Deloitte: “Vamos crescer numa base muito injusta”

Deloitte: “Vamos crescer numa base muito injusta”

Categoria Business, Empresas

A cadeia de valor do turismo serviu de mote para Pedro Rosa, financial and economic advisory  da Deloitte, falar nas Jornadas de Hotelaria e Turismo promovidas esta segunda-feira pelo ISCET (Instituto Superior de Ciências Empresariais e do Turismo).

Numa perspetiva global, o turismo em 2019 apresentou valores notáveis: “Foi sempre um dos setores com crescimento constante, diz o responsável, salientando que, quando comparada com outras indústrias, “não houve tal crescimento”. 

No que se refere à Europa, aquele que é o “maior destino turístico” do mundo, os números foram igualmente evidentes, quer em hóspedes, quer em dormidas. Tendo por base o histórico do número de chegadas internacionais, Pedro Rosa indica que as previsões para 2030 centravam-se num “aumento de 1,8 mil milhões de turistas internacionais”. No entanto, “em 2018, já estávamos a atingir a barreira dos 1,4 mil milhões”, comprovando-se assim um “crescimento face aquela que era a projeção”. Num cenário marcado pelo “crescimento” e “consolidação” de novos destinos turísticos, de “expectativas de incremento no número de chegadas de passageiros internacionais” por via de “ maior capacidade financeira” ou da “democratização das viagens” através das companhias low-cost, tudo indicava que, em 2030, fossem atingidos os “dois mil milhões de chegadas de passageiros internacionais”. No entanto, o contexto da Covid-19, que é transversal e com “expressão muito significativa” na Europa e nas Américas, trouxe restrições a todo o setor, nomeadamente às viagens, refletindo-se diretamente num dos elos da cadeia de valor do turismo: o alojamento.

Usando dados de uma análise da STR, que apresenta uma “amostra muito diversificada daquilo que são as unidades hoteleiras a nível global”, Pedro Rosa indica que, a 30 de abril de 2020, “76% das unidades hoteleiras” na Europa estavam encerradas”, algo “dramático” para o setor que, para fazer “face à ausência de hóspedes”, se viu obrigado a encerrar a atividade. Segundo o relatório, as quedas são igualmente notórias na América do Sul e Central e na África do Sul. Já na Ásia, assistia-se a uma “diminuição” das unidades encerradas pelo que o “sintoma” tendeu a agravar-se mais na Europa, motivo pela qual se constata que a “recuperação será mais lenta”, afirma o responsável. De 30 de abril a 17 de maio, a amostra dava conta que, na Europa, registou-se uma Taxa de Ocupação (TO) média de 12%: “Nenhuma unidade hoteleira consegue sobreviver”, sublinha, notando que, em abril, “Portugal registou uma TO média de 4%”. Enquanto a Europa (12%) e os Estados Unidos da América (20%) “registaram TO muito baixas”, a China “estava numa curva ascendente” mas, ainda assim, “muito abaixo daquilo que seria o contexto normal”.

Para o consultor, a recuperação económica europeia é algo preocupante até porque os destinos “concorrem entre si” e estão “dependentes” de mercados externos: “Os EUA e a China, por si só, têm mercados internos capazes de alimentar a procura”, refere. Além disso, os países europeus não têm medidas transversais entre si, ao contrário da China e dos EUA, tornando impossível uma comparação entre as três potências mundiais.

Relativamente ao tráfego aéreo de passageiros e, segundo a IATA, Pedro Rosa dá conta de quebras até 65% em 2020, sublinhando que esta crise “não é comparável a outras”, até porque o transporte aéreo ficou restrito. Quando a estimativa para 2030 se centrava em “1,8 milhões de chegadas de passageiros”, o responsável refere que a Airbus “fez as contas” e previa que, em 2038, eram necessários “mais 40 mil aviões”. Este crescimento prendia-se sobretudo no “maior número de rotas” e na “maior propensão de viagens” marcada pela “democratização” aérea a nível global, afirma o responsável, sublinhando que o paradigma  acaba por “formatar um conjunto de outros setores conectados ao do turismo”.

OMT: “Número de chegadas de passageiro inferior ao ano 2000”

Também as contas da Organização Mundial do Turismo (OMT) são alarmantes: “Se, em março de 2020, a queda da chegada de turistas internacionais se situa nos 30%, em maio, variam entre os 58% e os 78%”, cenários que Pedro Rosa sublinha que estão dependentes do “período de recuperação” do setor, seja da “abertura de fronteiras” seja do “reinício das atividades”. Mas “qualquer que seja o cenário” as previsões são de que o “número de chegadas de passageiros seja inferior ao do ano 2000”, destaca. Destas projeções da OMT, para além da “redução nas chegadas€ de passageiros internacionais”, o consultor sublinha também as “perdas” avultadas das “receitas internacionais”, algo que se refletirá, necessariamente, no “número de postos de trabalho”, sejam eles diretos ou indiretos. 

