Centro de Portugal – Uma viagem de regresso aos Lugares Património Mundial

Centro de Portugal – Uma viagem de regresso aos Lugares Património Mundial

O desafio de conhecer melhor Portugal foi lançado pelo Turismo Centro de Portugal e a Ambitur aceitou o convite para regressar aos quatro magníficos Lugares Património da Humanidade desta região. Uma viagem de três dias que nos levou a Coimbra, Tomar, Batalha e Alcobaça, num percurso de redescoberta de monumentos, paisagem e gastronomia que enriquecem a alma num convite a voltar a viajar, dentro do país.

Naquele que é, há já três anos, reconhecido como o melhor destino turístico do mundo, há muito para conhecer ou redescobrir. E mostramos-lhe quatro razões para deixar os tempos do confinamento para trás e viajar pelo Centro de Portugal, conhecendo as estórias e a História por detrás de quatro elementos patrimoniais da região inscritos na lista do Património Mundial da UNESCO.

Universidade de Coimbra

Biblioteca Joanina, foto de Vitor Murça

Começamos por Coimbra, cidade atravessada pelo Rio Mondego e que, noutros tempos, foi capital do reino de Portugal. Conhecida pelo seu vasto património histórico arquitetónico, a Cidade dos Estudantes permite-nos recuar aos tempos do Império Romano, com os seus muros, arcos e escadas medievais. E é aqui que podemos visitar a Universidade de Coimbra, Alta e Sofia.

Fundada por D. Dinis, em 1290, é a mais antiga universidade portuguesa e uma das mais antigas do mundo. Em 1772, com a implementação dos “Estatutos Pombalinos”, fruto da visão do Marquês de Pombal, a Universidade de Coimbra (UC) sofre a maior reforma desde a sua fundação, com a modernização do ensino e um foco especial nas ciências. Foram estas reformas que levaram à construção de novos edifícios e espaços, tais como o Observatório Astronómico, o Laboratório Químico, o núcleo inicial do Jardim Botânico, a Galeria de História Natural, o Gabinete de Física Experimental e a Imprensa da Universidade.

Iniciamos o percurso pela Sala Grande dos Atos, também conhecida por Sala dos Capelos, onde D. João I foi aclamado Rei e ainda hoje utilizada em provas públicas de doutoramento ou outros atos solenes. Aqui podemos conhecer a Sala do Exame Privado, o local onde o rei pernoitava, e a Sala das Armas, com as alabardas da Guarda Real Académica, ainda hoje utilizadas pelos archeiros (guardas) nas cerimónias académicas solenes.

Segue-se a Capela de S. Miguel, com o seu interior revestido a azulejos tipo “tapete” de 1663. Aqui é possível vermos o altar dedicado a Nª S. da Luz, padroeira dos estudantes, do lado esquerdo, e a imagem de Nª S. da Conceição, padroeira da Universidade, do lado direito. A não perder o órgão de 2000 tubos que ainda funciona.

Daqui seguimos para a Biblioteca Joanina, inicialmente chamada de “Casa da Livraria”, construída entre 1717 e 1728, sob encomenda do Rei D. João V. É, sem dúvida, uma obra-prima do Barroco, exaltando a riqueza do império e combinando materiais exóticos. Ao todo são três salas com 72 estantes dispostas em dois pisos, de madeira dourada e policromada, e cerca de 60 mil livros. Os tetos deslumbrantes são da autoria de António Simões Ribeiro e Vicente Nunes, que usaram uma pintura em “trompe l’oeil” cujo objetivo é criar uma ilusão de ótica. A Biblioteca conta com exemplares raros de coleções dos séculos XVI, XVII e XVIII, que representam o que de melhor se produzia na Europa culta daquele tempo. Só para lhe “aguçar o apetite”, é aqui que estão os Lusíadas, de 1572; a Bíblia de Abravanel, da segunda metade do século XV; ou a Bíblia Latina das 48 linhas, de 1462. É pois uma preocupação a preservação dos livros, e as estantes de carvalho são uma ajuda contra inimigos como a humidade e diferenças de temperatura, ou insetos bibliógrafos. E, para quem não sabe, há outros ajudantes essenciais nesta tarefa de preservação: uma colónia de morcegos que, durante a noite, se alimenta dos diversos insetos que por ali aparecem.

Museu da Ciência, de Vitor Murça

Deixamos agora para trás a Universidade de Coimbra mas não sem antes visitar outro polo, o Museu da Ciência, que se encontra temporariamente encerrado. Trata-se do mais antigo museu de história natural e instrumentos científicos do país, com os primeiros objetos da coleção a datarem do Século das Luzes. Normalmente estão disponíveis duas exposições permanentes: Segredos da Luz e da Matéria e Visto de Coimbra – Os Jesuítas entre Portugal e o Mundo.

