Algarve: O Autódromo Internacional do Algarve é “dos circuitos mais sustentáveis do mundo”

O Algarve é o destino do mês de novembro da Ambitur. Viemos pois conhecer um espaço icónico da região, o Autódromo Internacional do Algarve (AIA), localizado em Portimão, que com os seus 4684 quilómetros de extensão, e capacidade para 100 mil espetadores, é hoje uma estrutura fundamental para atrair visitantes a este destino do país. Miguel Praia, administrador do AIA e ex-piloto do Mundial de Superbikes, conta-nos a história deste espaço e de que forma se procura reinventar todos os dias, assumindo-se atualmente como uma plataforma de eventos, mais do que apenas uma pista do desporto motorizado. Depois de publicarmos, na sexta-feira passada, a primeira parte desta entrevista, deixamos aqui a segunda parte.

O Autódromo Internacional do Algarve acaba por ser fundamental no combate à sazonalidade na região…

Sim, é verdade. Esta indústria, acima de tudo, move-se fora da época turística. Portanto, a época alta é realmente no inverno, e a época baixa acontece nos meses de julho e agosto, pelo que naturalmente combate totalmente a sazonalidade no Algarve. E, nos mais pequenos eventos que recebemos, podemos ter 300 a 400 pessoas aqui, durante três dias. Pessoas que estão em lazer, a usufruir das suas motos ou dos seus carros, mas a dormir e a ter toda uma experiência na região, nos meses de novembro, dezembro, janeiro, fevereiro, março e por aí fora. Isto é o formato mais pequeno que temos mas que depois, numa corrida média, já temos três ou quatro mil pessoas e, numa grande corrida, como o Mundial de Superbikes ou de MotoGP, temos 125 mil pessoas ao longo de cinco ou seis dias, nos meses de novembro, como aconteceu agora com o MotoGP, e que tem um impacto registado pelas entidades de mais de 80 milhões na região, só o MotoGP. Portanto, eu diria que a nossa operação ascende claramente os 100 milhões de impacto direto na região.

Algo que fazemos também é, dentro da nossa cadeia de fornecimento, tentar que todos os fornecedores sejam locais, a não ser que seja um produto ou um serviço muito específico. Essa é também uma nossa missão e responsabilidade.

Têm parcerias com entidades locais ou associações para encontrar a melhor forma de chegar às pessoas?

Sim, desde a Associação de Turismo do Portimão à Câmara Municipal do Portimão. A Associação de Turismo do Algarve e a Região de Turismo do Algarve são parceiros com os quais estamos totalmente ligados. Participamos em reuniões de estratégia, estamos em feiras cirurgicamente escolhidas, seja na área dos eventos, seja nas áreas mais técnicas, como os salões, as apresentações, o comércio e a indústria. E estamos totalmente em sintonia para garantir que possamos ter uma proatividade e os argumentos necessários, estar com o cliente logo desde o momento do lançamento de um produto num determinado salão, para depois conseguir atrair esse lançamento para o Algarve.

Naturalmente que isto implica uma conexão viável de voos, os parceiros corretos para fazer uma ponte aérea, mas também uma ligação do aeroporto para cá. E temos uma relação também excelente com o Aeroporto de Faro. Muitas vezes estamos a falar de eventos que, do ponto de vista administrativo, implicam mover carros de outro continente, como acontece com a Porsche Cup Brasil, onde toda a estrutura vem do Brasil e chega ao Porto de Sines. E temos que estar ligados com todos estes organismos para que todo este círculo normalmente, ou seja, toda esta montagem, acabe por chegar de outros continentes, e há toda uma logística que nós podemos implementar.

E agradecemos muito porque todos estes canais estão sempre muito recetivos para estarem connosco nas diferentes geografias. Estamos muito atentos aos novos mercados como os Estados Unidos, Canadá, Brasil, o próprio Médio Oriente. Sentimos que, neste momento, a Europa também está a passar uma fase de arrefecimento e, na verdade, já há algum tempo que estamos a trabalhar em novos mercados e quando temos estas iniciativas de trabalhar novos mercados sentimos um tremendo apoio por parte, especialmente, da Associação de Turismo de Portimão, da Câmara de Portimão, da Região de Turismo do Algarve e da ATA nestes movimentos. Estamos totalmente alinhados nesta estratégia porque sabemos que isto diferencia-nos. Somos um dos circuitos com maior ocupação em todo o mundo, temos um posicionamento muito premium. Já somos o circuito mais caro da Península Ibérica e há mais de 20 circuitos na Península Ibérica, temos uma forte concorrência do mercado espanhol. A parte sul da Europa acaba por ser beneficiada naturalmente pela meteorologia, mas só com esta estratégia e com o apoio de todos os operadores locais, incluindo hotéis e empresas, é que conseguimos efetivamente garantir esta ocupação e este posicionamento do ponto de vista do mercado.

