Congresso APAVT: A economia de partilha é a estratégia para o futuro do Turismo

Congresso APAVT: A economia de partilha é a estratégia para o futuro do Turismo

Categoria Advisor, Política

O segundo dia do Congresso do APAVT foi marcado pela intervenção do Professor Augusto Mateus, consultor estratégico da EY-AM&A, que partilhou a sua visão sobre como se pode “Ganhar o país para o turismo” e que “opções estratégicas” o setor pode e deve adotar nos próximos dez anos.

“O Turismo é o grande fenómeno global”, atenta Augusto Mateus, quantitativo (são esperados 1.500 milhões de turistas mundiais em 2020) e qualitativo sendo que os players do setor têm a “responsabilidade de fazer acontecer esse salto qualitativo” ou “a oportunidade vai-nos passar ao lado”. Para isso, é preciso ter conhecimento assim como capacidade de pensar e agir: “Ver primeiro, ver mais cedo e ver mais longe”. A gestão corrente não permite dar o “salto” e o especialista frisa que “precisamos de mudar a trajetória”. Vamos a números.

Crescimento do turismo mundial 

O turismo mundial cresceu, na última década, 4% ao ano em turistas e receitas. Algures em 2030, a Europa receberá cerca de 1/3 dos fluxos turísticos globais (48%) e Portugal, enquanto destino europeu, tem uma posição privilegiada. A conquistar terreno estão, sobretudo, a Ásia e o Pacífico, com o crescimento de uma nova classe média que entende que “uma das provas de que tem liberdade é puder fazer Turismo” e que há que aproveitá-lo. Apesar de Portugal revele um maior interesse pelo Brasil, todo o continente da América do Sul também progride. Ou seja, “há quem tenha menos quota de mercado mas que esteja a crescer a bom ritmo”.

Augusto Mateus remata que embora estejamos habituados a um “turismo de proximidade” teremos de nos “habituar a um turismo de mercados emissores mais longínquos”, o que traz desafios do ponto de vista da mobilidade. Defende ainda que o envelhecimento populacional, no que ao Turismo diz respeito, representa uma “oportunidade de expandir os fluxos turísticos e captar valor” pois os mais velhos procuram “outras formas de turismo em destinos mais caros [maior poder de compra]”.

É também verdade que habitamos um “Planeta que tem, pela primeira vez, problemas globais com dificuldades de governação” pelo que “na procura turística convém não facilitar naquilo que é uma tendência claríssima de valorizar a sustentabilidade e o problema do desperdício”, sustenta.

Dinamismo do turismo em Portugal 

No caso português, o professor analisa a redução do turismo de estada mais longa e, pelo inverso, o “aumento significativo da estada mais curta com mais receita” no País. A capital lisboeta continua a ser a região que mais contribui para o crescimento turístico, com 3 milhões de novos hóspedes e 8 milhões de novas dormidas.

Augusto Mateus defende que “nem todos os territórios têm aptidão turística” e que “não podemos ter todos os territórios a competir para os mesmos fluxos turísticos”, até porque os territórios não se desenvolvem todos da mesma forma e devem, sim, desenvolver-se naquilo que são melhores.

Quanto ao turismo externo, reforçando que “Portugal fez melhor do que podem pensar e fez muito bem em mercados muito importantes” Augusto Mateus partilha que:

  • Portugal é o destino europeu que mais cresce em França e nos EUA;
  • 2.º destino europeu que mais cresce na Holanda;
  • 4.º destino europeu que mais cresce no Reino Unido;
  • 6.º destino europeu que mais cresce na Coreia do Sul.

O Turismo em Portugal constitui 17% do PIB nacional e contribui 11 mil milhões de euros para a balança corrente, o dobro do peso da Europa e Mundo. Mas apesar do “peso” do Turismo, na opinião do professor, “Portugal não se reconhece como País turístico” nem existe um “forte consenso na sua importância na economia nacional”.

Segundo Augusto Mateus, “a recuperação económica de Portugal é muito de aumento da exposição internacional do país, com maior dinamismo das exportações do que as importações”. Contudo, o País enfrenta uma “crise de investimento”, fruto da perda de qualidade do investimento público e privado, sendo que apenas se “aumenta capacidade de investimento colocando mais receitas ou encontrando novos parceiros e modelos de negócio para investir mais”.

Estratégia para o turismo: A economia de partilha

Assim, na lógica de “Ganhar o país para o turismo”, é necessário “conquistar o consenso de que Portugal se reveja enquanto destino turístico” e que aposte fortemente na “economia de partilha”, que faz parte do futuro, com um bom modelo de governação. Augusto Mateus dá o exemplo do Airbnb que, para si, “é economia de partilha não é falsa hotelaria”.

O especialista acredita que é possível chegar a uma convergência no Turismo e que, para isso, é fundamental “colocar mais portugueses de acordo com o turismo e a trabalhar no turismo e pôr o turismo a entregar mais aos portugueses”, o setor tem de ser visto como uma alavanca da melhoria da qualidade de vida.

Em adição, Augusto Mateus alerta: “Esqueçam lá o turismo como setor e percebam que o turismo ou é feito por um conglomerado de atividades económicas que convergem umas para entregar valor às outras, ou vice-versa, e que tomam decisões partilhadas, ou não haverá desenvolvimento turístico sério em Portugal.”

Em suma, é importante transformar vantagens comparativas de curto prazo em “vantagens competitivas com futuro para a procura mundial dos próximos anos”, alargar as vantagens competitivas do País, alargar o território do turismo em Portugal e dotar os destinos de meios para acompanhar as tendências globais da procura. Além disso, sem inovação digital, preocupação ambiental, mobilidade e segurança não há Turismo.

Rita Inácio, no 45.º Congresso Nacional da APAVT