E se ainda não sabe o porquê deste espaço ser considerado Património Mundial, a UNESCO dá-lhe três motivos: foi um local de transmissão do saber entre os territórios que faziam parte do Império português; possui um património arquitetónico muito rico; e contribuiu para tornar a língua portuguesa mais conhecida e falada.

Convento de Cristo

Convento de Cristo, de Nuno Moreira

De Coimbra viajamos até Tomar, a Cidade Templária que se desenvolveu a partir da construção do Castelo por D. Gualdim Pais, Grão-Mestre da Ordem, e que viria a ser a sede dos cavaleiros-monges em Portugal. Como os Cavaleiros do Templo precisavam de um espaço sagrado para orar, decidiram construir uma Charola, ou seja, uma capela em polígono (16 lados nas paredes de fora) com um centro octogonal, seguindo o estilo românico. Entramos pela Porta de Santiago onde vislumbramos parte da muralha, uma cópia de Jerusalém, e a maior de Portugal e da Europa. No interior, o claustro principal, é considerado uma obra-prima da Renascença europeia. Mas espera-nos ainda outro ponto alto desta viagem pela História de Portugal: a Janela do Capítulo, junto à igreja, uma obra-prima do estilo manuelino. Esta é considerada a mais bela janela do mundo e nela é possível observar vários elementos decorativos deste estilo, como a esfera armilar, o brasão do reino, boias, troncos, folhagens cordas, correntes e até a cabeça de um dragão a cuspir fogo. Uma maravilha arquitetónica que merece alguns minutos de admiração.

São várias as áreas que percorremos nesta visita por aquela que é a maior área monumental de Portugal, e uma das maiores do mundo, classificada pela UNESCO como Património Mundial em 1983. E para esta distinção muito contribuíram a Charola, a Janela do Capítulo, o novo Convento renascentista (Claustro Principal) por ser um dos maiores a nível europeu, e ainda o facto de aqui existirem duas construções que mostram dois momentos diferentes da História de Portugal: a charola do século XII, quando ainda se desenhavam as fronteiras do reino de Portugal; e a Janela do Capítulo, do século XVI, quando o reino sai das suas fronteiras e se expande para o mundo.

Mosteiro da Batalha

Mosteiro da Batalha, de Alexandre Delmar

O terceiro marco histórico nesta viagem e Panteão Nacional é o Mosteiro de Santa Maria da Vitória, ou Mosteiro da Batalha, que deve a sua existência à famosa Batalha de Aljubarrota, que opôs portugueses e castelhanos. Foi D. João de Castela, que pretendia governar Portugal, que prometeu a Nossa Senhora construir um mosteiro em sua honra, caso vencesse. E cumpriu a sua promessa, investindo num edifício gótico grandioso, com a estátua de D. Nuno Álvares Pereira, estratega na famosa batalha, a cumprimentar quem chega.

O mosteiro demorou cerca de 180 anos a ficar concluído e, na sua obra, trabalharam mais de 10 mestres construtores e milhares de artistas e artífices. A igreja obedecia à regra do “quanto mais alta, mais majestosa”, com 80 metros de comprimento, 22 m de largura e 32 m de altura. Destaque para os vitrais coloridos, que lançam uma luz mágica no chão e nas paredes, e uma das marcas do estilo gótico. Sabia que terá sido no Mosteiro da Batalha que a arte de fazer vitrais em Portugal se iniciou? Claro que aqueles que hoje vemos tiveram de ser restaurados e contêm apenas alguns fragmentos dos originais.

Na Sala do Capítulo impressiona a abóbada estrelada com oito pontas que o mestre Huguet arrojadamente projetou sem um pilar central que a sustentasse. É aqui que se encontra o Monumento ao Soldado Desconhecido, uma homenagem aos militares portugueses que morreram na I Guerra Mundial. Destaque ainda para a Capela do Fundador, onde podemos ver o túmulo de D. João I e D. Filipa de Lencastre, o primeiro e maior túmulo conjugal construído no nosso país. E para o fim ficam as chamadas Capelas Imperfeitas, precisamente por ficaram inacabadas e não por serem nada menos do que perfeitas. São o segundo mausoléu régio deste mosteiro, mandadas erguer por D. Duarte I.

