Conselheira Ambitur: “Enquanto a confiança não regressar é preciso manter as empresas e o emprego”

Conselheira Ambitur: “Enquanto a confiança não regressar é preciso manter as empresas e o emprego”

Cristina Siza Vieira, presidente executiva da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal, é a mais recente Conselheira Ambitur e partilha connosco a sua perspetiva sobre a situação que hoje as empresas turísticas vivem na sequência da pandemia da Covid-19.

De acordo com o seu conhecimento do mercado, quão complexa é hoje a realidade das empresas turísticas nacionais, seis meses após o confinamento e com o findar dos meses de verão?
A situação é muito complexa e delicada. O Turismo é, a nível Mundial, o setor que mais sofre e sofrerá com o impacto desta pandemia. Em Portugal, tal como em muitos outros países europeus, aliás, porque o Turismo é um setor chave da nossa economia, tal como o seu crescimento trouxe riqueza e prosperidade a muitos outros setores produtores de bens e serviços, a sua crise terá um efeito de arrastamento muito negativo sobre toda a economia.

Concretamente na hotelaria, apesar da boa resposta, em alguns destinos, do mercado interno, a mesma, como tenho dito, não foi nem será nunca suficiente. A Hotelaria encerrou portas e em muitos destinos não funcionou sequer a 50%.

Mesmo no verão, momento para o qual a expectativa era grande, houve muitos destinos com quebras bastantes significativas. Naturalmente que nos destinos onde o mercado interno é o principal, ou um dos principais mercados emissores, como é o caso do Norte, do Centro e do Alentejo, essas quebras foram menos sentidas.

Especialmente grave é a situação dos maiores centros urbanos, como Lisboa e Porto. O mercado business, que inclui Congressos, Reuniões e Feiras, mas também muitos movimentos em torno dos encontros de negócio, é essencial para grande parte da hotelaria, e esse vai demorar muito tempo a recuperar.

Ao nível da tesouraria e gestão, qual o impacto já quantificável provocado pela pandemia da Covid-19 e o que pode significar para o futuro das empresas?
Está neste momento a decorrer a 4ª fase do inquérito AHP “Impacto da COVID-19 na Hotelaria” e quando o fecharmos teremos uma noção mais real da atual situação das empresas hoteleiras. Todavia, sabemos que todas as empresas estão numa situação complicada, a fazer contas para o futuro, e muitas, as mais pequenas especialmente, numa situação muito difícil.

O que se antecipa relativamente aos próximos meses no negócio?
Mais uma vez aguardamos o resultado do inquérito da AHP para ter uma visão mais precisa.
Em termos de quadro geral, temos de reconhecer que esta pandemia está a ser gerida e vivida quase semanalmente, pelo que antecipar o que quer que seja é sempre teórico. Porque o que hoje é, amanhã pode já não ser assim. Um bom exemplo foi a abertura e encerramento do corredor aéreo com o Reino Unido, do qual somos tão dependentes, que trouxe um pico de procura seguido de uma queda a pique.

Vai ser fundamental, por isso, restabelecer a confiança dos consumidores, sabemos que a recuperação vai ser difícil e demorada, mas Portugal e a Europa têm de agir em conjunto para que isso aconteça.

Enquanto não houver uma vacina ou tratamentos eficazes, o medo de viajar é o maior inimigo do Turismo, pelo que só com informação séria e transparente, coerente e coordenada ganhamos a confiança dos turistas e cidadãos.

O que é imprescindível que seja feito ao nível do Quadro Legislativo e Financiamento por parte do Governo?
Enquanto a confiança e com ela o negócio turístico não regressar é preciso manter as empresas e o emprego.

Na retoma temos de ter empresas que sobreviveram e que consigam responder rapidamente à procura. Imaginamos todos a concorrência que se vai instalar entre os países para captação de mercados, rotas e companhias aéreas.

Por isso é preciso ter medidas de mais curto prazo e outras, como a capitalização das empresas, de médio e longo prazo. A AHP tem feito várias propostas ao Governo e aos Municípios, que divulgámos, e estamos agora a ultimar um novo pacote.

Nota: A Ambitur conta, desde março de 2020, com um conjunto de Conselheiros que partilham connosco as suas visões sobre questões da atualidade no setor do Turismo. Os nossos Conselheiros Ambitur são, neste momento: Jorge Rebelo de Almeida (CEO da Vila Galé), José Theotónio ( presidente da comissão executiva do Pestana Hotel Group), Manuel Proença (presidente do Grupo Hoti Hotéis), Miguel Quintas (CEO do Consolidador.com), Frédéric Frère (CEO da Travelstore), Vítor Filipe (presidente da TQ Travel Quality e ex-presidente da APAVT), Raul Martins (presidente da AHP e do conselho de administração do Grupo Altis), Francisco Teixeira (CEO da Melair Cruzeiros), Luís Alves de Sousa (sócio gerente do Hotel Britania e ex-presidente da AHP), Bernardo Trindade (administrador do PortoBay Hotels & Resorts e ex-secretário de Estado do Turismo), José Lopes (diretor da easyJet em Portugal), Eduardo Jesus (secretário Regional de Turismo e Cultura da Madeira), Francisco Pita (CCO ANA Aeroportos), José Luís Arnaut (presidente-adjunto da Associação Turismo de Lisboa) e Cristina Siza Vieira (presidente executiva da AHP). Em breve irão juntar-se a este painel mais um conjunto seleto de Conselheiros.

Inês Gromicho