Centro de Portugal: O que ainda têm os monumentos para contar?

Centro de Portugal: O que ainda têm os monumentos para contar?

O que têm o Mosteiro da Batalha e o Tiranossauro-Rex em comum? E de onde vem a expressão “favas contadas”? Sabia que o Colégio das Artes se tornou a sede da Inquisição? Passamos três dias no Centro de Portugal a conhecer as histórias menos conhecidas dos monumentos Património da Humanidade e descobrimos que ainda há muito com que nos surpreendermos.

É mais um recanto charmoso semelhante a outros que existem na cidade dos estudantes. Um recinto quadrado, mais para o comprido, rodeado de todos os lados por casario antigo, algumas árvores e fresco durante a manhã. Um espaço aprazível que contrasta com a toponímia. Pátio da Inquisição.

A Câmara de Coimbra acabou de inaugurar a exposição “Judeus de Coimbra – da Tolerância à Perseguição” numa parte do edifício que é conhecido como Edifício da Inquisição e que até há pouco tempo estava ocupado por serviços camarários. “Era uma vontade antiga da autarquia contar a história destas paredes à população”, explica Ágata Antunes, a nossa guia pela exposição que conta a história dos judeus em Coimbra, documentada desde o século X.

“Nós estamos na Inquisição”, diz a técnica quando alcançamos o espaço do que era o refeitório do Antigo Colégio das Artes, antes de o edifício passar para o Tribunal do Santo Ofício, por volta de 1571. Ali funcionou toda a operação de tormento até ao fim, em 1821. O de Coimbra foi dos tribunais que mais tempo se manteve, com 11 mil casos julgados.

É bastante irónico que exatamente no mesmo espaço onde funcionou um colégio que pretendia ensinar as ideias renascentistas e humanistas da época, funcionasse logo de seguida a sede de uma instituição repressiva que condenava e reprimia essas mesmas ideias. Apesar de, inicialmente, se destinar a vigiar as práticas do judaísmo, a Inquisição alargou a sua atividade a vigiar comportamentos e costumes: a leitura de livros proibidos, a sodomia, a bruxaria, etc., tornando-se um organismo repressivo, de censura, ao serviço do rei.

Saímos novamente para a manhã luminosa de agosto e descemos até à Rua da Sofia, que faz parte do conjunto que desde 2013 está classificado como Património da Humanidade pela UNESCO: Universidade de Coimbra, Alta e Sofia. Um passeio pela Sofia – como se lhe referem os locais – é um passeio pela história de Coimbra.

Os historiadores dizem que a rua seguiu o modelo da universitária Rue de Sorbonne, em Paris. O plano inicial da rua foi idealizado pelo reformador Frei Brás de Barros e consistiu na construção de um campus universitário em linha, sendo que de um lado se alinhavam os diferentes colégios e do outro os edifícios de habitação e comércio. Trata-se de colégios religiosos, claro está, e ainda hoje eles lá estão, o Mosteiro de Santa Cruz, o Colégio do Carmo, o Colégio da Graça, o Colégio de São Tomás. Ou seja, bem antes de haver a Universidade lá em cima, já havia estudantes em Coimbra.

Alguns pormenores para que nos chamam a atenção testemunham as vivências anteriores, como as “janelas de avental” (com pedra branca em baixo para os trajes do monges não se sujarem enquanto secam), as telhas de faiança do edifício da Casa do Castelo Editora, a taberna Mijacão, na perpendicular Rua Nova, que hoje serve bifanas mas mantem o nome de outros tempos.

Encaminhamo-nos para o Terreiro da Erva e para o almoço, no restaurante Refeitro da Baixa, a funcionar a meias com uma olaria. Neste local funcionou a Cerâmica Antiga de Coimbra desde 1824 até 2008. Eduardo Bebiano Correia, 44 anos, herdou a fábrica da família e em 2015 deixou Lisboa e o trabalho de economista e veio “pegar nisto” em conjunto com a irmã, arquiteta.

O excelente trabalho de recuperação do espaço já lhes valeu o Prémio Vilalva de recuperação de património. Manteve-se tudo o que foi possível manter da fábrica antiga, enormes traves de madeira, escadas, fornos e, mesmo na operação, até agora só trabalharam com os moldes antigos. Para já estão a trabalhar com encomendas, como a que terminaram para o Parlamento Europeu, mas pretendem ainda este verão abrir uma loja ao público. Com os workshops querem criar um circuito dinâmico entre o restaurante, que serve comida tradicional com toques de sofisticação, “e alcançar um projeto que valha pela experiência”.