O Mosteiro da Batalha sofreu com o terramoto de 1755 e com as invasões das tropas de Napoleão, ficando durante algum tempo ao abandono. Foi D. Fernando II que resolveu inicar a primeira grande obra de restauro de monumentos em Portugal. Hoje é Património Mundial da UNESCO desde 1983, considerado uma obra-prima da arquitetura gótica e inaugura o estilo Manuelino. Além disso, foi um grande centro de criatividade, onde se desenvolveram várias áreas artísticas e aqui que encontramos o maior e mais antigo conjunto de vitrais portugueses. Por fim, a distinção deve-se ainda ao facto de edifícios góticos, como a Capela do Fundador e a Igreja, terem sido preservados de acordo com as características originais.

Mosteiro de Alcobaça

Mosteiro de Alcobaça

A nossa viagem termina em Alcobaça, fortemente ligada à fundação de Portugal. Tudo começa com a decisão de D. Afonso Henriques doar uma parcela do centro do país – 44 mil hectares – aos monges da Ordem de Cister, com a missão desta comunidade ordenar este território. Assim nasce primeiro uma igreja, a primeira e maior de estilo gótico do nosso país; depois espaços para viverem e trabalharem. Hoje o Mosteiro de Alcobaça é um verdadeiro cartão-de-visita no que diz respeito ao trabalho ornamental, e representa o despojamento cisterciense. A ausência de decoração e o aproveitamento dos recursos naturais são duas características desta ordem, assim como a preocupação com a gestão da água. Na verdade, os monges cistercienses foram os maiores engenheiros hidráulicos do seu tempo, construindo aquedutos para trazer água potável das nascentes e uma conduta para levar água à cozinha do mosteiro. Foi também em Alcobaça que funcionou uma das mais importantes oficinas de produção de livros da época medieval, o chamado Scriptorium, que produziu centenas de códices (os livros da época), dos quais ainda restam 500, hoje guardados na Biblioteca Nacional, em Lisboa.

A construção a igreja iniciou-se em 1178 e demorou várias décadas. Com 104 metros de comprimento, nela encontramos uma grande rosácea que permitia a entrada de luz, e três naves à mesma altura (22 metros). É no Mosteiro de Alcobaça que se encontram os túmulos de D. Pedro e D. Inês de Castro, personagens da famosa história romântica e trágica que teve lugar em Coimbra.

São características como o tamanho, a pureza e simplicidade da sua arquitetura que lhe conquistaram o “selo” de Património Mundial, em 1989. Mas a UNESCO aponta outros motivos: como a luz, a pureza e a simplicidade da sua arquitetura; a beleza dos túmulos de D. Pedro e D. Inês; a inteligência do sistema de condução da água criado pelos monges; e o facto de preservar vários edifícios que existiam na época, como a Igreja, o Claustro, o Dormitório, o Refeitório ou a Sala do Capítulo.

Termina assim esta nossa viagem à beleza arquitetónica e monumental do Centro de Portugal, um “tesouro” da Humanidade que deve ser preservado e que nos permitem redescobrir a História e cultura de Portugal. Hoje são mais de 1000 os lugares classificados como Património Mundial da UNESCO e, em três dias, mostrámos-lhe quatro deles. Deixe-se inspirar e rume ao Centro do país para os conhecer ou revisitar.

 

Onde dormir

– Hotel Vila Galé Coimbra, Rua Abel Dias Urbano, 20, Coimbra

Tel: 239 240 000

– Thomar Boutique Hotel, Rua de Sta. Iria, 14, Tomar

Tel: 249 323 210

 

Onde comer

Coimbra:

Queijaria de Coimbra, Rua da Louça, 11-14 (239 068 793)

– Dux Taberna Urbana, Rua dos Combatentes da Grande Guerra nº 102 (239 402 818)

– Cervejaria Praxis, Urbanização Quinta da Várzea, Lote 29, Santa Clara (911 922 162)

Tomar:

– A Bela Vista, R. Marquês de Pombal N°68 (249 312 870)

– Taverna Antiqua, Praça da República, 23-25 (249 311 236)

Batalha

– Mosteiro do Leitão, IC2, Casal da Amieira Nº33 (244 767 853)

 

Não perca também em…

Coimbra:

Mosteiro de Santa Clara a Velha

– Sé Velha

– Igreja de Santa Cruz

– Mosteiro de Santa Clara a Velha

– Jardins da Quinta das Lágrimas

 

Tomar

– Mata Nacional dos Sete Montes

– Centro Histórico

– Igreja de São Batista

– Sinagoga

– Complexo da Levada e Casa dos Cubos

Batalha

– Pia do Urso

– Museu da Comunidade Concelhia da Batalha

Alcobaça

Museu do Vinho de Alcobaça

– Centro Histórico

– Museu do Vinho de Alcobaça

– Parque dos Monges

– Mosteiro de Santa Maria de Cós

Esta reportagem foi publicada na edição 329 da Ambitur. Foto principal de Henrique Patrício.