Resumindo, em termos de estruturas no AIA, estamos a falar da pista principal…

O AIA tem a pista principal, que é a pista quase que todos conhecem. Depois temos o Kartódromo Internacional do Algarve que é uma infraestrutura completamente independente que, para além de desenvolver experiências de kart, realiza também eventos corporativos e corridas de campeonato do mundo, onde os grandes campeões do futuro naturalmente vão evoluindo até chegar à Fórmula 1.

Depois temos o nosso Off-Road Park, que é uma pista todo-o-terreno que às vezes utilizamos em apresentações de viaturas todo-o-terreno.

E temos o nosso Parque Tecnológico com o Celerator, a nossa primeira infraestrutura do Parque Tecnológico que é, efetivamente, um desafio. O que queremos é conseguir atrair, tal como acontece em outros circuitos que estão perfeitamente implementados há 20 ou 30 anos, todo um ecossistema que sobrevive em redor da indústria automóvel, da indústria dos pneus e da indústria também dos motociclos. O Celerator será então este primeiro ponto de partida, será um hub onde queremos sediar empresas que possam desenvolver novas formas de mobilidade e, acima de tudo, mobilidade que seja toda ela verde. Baterias de carros elétricos, combustíveis sustentáveis, pneus sustentáveis, carros autónomos, carros elétricos, portanto, tudo o que seja derivado da nova forma de mobilidade terá um hub que está a ser planeado em conjunto com a Universidade do Algarve, que naturalmente vai conseguir primeiro responder com recursos humanos totalmente qualificados, para que possamos atrair estes diferentes fabricantes das mais variadas geografias, mas que possamos também responder logo com mão-de-obra qualificada e sediar no AIA todo o ecossistema que esteja ligado a esta indústria, para atrair negócio e gerar, acima de tudo, postos de trabalho.

Portanto, isto é um projeto para os próximos anos também?

O primeiro será inaugurado muito brevemente, está na fase final de conclusão.

E têm mais planos para a expansão da vossa oferta?

O que queremos é atrair agora diferentes fabricantes. Não queremos ter a responsabilidade de implementar mais, o que queremos é fazer a assessoria da implementação de mais projetos do género, por isso estamos atentos ao mercado, estamos a ter diferentes reuniões das mais variadas áreas e indústrias, para conseguir atrair este ecossistema.

Sendo a sustentabilidade ambiental hoje uma questão fundamental, que medidas é que aqui têm implementado para reduzir a vossa pegada e implementar em práticas mais sustentáveis?

Atualmente, somos dos circuitos mais sustentáveis do mundo. Temos seis plantas solares com 26 mil painéis instalados, que alimentam diretamente a nossa infraestrutura. Para além de toda a recolha diferenciada de lixos e também de excessos alimentares nas grandes corridas, onde estamos totalmente alinhados com as diferentes instituições, mas também do ponto de vista de resíduos, águas, todo o reaproveitamento é feito.

Mas não é de agora, este sempre foi um movimento que agora, efetivamente, é uma responsabilidade. Mas sempre foi algo que o nosso fundador, o Paulo, teve em atenção. Sempre estivemos muito à frente deste movimento e desde o princípio deixámos claro que, para a nossa comunidade, era muito importante, e acima de tudo também para os nossos clientes, ter toda esta implementação que termina com a certificação ISO 20121. Exigimos também que toda a nossa cadeia de fornecimento cumpra todas estas normas, dentro da possibilidade. Temos ainda uma comunidade de energia agregada a estes 26 mil painéis solares e a comunidade usufrui de uma tarifa especial de energia em função deste movimento e naturalmente que, com toda esta estratégia, factualmente, compensamos muito mais do que poluímos.

É importante dizer também que já há algum tempo os nossos combustíveis são 100% renováveis, especialmente o diesel, o que faz com que toda a nossa atividade seja o mais sustentável possível, está certificada. É naturalmente uma missão e também uma responsabilidade, mas acima de tudo é uma grande vantagem quando queremos atrair as grandes marcas para realizarem cá os seus lançamentos, porque há uma preocupação generalizada.