Coimbra para trás, a próxima paragem é o centenário Café Paraíso, em Tomar. Ainda hoje é local de tertúlia para os estudantes da cidade. Por ser fim de semana e tempo de férias não havia estudantes mas havia turistas e animação de rua com a banda Drama & Beiço. Depois de um café e um Beija-me Depressa (pequenos bolinhos de doce de ovos) alojamo-nos no Hotel República, a dois passos dali e outro bom exemplo de recuperação do património urbano.

Ao fim da tarde subimos a encosta em direção ao ex-libris da cidade e sede portuguesa de uma das mais importantes ordens militares da época medieval, os cavaleiros templários. A mística que envolve o Convento de Cristo e o Castelo Templário, também Património da Humanidade, sente-se no ar. O céu ganha tonalidades lilases o que contribui para o cenário.

Uma verdadeira encenação foi o que os proporcionou a Thomar Honoris, com um espetáculo de dança medieval e um treino de combate templário. Além da faceta recreativa, a associação sem fins lucrativos, tem também um propósito educativo. João Gregório vai explicando, entre os atos, sobre a vida dura dos templários, de oração, treino e combate, e tecendo explicações sobre as roupas, as armas e as armaduras.

A ementa do jantar medieval foi tirada de textos da época, caldo de faisão, coelho na abóbora, favas com javali, sericaia e o inevitável vinho quente. A Thomar Honoris está disponível para eventos e pode ser contatada através das redes sociais.

A visita ao Convento fez-se depois de jantar, já noite cerrada e de lanternas apontadas ao que a guia nos quer mostrar. Maria da Luz Lopes, do Serviço Educativo do Convento de Cristo, fez-nos uma visita orientada para alguns aspetos menos conhecidos do Convento, ou conventos, melhor dizendo, uma vez que ao longo dos séculos e dos reinados novas dependências e estilos foram sendo acrescentados e modificados dando origem ao grande complexo que existe. Se tiver interesse numa visita noturna pode contatar o serviço educativo, mas está disponível apenas para grupos.

Na manha seguinte, João Fiandeiro, da Caminhos da História, espera-nos para uma volta à cerca do convento. No século XVI era um espaço agrícola e de vivência dos monges, hoje é a Mata Nacional dos Sete Montes, local de natureza, passeio e exercício para os nabantinos.

No século XIX, com a extinção das ordens religiosas, António Costa Cabral, Conde de Tomar (depois Marquês) adquiriu o Convento (ou uma parte dele) para o tornar sua residência. Mas, mesmo para um ministro do reino, não era fácil manter, e o conde acumulou uma dívida predial. Em 1932 o convento vai a hasta pública e um representante do tesouro, enviado de Salazar, arrecadou-o por 750 contos. A cerca foi entregue às Matas Nacionais que ali fez mais uma mata idílica à semelhança da do Buçaco.

Depois de mais uma refeição medieval, na Taberna Antiqua, deixamos a cidade templária. Antes de Alcobaça paramos em Cos (ou Coz, não parece haver consenso) para saber um pouco da história do Mosteiro de Santa Maria de Cos, que foi o único mosteiro feminino sob a influência dos monges cistercienses, baseados no Mosteiro de Alcobaça. Começou por receber mulheres que queriam seguir uma vida santa ou “viúvas piedosas” e mais tarde foi transformado numa ordem de monjas de Cister.

Quando as ordens foram extintas, geralmente às monjas permitia-se que permanecessem até que a última morresse mas as de Cos foram para Odivelas. O mosteiro desapareceu, as pedras foram vendidas e hoje o que permanece é a igreja. O mais impressionante é o coro das monjas, com o seu maravilhoso cadeiral de 106 assentos.

É, no entanto, possível observar ainda algumas particularidades de um mosteiro feminino, como o mirante na torre para observarem o exterior ou as grades nas janelas. Outras histórias ecoaram no tempo, como a que atribui a expressão “favas contadas” ao tipo de boletim de voto utilizado pelas monjas ou a origem do pão de ló de Alfeizerão, que é atribuída às criadas que foram deixadas para trás aquando da saída das monjas.

A 20 metros do mosteiro encontramos Eurico Leonardo do projeto Coz Art, que recupera o conceito do cesto tradicional de junco, com fins solidários. Os lucros dos trabalhos, cestos mas não só, vão para o Centro de Bem Estar Social de Cos que apoia idosos em situação de maior vulnerabilidade.

