“Temos de perder os individualismos que existem nos negócios” (II)

“Temos de perder os individualismos que existem nos negócios” (II)

Em Lisboa, onde o Grupo Oásis Atlântico está sedeado, Agostinho Abade recebeu a Ambitur para falar do seu percurso profissional na cadeia hoteleira que criou, juntamente com outros accionistas. Hoje é o filho, Alexandre Abade, quem dá “a cara” pela empresa, mas Agostinho Abade admite continuar a ter uma voz activa dentro do grupo, e explica como tudo começou. Tendo passado também pelo Governo, o empresário afirma que em tudo o que faz gosta de sentir prazer, aliando sempre “o sonho à parte prática”.

Concorda com uma visão política mais liberalista, como defende o actual secretário de Estado do Turismo?

A liberalização da economia é possível se a regulação funcionar bem. Um excesso de liberalismo será prejudicial. Temos de nos inserir no meio concorrencial da nossa economia. O mundo está num processo de excesso de liberalismo nos mercados e os resultados estão à vista, com incidência na zona do Euro. Sou uma pessoa com muito espírito social, preocupa-me a quebra de solidariedade. Custa-me ver a perda de emprego por parte das pessoas, casais desempregados, juventude sem horizonte, assim como o país. Daí aceitar embrenhar-me novamente num projecto político que acredito que possa trazer uma outra esperança, sem deixar de entender as dificuldades da economia. Mas o liberalismo em excesso leva a isto.

Quando fala em regulação quer dizer…

O mercado está excessivamente liberalizado, quando fala em regulação falo em regras de mercado. Não se pode estar à espera que o mercado resolva tudo, em algumas situações pode acontecer, mas não de uma forma generalizada na economia. Custa-me ver certos sectores estratégicos serem totalmente desregulados. Não sei se o aumento dos preços dos custos promovidos pela ANA – Aeroportos, actuais e futuros, não serão prejudiciais, até porque é um monopólio na mão dos privados.

Qual a sua opinião relativamente ao processo de privatização da TAP?

Aí sou apologista de algo diferente. A TAP tem realmente de se associar a outras empresas. Necessita de mais capital. Está a deparar-se nos últimos tempos com carências de equipamento, de pessoal. É uma empresa que pode ganhar ainda mais. Se fosse privada poderia já estar noutro patamar. A gestão da TAP tem estratégia. As empresas têm de ter um mínimo de estratégia. Agora custa-me, em determinados sectores, por exemplo na água, que é um bem que sabemos que irá rarear, ser privatizada. Vejo uma Caixa Geral de Depósitos ser privatizada, tendo o Estado meios para poder intervir. O Estado vem intervindo pouco ultimamente, deveria ter tido uma maior intervenção no apoio às pequenas e médias empresas, deveria ter regulado melhor o fluxo de financiamento na economia, por exemplo.

As relações entre Portugal e os PALOP poderiam ir mais longe?

Poderiam e deviam. Sou um adepto das relações entre Portugal e os PALOP. A CPLP tem de evoluir para uma Comunidade Económica, tirando partido da inserção regional de cada país membro. Se consolidarmos o Brasil com a Mercosul, Portugal com a União Europeia, assim como os países africanos, isto representa um grande espaço regional mundial. Temos de saber tirar os proveitos destes países âncoras, teremos acesso a grandes mercados.

Quais deveriam ser as principais preocupações de quem tutela a actividade turística em Portugal?

Tudo depende da estratégia do Governo e depois das pessoas. Podemos ter um secretário de Estado do Turismo com uma grande preponderância no Governo e ter um Ministro do Turismo como um fracasso ao nível de poder. Não é importante ter um Ministério, é importante ter uma voz activa, um peso grande e um responsável pelo sector que tenha alguma relevância dentro do executivo. O turismo em Portugal é constituído na sua maioria por pequenas e médias empresas familiares. Tem poucos grupos económicos de dimensão superior… Sim, essas poucas empresas de dimensão são hoje empresas nacionais que trabalham com capitais financeiros de todo o mundo. É muito importante aparecerem mais grupos fortes no turismo nacional, como acontece em Espanha. Mas nesses países, o Governo e as instituições financeiras apoiaram muito mais as empresas deste sector do que em Portugal. Repare que até o Turismo Capital de Risco, em Portugal, que agora é Portugal Ventures, está a desinvestir. Ou seja, a única Capital de Risco que havia, orientada pelo Estado, no país, não vê com interesse a sua participação no desenvolvimento do negócio no país. O novo Banco de Fomento deveria ter uma área virada para o turismo que visasse a junção/fusão de pequenas e médias empresas no sector. Temos de perder os individualismos que existem nos negócios.

Qual o potencial turístico do país?

Já crescemos bastante, mas podemos ir muito mais longe. Por exemplo, no Algarve, tentou quebrar-se a sazonalidade com o produto golfe mas tem de ir mais longe, porque não apostar da terceira idade? Tem que se desenvolver o turismo de saúde, o termal, há todo um conjunto de áreas que se podem desenvolver. & & As empresas turísticas poderiam ser mais expeditas na sua internacionalização? Há o problema da dimensão e do acesso ao financiamento. Há poucos meios financeiros para apoiar esse passo por parte das empresas nacionais. Só as grandes empresas o conseguem fazer. Ou então em negócios de oportunidade, como começou o nosso.

É fácil investir no negócio hoteleiro fora de Portugal?

Em Cabo Verde não foi difícil. Apesar da realidade não ser como era há uns anos atrás, até fruto de vários investimentos registados, não é um negócio complexo. No Brasil, a situação é diferente, é mais complicado. & & Como vê o crescimento turístico de Cabo Verde? A nossa actuação no país começou por incidir no turismo de nicho, depois um crescimento mais sustentado acompanhando o facto da TACV passar a deter aviões internacionais, ao início com uma dimensão pequena. Depois deu-se o aparecimento dos hotéis italianos e agora dos hotéis espanhóis. Cabo Verde cresceu exponencialmente, tem hoje à volta de 600 mil turistas, em 2015 vai ultrapassar à vontade os 650 mil. O arquipélago pode atingir os três milhões de turistas, sem se pôr em causa a sua sustentabilidade.

A hotelaria é um bom negócio?

Já foi melhor. O negócio hoteleiro tem no fundo três componentes: componente de propriedade, de capital intensivo, a exploração e a gestão. Estas três componentes têm de estar bem definidas. Um dos nossos erros foi não termos pensado mais cedo a propriedade separada da exploração. Em unidades de praia é preciso ter muita atenção à manutenção, é um ponto delicado.

Já fez o hotel dos seus sonhos?

Ainda não. O Salinas Sea já está mais próximo, é uma evolução, mas ainda não é o hotel dos meus sonhos. Este teria que ter muita água, muita animação. Gostava de ter um hotel, não sei se seria viável, mas em que os clientes entrassem e tivessem uma actividade cultural forte. Que as pessoas fossem ao hotel não só pela zona geográfica onde este se insere, mas porque tinha boa música, bons escultores, que permitisse sentir a verdadeira cultura e história do país. Acaba por ser um pouco o que se faz nos grandes cruzeiros, ou seja, as atracções culturais de que dispõem.

O Salinas Sea é um marco para vocês…

Bastante grande e esperamos que seja um começo de um crescimento do grupo para os hotéis de cinco estrelas de qualidade. Esta unidade era impensável em Cabo Verde há 10 anos.

A Ambitur.pt tem vindo a publicar parte das Grandes Entrevistas que tem realizado ao longo dos últimos anos nas suas edições impressas, com alguns excertos inéditos.

Pedro Chenrim