Acima de tudo sentimos que também queremos entregar à comunidade, para não passarmos a mensagem de que é uma infraestrutura poluente, seja do ponto de vista de ruído, no qual também temos barreiras e há toda uma plantação de árvores para tentar minimizar da melhor forma o impacto de uma forma geral, seja do ponto de vista de emissões. E, factualmente, neste momento, largamente compensamos aquilo que efetivamente emitimos com esta estratégia.

Nos próximos 10 anos, como diria que vê o Autódromo? 

O que queremos é conseguir garantir as grandes corridas, porque queremos estar com os melhores. Pensamos que o Algarve e Portugal merecem estar com os melhores e gostaríamos, nos próximos 10 anos, de garantir a Fórmula 1 e manter o MotoGP. As grandes corridas são uma responsabilidade porque sentimos que devolvem à região e fazer toda uma distribuição de riqueza na região que valorizamos muito. É um grande esforço que o circuito faz e um risco também na contratação destas corridas, porque estas corridas têm, efetivamente, de fees altíssimos.

E depois conseguir desenvolver áreas como o parque tecnológico, que é talvez a nossa grande bandeira. Ou seja, conseguir atrair fabricantes, atrair esta indústria aqui para o Algarve e desenvolver e consolidar o Algarve também. D

A título de curiosidade, e também para os amantes do desporto motorizado, que nomes famosos é que já passaram por aqui que as pessoas possam identificar e acabar por reconhecer?

É mais fácil dizer todos. Além de terem por aqui passado, é pública a forma positiva e elogiosa como saíram daqui, com um sorriso. Desde o Max Verstappen, ou o próprio Lewis Hamilton, o Valentino Rossi… Todos os pilotos nas duas e nas quatro rodas passaram por aqui, em função, naturalmente, dos calendários.

Mas repare, temos casos curiosos, como pilotos de Fórmula 1 que vêm cá, num ambiente de total confidencialidade, no verão, nas suas férias, para se divertirem connosco. E temos o caso de Max Verstappen, que talvez seja o melhor piloto da atualidade de acordo com os especialistas, que vem também no final de época, sempre em dezembro, aluga o circuito para se divertir com ex-patrocinadores e ex-pilotos, para basicamente devolver também alguma gratidão por tudo o que aqui já viveu.

E isto, para além da obrigação deles virem cá, profissionalmente, porque o calendário assim, os obriga, mas eles escolhem o Algarve, ou para preparar as suas épocas, em janeiro e fevereiro, e são muitos, e alguns deles, por confidencialidade, não podemos dizer nomes, mas há outros que são públicos, portanto, é mais fácil dizer todos, porque, na verdade, são todos.

E não é só a pista, mais uma vez. É a maneira como nós recebemos. Portugal, efetivamente, recebe muito bem, os portugueses são magníficos nessa função, e, efetivamente, são todos estes elogios que ouvimos quando as pessoas saem daqui.

Nesta época que está agora a começar, o que não podemos perder no AIA?

Nós deixamos de ser um circuito apenas virado para a área profissional e, cada vez mais, somos um circuito para os fãs. Queremos envolver muito, desde a freguesia, a cidade, a região, mas também o país. Neste momento, o que eu considero que as pessoas não podem perder é a possibilidade de ter uma experiência fantástica como, por exemplo, estar no paddock e ver o seu ídolo, e experienciar estar numa corrida, no próprio paddock,em função daquilo que seja a preferência de cada um. ~e possível conduzir um fantástico Porsche GT3, ou um AMG GT, ou uma R1 de 200cv, que é o mais aproximado que existe de uma MotoGP, para o dia-a-dia. Portanto, o circuito é, efetivamente, um local de experiências, e eu falo de experiências macro, que podem efetivamente chegar ao nível de uma F1 ou de MotoGP, mas também de experiências singulares, onde qualquer pessoa pode experienciar a sua viatura, ou uma viatura das nossas, numa pista de F1 e MotoGP.

No capítulo desportivo o que não podem perder?

A estreia de Miguel Oliveira no Mundial de Superbikes, em março. É a primeira vez, o último português que lá esteve a tempo inteiro fui eu, portanto, nesta categoria, exatamente, há uma passagem de testemunho, eu diria de 20 anos. Foram 20 anos desde que o último português esteve a tempo inteiro no Mundial de Superbikes.

Depois temos o European Le Mans Series ainda em Outubro, e temos novamente o MotoGP em novembro.

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