Caminho de Torres: Um itinerário jacobeu que ganha novo impulso no Norte de Portugal

Caminho de Torres: Um itinerário jacobeu que ganha novo impulso no Norte de Portugal

Há uma forma diferente de caminhar até Santiago de Compostela. O Caminho de Torres, que liga Salamanca a Santiago de Compostela, em Espanha, ao longo de cerca de 600 Km, e une a Ponte do Abade, em Sernancelhe, a outras localidades como Amarante, Guimarães e Braga, passando ainda por Ponte de Lima, onde entronca com o

Torre do castelo. Pinhel, Portugal.

Caminho Central Português.

Este itinerário adota o nome do seu mais célebre peregrino, o escritor salmantino Diego de Torres Villarroel e assume-se como um percurso jacobeu que passa por antigas estradas medievais que ligavam Salamanca e o interior de Portugal ao ocidente peninsular e às vias litorais que permitiam o acesso a Santiago de Compostela. Ao longo de mais de 20 dias de caminhada, os peregrinos podem desfrutar de um percurso diverso e com identidade própria, que é duro mas fascinante, e que embora seja ainda desconhecido tem vários pontos de interesse para o culto a Santiago. Quem se aventura por estes quase 600 km terá de enfrentar subidas íngremes e longas jornadas solitárias, mas passará também por centros urbanos inesperados e trechos deslumbrantes de paisagem, conhecendo um património surpreendente.

Diego de Torres Villarroel fez o Caminho de Santiago em 1737, ao longo de cinco meses e não hesitou em descrevê-lo como a prova mais penosa da sua vida. Começou a sua peregrinação na companhia de criados mas chegou a Braga sem calças e quase descalço, descrevendo o itinerário e a paisagem num poema conhecido por “Peregrinación al glorioso Apóstol Santiago de Galicia”.

A dimensão histórica deste percurso é uma surpresa para os atuais peregrinos que podem contactar com antigos mosteiros e albergarias, pontes medievais e modernas, e um conjunto impressionante de marcas do culto a Santiago. O acesso a Lamego por sudeste, a travessia do rio Douro ou o acesso à estrada medieval que ligava Amarante a Braga, passando por Guimarães, são aspetos da autenticidade deste caminho e das suas profundas raízes na Idade Média.

Natureza e Património
O Caminho de Torres segue ao ritmo da natureza, passando por paisagens arrebatadoras. Das planícies solitárias de Salamanca às míticas subidas da Falperra e da Labruja, passando pelos deslumbrantes socalcos do vale do Douro, o

Ponte e Mosteiro de São Gonçalo. Amarante, Portugal.

caminho desafia os peregrinos a caminhar ao ritmo da natureza. Prepare-se pois para enfrentar subidas penosas e descidas acentuadas, mas com a certeza de que estará a trilhar um mundo marcado por antigos viajantes no coração setentrional de Portugal.

A par da natureza o viajante encontrará quatro sítios classificados como património mundial e seis catedrais. Mas tão ou mais importantes serão as discretas heranças do culto ancestral a Santiago, como a mais antiga representação escultórica do apóstolo em Portugal, inscrita na fachada principal da igreja matriz de Sernancelhe. O pórtico do perdão da catedral de Ciudad Rodrigo, o conjunto monumental de São Gonçalo de Amarante ou a igreja de Santiago de Braga são materializações impressivas da relevância jacobeia nestes territórios. E há mais, desde a ponte monumental de Ucanha à singela ponte Cavalar, ou do forte de Nuestra Señora de la Concepción à cidade fortificada de Valença, ou ainda da fonte de mergulho de Póvoa de Rei à fonte de Santiago em Braga. Um imenso património que reflete as raízes históricas deste itinerário.
Magia e superação

A magia do Caminho de Torres pode depreender-se por ser um itinerário repleto de valores imateriais, lendários e vernáculos, onde a diversidade da paisagem é um dos maiores atrativos. Às planícies de Salamanca sucedem-se as vias pedregosas da Beira Alta, as plantações de castanheiros em Sernancelhe e de macieiras em Tarouca ou os socalcos verticais do Alto Douro e as vinhas alinhadas do Minho.

E por ser mágico desafia os peregrinos a conhecer os seus limites e a ultrapassá-los, ao longo de quase 25 dias de percurso. Os primeiros troços são solitários e são poucos os pontos de apoio, sendo perfeitos para momentos de introspeção e comunhão com a natureza. Na verdade, são muitas as etapas deste caminho que não dispõem ainda de albergues pelo que deverá preparar-se antecipadamente para evitar problemas de desidratação ou para encontrar um sítio onde pernoitar. O sentimento de partilha adquire aqui mais valor e os momentos de contacto com as populações locais depressa se tornam em episódios afetivos.
Ao entrar em Portugal, acentuam-se as dificuldades físicas, com subidas que se sucedem até alcançar o ponto mais alto, no Alto de Quintela, a quase 1000 m de altitude. Mas, depois de dias de isolamento, espera-o o contacto com centros urbanos mais desenvolvidos e, neste momento, está a dias de abraçar o Apóstolo Santiago e as últimas etapas são de uma ansiedade expectante.

Um caminho literário e cheio de histórias
É bem verdade que o caminho deve o nome a um célebre poeta mas outros escritores encontrará ao longo do

Ponte velha sobre o rio Távora. Vila Novinha, Trancoso, Portugal.

percurso. Camilo Castelo Branco (Pinhel), Afonso Ribeiro (Rua, Moimenta da Beira), Aquilino Ribeiro (Sernancelhe e Moimenta da Beira), José Leite de Vasconcelos (Ucanha, Tarouca), Miguel Torga (Lamego), Teixeira de Pascoaes (Amarante) ou Gil Vicente (Guimarães) são apenas alguns nomes que deixaram profundas marcas nas terras onde nasceram ou às quais estiveram ligados. Por isso, percorrer o Caminho de Torres é também desvendar esse fundo mais vasto da cultura literária portuguesa.

Dois séculos e meio depois da peregrinação de Diego de Torres Villarroel, Luís António Miguel Quintales renovou o percurso, em parceria com María Soledad Beato, e estruturou o Caminho de Torres como um percurso jacobeu moderno, reforçando a sua identidade própria através de vias afastadas do tráfego automóvel e que favorecem uma relação íntima com a natureza. Um trabalho que foi seguido por um projeto de valorização cultural e turística, desenvolvido em parceria por cinco comunidades intermunicipais – Alto Minho, Ave, Cávado, Douro e Tâmega e Sousa – e envolvendo 15 municípios.

E como não há caminho sem peregrinos, e estes não existem sem haver caminho, convidamo-lo a fazer parte do Caminho de Torres e a ser protagonista da História. O projeto de valorização cultural e turística do Caminho de Torres parte da evidência de um caminho histórico de Santiago para gerar mais-valias culturais e turísticas que beneficiem os territórios por onde esta rota jacobeia passa. São os peregrinos os verdadeiros agentes da História e a eles cabe deixar legado das suas experiências. Como Diego de Torres Villarroel fez.

Este artigo foi publicado na edição 334 da Ambitur.