Congresso AHP: Portugal deve “elevar a fasquia do luxo” 

Congresso AHP: Portugal deve “elevar a fasquia do luxo” 

Categoria Advisor, Associativismo

“Seguramente que o luxo é dos mercados mais apetecíveis de todos: tem poder de compra, paga e deixa dinheiro”, começou por realçar o diretor-geral do Memmo Hotels, Rodrigo Machaz, no último painel do  31.º Congresso Nacional da Associação de Hotelaria de Portugal (AHP), que decorreu de 20 a 22 de novembro, em Viana do Castelo. Sob o tema “As oportunidades que temos no novo mercado de luxo: A nossa singularidade”, Rodrigo Machaz, também moderador, salientou, no início da sua reflexão, que “aumentar o preço médio não significa ter mais mas sim ter melhor”. O caminho para Portugal passa assim por conseguir ter “melhor”, ser “autêntico” e “duradouro” no tempo.

Quem concorda com esta “reflexão” é o founder e CEO do “JNCQUOI” Miguel Guedes de Sousa que considera o luxo como “algo intrínseco”, sendo as suas bases a “hospitalidade ligada ao compromisso”, ou seja, “investir em sítios de grande qualidade”, com “autenticidade” e que “consigam permanecer no tempo”. O responsável não tem dúvidas de que, “sem a hospitalidade e compromisso”, o mercado de luxo não tem futuro. Na visão de Miguel Guedes de Sousa, é um “dever” elevar a fasquia do luxo em Portugal. “Temos concorrência e, se não tivermos produto, a experiência não vai funcionar”, sublinha, acrescentando que urge a “qualidade vs quantidade”. Sendo Portugal um país com “várias limitações”, mesmo na sua dimensão, torna-se imperativo “olhar com imaginação para o mercado de luxo”, acrescenta. O empresário considera que o cliente de luxo está “disposto a pagar um valor acrescentado para ter um tratamento diferenciado”. Baseando-se no exemplo “básico” do “Fast Track” no aeroporto, o responsável considera que deveria ser aplicado a outras áreas do turismo: “Como é que nós não temos uma entrada especial nos museus com um preço maior?”, questiona, referindo que esse cliente “espera pela experiência”.

Nesta matéria, Miguel Guedes de Sousa acredita que se trata de uma questão de “atitude” e se realmente “estamos preparados” quer “psicologicamente” quer ao “nível do Governo”, para atrair esse tipo de cliente. “Temos imenso conteúdo para desenvolver de uma forma mapeada”, afirma.

Portugal tem “muito por onde crescer de forma sustentada”

Por seu turno, Luís Sousa, da Mr. Travel Portugal, afirma que a “aposta no segmento de luxo nunca foi muito explorada por Portugal”, sendo que o Turismo de Portugal “não tem uma estratégia definida para o segmento de luxo”. Apenas “algumas regiões, de uma forma muito mitigada, é que começam a desenhar algumas ideias”, acrescenta. Segundo o responsável, são as “gerações” entre os 40 e 50 anos que procuram Portugal pela “Emoção e Experiência”, ou seja, um “contacto mais íntimo” marcado pela autenticidade. “Se o país perder esta autenticidade vai perder esta procura”, sublinha, acrescentando que “autenticidade significa luxo”.

Sendo a Mr. Travel Portugal uma Destination Management Company (DMC), torna-se essencial distinguir que existem mercados (mais longínquos) que “conseguimos atrair enquanto DMC” e mercados que “reservaram diretamente através do site do hotel ou agências de viagens”. Nesta ótica, o responsável refere que “há muito mercado de luxo na Europa”, destacando que “não nos podemos esquecer dos nossos principais mercados” (inglês, alemão, irlandês ou francês) que “têm um enorme poder de compra”. Relativamente aos mercados “longínquos”, Luís Sousa destaca o mercado americano como aquele que gosta que “andemos pela mão com eles” ou seja, de “fazer todas as experiências e autenticidade” desde o hotel ao dia-a-dia. A aposta na Ásia, que começou com a Índia em 2010, leva o responsável a afirmar que “há uma classe alta enorme” com “10 milhões de milionários”, sendo fundamental “olhar para este mercado emergente”.

Sobre as oportunidade de trabalhar o mercado de luxo, o arquiteto Samuel Torres de Carvalho, da STC Arquitetos, destaca que o “grande luxo” é “termos o país que temos”. O sucesso que hoje Portugal está a viver deve-se ao facto de “sabermos receber muito bem”, acrescenta, reiterando que essa “valia” pode transformar-se num “risco”, se “nos virarmos para um turismo de massas” e não para um “turismo de alto valor acrescentado” com pessoas que procuram autenticidade. O facto de a arquitetura portuguesa ser muito apreciada lá fora deve-se sobretudo a uma lógica dos projetos “estarem ligados à natureza do território e à sua escala”, isto é, “conhecer as características do sítio e não perder o contacto com as pessoas”.  Para o responsável, os projetos levados a cabo em Lisboa estão “muito próximos” dessa lógica, elogiando todos os empreendedores que o fazem. Embora haja uma “grande pressão” nos centros históricos, o arquiteto refere que Portugal tem “muito por onde crescer de forma sustentada” e isso está bem patente no “êxito de muitos hotéis de luxo”. A grande vantagem do país é “ter precisamente o território que tem”, acrescenta, exemplificando o “estuário do Tejo” que está “completamente inexplorado e é autêntico”.

“Tempo” e “autenticidade” interligados no luxo 

Como “reflexões finais”, Miguel Guedes de Sousa deixa uma mensagem marcada pela necessidade de “valorizar os nossos produtos e inovar”. O responsável destaca o número “impressionante” de pessoas que escolhem Portugal para viver, “pessoas essas que transformam o país” com “aspetos diferenciadores” que contribuem de uma forma muito positiva para o “consumo” e para a “economia”, declara. “Falta arte, museus e muita coisa para manter essas pessoas”, atenta. 

Já Luís Sousa reitera a “falta de parcerias”, sendo “fundamental” promover o país em conjunto. “Os hotéis têm que ver os DMC´s de uma forma especializada”, isto é, como “parceiros capazes de trazer muitos negócios”, refere, exclamando que, neste segmento de luxo, “creio que é essencial”.

Por fim, Samuel Torres de Carvalho levanta a questão do “tempo” como fator primordial do luxo, sublinhando novamente a questão da “autenticidade”. A tendência nos hotéis é que “deixem de ser apenas ilhas”, passando pela “mistura com a população local”,tornando-se numa parte fundamental no “momento da experiência”. Além da “qualidade”, o luxo tem “permanência” e “um investimento muito grande no tempo”, conclui.

Cristiana Macedo, no 31º Congresso AHP, em Viana do Castelo