É num passo acelerado que fazemos o percurso camoniano Pedro e Inês em Cerâmica de Alcobaça, à margem do Alcoa. As 10 fábricas participantes traduziram em cada peça o universo literário e também simbólico do amor de D. Pedro I e Inês de Castro. As duas figuram foram imortalizadas no Mosteiro de Alcobaça e é para lá que nos dirigimos de seguida para assistir ao concerto de encerramento do Cistermusica – Festival de Música de Alcobaça. O grupo Accademia del Piacere encheu a sacristia, de gente e dos sons da “música mestiça na Espanha barroca”.

Numa quinta dos finais do século XIX, do vitivinicultor José Eduardo Raposo Magalhães, nasceu – já no século XX e depois da aquisição da quinta pela então Junta Nacional de Vinhos (JNV) aos herdeiros para a transformação da adega em depósitos industriais, onde se depositava o vinho corrente que dava de beber a Portugal – “o maior e mais completo museu do vinho português”.

O espaço museológico só começou a crescer a partir dos anos 60 e um conjunto de coleções de grande valor foi se construindo na sequência do fecho de alguns armazéns da JNV e da perseverança de engenheiro Augusto Paixão Marques, o fundador e grande impulsionador do Museu do Vinho de Alcobaça.

Tem mais de 10 mil peças e entre as mais emblemáticas estão duas talhas do século XVII e um quadro da JNV com os números da exportação. O museu, propriedade da Câmara de Alcobaça em parceria com a Adega Cooperativa, tem visitas guiadas de hora a hora e também funciona como espaço cultural e de eventos. No final há uma prova.

O museu mantem ainda uma taberna típica, onde jantamos. O catering esteve a cargo do chef Ricardo Raimundo, das Caldas da Rainha, um divulgador entusiasta dos produtos da terra e que nos preparou porco malhado grelhado num forno a lenha instalado na sua Piaggio APE 5. Do tuk tuk dos petiscos saíram ainda um bacalhau e enchidos assados. Na mesa das sobremesas destaque para uma saborosa tarde de maça, ou não estivéssemos na terra dela.

O dia amanhece chuvoso na Batalha, onde pernoitamos, no Real Abadia Congress & Spa Hotel. Encontramos a Emilie Batista, do Museu da Comunidade Concelhia da Batalha, e a Ana Moderno, da autarquia da Batalha, em Reguengo do Fetal junto à palmeira que informalmente dá nome ao largo.

A pequena freguesia, no sopé da Serra de Aires e Candeeiros, é conhecida pela envolvência natural e por ter sido dos seus arredores que foi extraída a pedra usada na construção do Mosteiro de Santa Maria da Vitória (mais conhecido por Mosteiro da Batalha), que se encontra a cinco quilómetros.

Para nos explicar melhor sobre a geologia da região, juntou-se a nós Danilo Guimarães, da Gruta da Moeda. Estas são grutas calcárias do período jurássico situadas na freguesia de São Mamede, Batalha, muito próximo do Santuário de Fátima, e uma atração turística.

Enquanto as grutas têm que ficar para outro dia, vamos ver o Buraco Roto que é uma gruta/túnel que entra pela montanha e não sabemos onde acaba porque não nos aventuramos mais do que 10 metros. Ali foram encontrados vestígios da Idade do Bronze e no inverno transforma-se numa cascata abundante.

Antes de seguirmos para as Pedreiras Históricas, fazemos uma paragem para apreciar a Ermida do Santuário de Nossa Senhora do Fetal. À semelhança de muitos outros espalhados pelo país este local nasceu de um “milagre” do pão. O que o torna mais singular é a procissão do caracol. No primeiro domingo de outubro toda a aldeia e o caminho até ao santuário são iluminados com lucernas feitas de cascas de caracol cheias com azeite e acesas com um pavio.

A Pedreira de Valinho do Rei e a de Pidiogo são os dois locais que estão identificados e classificados como a origem da pedra usada na construção do Mosteiro da Batalha (1387) e, mais tarde, nas obras de recuperação depois do terramoto de 1755.

A primeira pedreira tem cerca de 15 metros de profundidade e uma frente com cerca de 50 metros e ainda conserva vestígios da extração. “Não deixa de ser curioso que o Mosteiro e o Santuário de Nossa Senhora de Fátima tenham sido construídos com calcários da época do T-Rex”, refere Danilo Guimarães.

É verdade. É curioso. Porque não ensinam na escola a história desta maneira? Tudo tem dois lados e há lados que são mais apetecíveis. Com este e outros pensamentos seguimos para almoçar no Burro Velho, na Batalha, antes de voltar para casa.

Cláudia Silveira, a jornalista viajou a convite do Turismo Centro de Portugal. Esta reportagem foi publicada na edição 335 da Ambitur.