Em contexto global, e no que toca à retoma, Pedro Rosa refere que a “China lidera e tende a consolidar essa tendência”, seguida pelos EUA, onde “a quebra não foi tão grande” e se prevê que a “retoma seja mais célere”. Na Europa, a retoma está “estagnada”, embora a “abertura de fronteiras” esteja a levantar algum ao “interesse e movimentação de alguns fluxos turísticos”, especialmente dos mercados domésticos ou de proximidade, apontados como os “mercados de salvação. Olhando para o caso português, estes fluxos representam “30% dos hóspedes e 40% das dormidas num ano ano normal”, o que não é suficiente para “resolver o problema” criado pela pandemia nos “próximos três meses. As empresas necessitam de cashflow para manter os seus negócios”, avisa.

Portugal: “Vivemos num balão de oxigénio marcado pelos apoios em que não existe entrada de cashflow

Os últimos 10 anos foram notórios para Portugal, quer em número de dormidas quer em receitas, com um crescimento quase sempre na ordem dos dois dígitos. Uma vez que 2019 foi o “melhor ano turístico” para Portugal, Pedro Rosa indica que, no momento de recuperação, “vamos crescer numa base muito injusta” face aos números do ano anterior, havendo quebras incomparáveis. Embora janeiro e fevereiro de 2020 tivessem sido “dois meses excelentes”, a realidade é que já se aproximava um “novo ciclo” turístico que levaria a uma “estagnação”.

Para Pedro Rosa, aquele que será o tema mais crítico assenta na “capacidade e no tempo” que as empresas vão ter para conseguir aguentar: “Vivemos num balão de oxigénio” marcado pelos apoios em que “não existe entrada de cashflow”, pelo que a “capacidade financeira tenderá a piorar”.

O impacto do turismo no alojamento é evidente. No entanto, o responsável refere que todos os elos ligados ao setor também estão fortemente impactados como é o caso das Meeting Industry, cultura e lazer, cruzeiros, golfe ou animação turística. O setor imobiliário também tem tido crescimentos constantes: “A estimativa no início do ano de novas unidades hoteleiras centrava-se na ordem das 200 até 2023”. Este aumento é o resultado da “capacidade financeira gerada nos últimos anos”, de situações em que “há novas entradas de mercado por via de diversificação de negócios por outros grupos” ou, ainda, pela “entrada de novos investidores estrangeiros”, refere o responsável, sublinhando que, daqui para frente, “assistir-se-á a um delay ou a uma alteração dos detentores do capital”.

Pedro Rosa não tem dúvidas quanto às “insolvências” de muitas microempresas ligadas ao turismo: “Não haverá capacidade financeira para os negócios se manterem”. No entanto, o “alojamento local (AL) não vai desaparecer” diz o responsável, acreditando que a pandemia vai “ajudar a vincar outras tendências”, além de que “alguns segmentos preferem hoje ficar num AL do que num hotel”. Ainda assim, o “número significativo” de AL no Porto e em Lisboa vai obrigar a alterações por parte dos proprietários, até porque,  “efetivamente, vai haver uma redução na oferta”, sublinha

“Tudo dependerá da reabertura de fronteiras e  da capacidade de retoma das companhias aéreas”

Face às várias projeções que têm sido feitas, onde a recuperação em Portugal estender-se-á até 2021 e, numa visão otimista, o primeiro trimestre de 2021 será de “recuperação dos valores de 2019”, Pedro Brinca considera que “estão bastante longe da realidade” até porque, “no final do dia”, tudo depende da “reabertura de fronteiras” e da “capacidade de retoma das companhias aéreas”. Segundo as previsões, no terceiro trimestre de 2020, as percentagens de “retoma da Air France e da Lufthansa, em termos de frota, situar-se-ão na ordem dos 20%” e, no quarto trimestre, na “ordem dos 60%”, sendo estas “percentagens assustadoras”, diz o responsável, justificando que, na génese do turismo em Portugal, “há uma grande dependência de mercados externos”.

Embora as incertezas ainda sejam uma realidade, a Covid-19 traz lições que devem ser retidas, a começar pela “nossa dependência face a uma vacina”, diz o responsável, evidenciando a “necessidade” de haver uma preparação, dentro dos possíveis, para se “responder rapidamente a novos eventos desta natureza”. Não restam dúvidas de que o setor do turismo está num cenário catastrófico e a mensagem espelhada é a prova disso. No entanto, o responsável dá nota sobre a “importância” do mesmo na economia do país: “Se há setor que nos pode ajudar, é este”. Além disso, “enquanto seres humanos, vamos querer fazer férias”, diz, ressalvando que, “acima de tudo, o turismo prevalecerá sempre”.