vales. O cheiro a madeira, o silêncio marcado pelo borbulhar lento das caldeiras e a hospitalidade serrana compõem o ambiente que recebe quem percorre a Rota das Destilas, um dos projetos mais identitários do concelho de Monchique. Mais do que uma simples visita, esta rota é um mergulho profundo na essência de um território onde o medronho não é apenas um produto — é tradição, cultura e comunidade.

“A Serra de Monchique é uma zona de produção de medronho por excelência. O nosso medronho é reconhecido como o verdadeiro”, afirma o presidente da Câmara Municipal de Monchique, Paulo Alves, destacando a combinação única de solo, clima e neblinas atlânticas que molda o sabor e a qualidade do fruto. Mesmo dentro da serra, observa, “há zonas mais propícias do que outras, e é isso que faz desta produção algo tão genuíno.”

A produção continua maioritariamente artesanal. Nas destilarias familiares espalhadas por Alferce e Marmelete, as técnicas ancestrais mantêm-se, juntamente com um modo de vida comunitário. “A aguardente de medronho ainda é produzida aqui por processos tradicionais. São destilarias familiares, que dão dinâmica ao interior da serra e mantêm viva a dimensão social do medronho”, explica Paulo Alves. Durante a época de destilação — de outubro a dezembro — amigos e famílias reuniam-se à volta das caldeiras, num ritual que misturava trabalho, convívio e um copo de aguardente partilhado.

Hoje, o município assegura que essa tradição não se perde. “É uma produção artesanal, mas certificada. Não existe produção em grande escala — isso favorece a qualidade e preserva a identidade do produto”, sublinha o autarca.

A Rota das Destilas: uma viagem guiada pelo sabor e pelas histórias

Criada pela Junta de Freguesia de Alferce, a Rota das Destilas envolve habitualmente três a quatro destilarias locais, num percurso que dura o dia inteiro. Começa com um pequeno-almoço típico — pão quente do forno, tiborna, e claro, um trago de medronho — e segue por várias paragens onde os visitantes contactam diretamente com os produtores.

“Cria-se um ambiente autêntico de destilaria, para quem não conhece. E ao longo do percurso, as pessoas atravessam as nossas paisagens, têm contacto com a gastronomia, com os produtos locais — é uma forma de promover o concelho”, refere o presidente.

Num Algarve dominado pelo turismo de sol e praia, Monchique aposta num caminho diferente. E tem resultados. “No concelho de Monchique, o número de dormidas aumentou 22% entre 2021 e 2024, algo muito significativo face à nossa dimensão”, aponta Paulo Alves.

O medronho, as caminhadas, o turismo de natureza e as paisagens de altitude têm vindo a atrair um público diversificado. “O turismo procura cada vez mais experiências genuínas — aquilo que não encontra noutros lugares. E aqui encontra.”

Para isso têm contribuído vários investimentos: os Passadiços Barranco do Demo, o Miradouro do Cerro do Castelo, áreas de serviço para autocaravanismo e a Casa do Medronho em Marmelete, que recria uma destilaria tradicional ao serviço da comunidade.

Um produto delicado num território frágil

A sustentabilidade é uma preocupação crescente. As alterações climáticas, a seca e, sobretudo, os incêndios — como o de 2018 — deixam marcas profundas. “Nos últimos dois anos tivemos fraca produção, quer pela seca, quer pelos efeitos acumulados do grande incêndio”, recorda o autarca.

Mas também aqui o medronheiro se revela aliado: cresce rapidamente e é constantemente reintroduzido em projetos de reflorestação. “Sempre que plantamos, incluímos o medronheiro. Em quatro anos já dá fruto — cria valor rapidamente e faz parte da nossa flora natural.”

Quanto ao risco de descaracterização devido ao aumento do turismo, o presidente é claro: “Não queremos turismo de massas. Queremos grupos limitados. Se perdermos autenticidade, perdemos o essencial da nossa oferta.”

A sustentabilidade ambiental também está assegurada pelos próprios métodos tradicionais: uso controlado de água, madeira para o lume e reaproveitamento de resíduos agrícolas. “É uma atividade que já por si é sustentável.”

O futuro da Rota das Destilarias depende também da continuidade das gerações. E essa, garante o presidente, parece assegurada: “Este ofício passa de pais para filhos. Há jovens que herdaram a tradição e que podem trazer inovação, especialmente no marketing e na valorização do produto.”

Enquanto isso, o medronho permanece enraizado na vida social de Monchique. Eventos como o “Vamos à Vila” ou a Loja do Mel e do Medronho mantêm vivo o orgulho local, e abrem portas ao público para conhecer e valorizar este património.

E talvez seja essa a verdadeira força desta rota: não apenas mostrar como se faz o medronho, mas revelar como ele molda uma serra inteira — nas suas paisagens, nas suas famílias, e na sua memória coletiva.

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