Anuário do Turismo 2019 da Moneris: “Um olhar sobre como reinventar o futuro na pandemia olhando para um passado de sucesso”

Anuário do Turismo 2019 da Moneris: “Um olhar sobre como reinventar o futuro na pandemia olhando para um passado de sucesso”

Categoria Advisor, Opinião

Por Carlos Rosa, diretor do Centro de Competências do Turismo da Moneris

Num ano que se esperava que o Turismo em Portugal batesse todos os recordes, a pandemia trouxe exatamente o inverso. O Anuário de Turismo 2019 da Moneris traça a ponte entre estas duas realidades promovendo não só uma leitura de 2019 mas também uma análise dos primeiros meses de 2020. É um documento essencial de reflexão do setor que nos próximos anos terá a necessidade de se reinventar. Este anuário conta também os preciosos contributos da Senhora Secretária de Estado do Turismo Eng. Rita Marques, do Eng. Martinho Fortunato (Marlagos, S.A) , do Dr. Francisco Moser (Discovery Hotel Management), do Dr. Júlio Delgado (Ombria Resort), do Dr. Pedro Costa Ferreira (APAVT) e do Dr. Diogo Assis (VOQIN), a quem muito agradecemos.

Ao olharmos para a atividade turística a maio de 2020 verificamos que aferiu um saldo acumulado positivo na balança turística de 1,95 mil milhões de euros o que reflete uma quebra de 51,4% relativamente ao período homólogo, esta descida só não é mais expressiva porque os indicadores a fevereiro de 2020 anteviam um ano bastante promissor.

O Covid 19, a partir de março, imobilizou toda a atividade económica, em especial o setor do turismo, aferindo-se nos resultados acumulados provisórios de maio quebras de 58,5% no número de hóspedes com reflexo em todos os restantes indicadores.

Os surtos da pandemia não param de aumentar em todo o mundo, prevê-se que as receitas provenientes do turismo, devido à quebra do mercado externo, continuem a decrescer a um ritmo superior a 55%. A região do Algarve sofre fortemente pela exclusão de Portugal do corredor aéreo com Reino Unido, já a área metropolitana de Lisboa é impactada negativamente pelo descontrole da pandemia nos EUA e Brasil (mercados que se encontravam em acelerada expansão).

A tendência para os próximos anos é para que o turista procure locais que lhe “pareçam” mais seguros e mantenha o distanciamento social privilegiando o turismo rural e de natureza, relegando para segundo plano os locais fechados, como seja o turismo de cidade, cultural e a organização de eventos. A utilização intensiva da tecnologia e da robotização veio para ficar e é fundamental nesta fase.

Devido a esta crise sem precedentes e temporalmente indefinida, a União Europeia no dia 21 de julho de 2020, chegou a um acordo financeiro entre os diversos países que a integram no sentido de disponibilizar fundos para a recuperação económica.

O plano europeu de recuperação disponibilizou para Portugal a verba de 45 mil milhões de euros para serem executados até 2027, dos quais 15,3 mil milhões a fundo perdido. O governo português destinou 300 milhões de euros para a região do Algarve de forma a compensar a quebra no turismo.
A crise vai continuar, este pacote de medidas injeta na economia cash-flow, o que permite o investimento, a retoma da produção e do consumo.

O investimento deve ser criterioso e as verbas atribuídas controladas e auditadas para que não aconteça o mesmo que no passado.

Penso que todos podemos aprender com a atual situação e tirar conclusões acerca das estratégias adotadas por alguns grupos económicos que optam massivamente por desmobilizar a sua produção para destinos Asiáticos; sustentados pela exploração infantil, horas infindáveis de trabalho diário e produtos de baixa qualidade.

As verbas a disponibilizar não podem destinar-se apenas a melhorar o sistema de saúde, aumentar e eletrificar a rede ferroviária, construir mais aeroportos; todo este investimento deve obrigatoriamente ser consistente com o aumento do número de empresas produtoras e exportadoras pois só assim se cria riqueza; caso contrário é mais do mesmo, ou seja, a perpetuação do deficit da balança comercial, um país subdesenvolvido, dependente e a “mendigar” sucessivamente ajuda aos seus parceiros da UE.

O tempo de decisões e o seu timing será crucial para o setor e para os serviços conexos que este alimenta pelo qual é imperativo que todos deixemos para trás a vitimização face às circunstâncias e possamos ser agentes de mudança e transformadores do setor e do país.

A gestão de crise, o enquadramento estratégico, a revisão dos objetivos e metas, a restruturação de planos de negócio e o acesso aos apoios disponibilizados são fundamentais para uma adaptação às novas condições e condicionantes socioeconómicas.

Este artigo foi publicado na edição 330 da Ambitur.