O Algarve é o destino do mês na Ambitur. André Gomes, presidente da Entidade Regional do Turismo do Algarve, esteve à conversa connosco, uma entrevista da qual já publicámos um primeiro excerto. André Gomes fala-nos sobre a situação dos orçamentos das Entidades Regionais de Turismo e dá-nos a conhecer melhor o seu percurso e história de vida. Leia também a terceira parte desta entrevista.
Este é um setor onde todos evidenciam o propósito apartidário no seu desenvolvimento público-privado, desde há mais de 20 anos. Mas um dos problemas que se mantém é o orçamento das Entidades Regionais, que habitualmente afeta a estrutura do Algarve, o maior destino turístico nacional?
No setor do turismo temos o melhor exemplo daquilo que é o trabalho envolvendo o setor público e o setor privado, de facto, ao nível daquilo que é a organização estruturada das Entidades Regionais com as ARPTs (Agências Regionais de Promoção Turística), o trabalho em articulação com o Turismo de Portugal, com a própria CTP e com a própria Secretaria de Estado do Turismo. Aliás, posso-lhe dizer aquilo que muitas vezes confidenciamos entre nós, os cinco presidentes, nomeadamente a nível do continente, que estamos mais vezes juntos: mais alinhamento do que aquilo que temos tido a nível nacional, entre regiões, setor público e setor privado se calhar é difícil de o termos nos próximos tempos. Obviamente que isso se deve a um conjunto de circunstâncias, de fatores, nomeadamente e em particular, como nós dizemos, o nosso secretário de Estado “ser um de nós”. Este foi um presidente de uma entidade regional durante muitos anos, conhece perfeitamente não só o setor, como também aquilo que são os desafios e as dificuldades que temos ao nível da gestão das entidades e, portanto, de facto, este alinhamento existe. Citando Francisco Calheiros, presidente da CTP – Confederação do Turismo de Portugal, este é um exemplo daquilo que era bom que outros setores de atividade também conseguissem ter.
E isto, na minha opinião, deve-se não só à forma como estamos organizados, como trabalhamos em conjunto, mas também àquilo que tem sido uma estabilidade estratégica ao nível do setor do turismo, que independentemente dos governos serem PS, PSD, seja o que for, há aqui uma estabilidade estratégica que tem vindo a ser definida e trabalhada sempre em conjunto, com o envolvimento de todos os players do setor público e setor privado. E isso, de facto, é aquilo que faz com que tenhamos os resultados que apresentamos todos os meses e o Algarve também tem vindo a demonstrar isso mesmo.
Mas continua a ser limitativo o orçamento das Entidades Regionais…
Do ponto de vista do orçamento, a situação efetivamente mantém-se. Parece-me incompreensível, e não tenho outra forma de o dizer, como é que o orçamento para as Entidades Regionais de Turismo, do ponto de vista do Orçamento de Estado, se mantém inalterado desde 2016.
Portanto, desde 2016 que a verba é exatamente a mesma. Basta pensar na taxa de inflação para perceber que, à conta do Orçamento de Estado, nós todos os anos temos vindo a perder capacidade de ação. Há alturas em que com praticamente aquilo que são as verbas do orçamento de Estado pagamos as estruturas das nossas entidades.
O que é que eu registo aqui com apreço, nomeadamente relativamente àquilo que foram os orçamentos para 2025, e também registo com apreço relativamente agora a 2026, é que temos aqui uma compensação paga pelo Turismo de Portugal. Efetivamente, e eu até atrevo-me a dizer que o Secretário de Estado, não conseguindo, junto do Ministério das Finanças, obter mais verba do Orçamento de Estado para o setor do turismo, utiliza aquele que é o seu instrumento principal, que é o Instituto, o Turismo de Portugal, e efetivamente através daí temos vindo a ver reforçada a nossa capacidade ao nível da promoção, nomeadamente em particular e em especial, ao nível da promoção externa.
Eu continuo a pensar que temos – nós organizações e acredito que os meus colegas partilham da mesma opinião – um défice ao nível daquilo que é a nossa capacidade e o nosso financiamento para a promoção nacional e em Espanha. Não é assim em todas as regiões, mas aqui no Algarve estamos organizados assim – nós, entidade regional, temos as competências ao nível daquilo que é a estruturação de produto, da estratégia e depois ao nível da promoção somos responsáveis pela promoção do destino aem termos do mercado nacional e do mercado espanhol. Depois temos as ARPTs para trabalhar a restante promoção externa.
Respondendo à sua questão, diria que do ponto de vista da promoção externa, efetivamente estamos dotados da robustez necessária para fazer o nosso trabalho. O que sinto claramente é um défice ao nível daquilo que é o mercado nacional, o mercado espanhol e a estrutura da Entidade Regional de Turismo do Algarve. Do ponto de vista da estrutura, só podemos fazer face a muitos dos custos de estrutura, ou a quase todos, com as verbas do Orçamento de Estado ou com as receitas próprias. Mas as receitas próprias são muito diminutas, não temos atividade para gerar receita. As limitações que o Orçamento de Estado nos impõe colocam-nos desafios incríveis ao nível da gestão da estrutura. Ao nível daquilo que é a gestão do próprio pessoal, tenho técnicos que deveriam já ter tido oportunidade de progredir na carreira, de serem qualificados, o que não pode acontecer devido às limitações que o Orçamento de Estado me coloca. Isso é claramente injusto para os trabalhadores e é claramente um grande desafio que nós – presidentes e comissões executivas – temos para gerir. Por isso é que entendemos que é incompreensível que, desde 2016, a verba do Orçamento de Estado seja exatamente a mesma, ao cêntimo. Aí claramente existe um défice de investimento por parte do Estado naquela que é, de uma forma evidente, a atividade que mais contribui para o desenvolvimento económico das regiões e para a coesão territorial.
É um defensor da revisão da Lei de Entidades Regionais de Turismo e da junção das Agências com as Entidades…
Aguardamos efetivamente que ela venha à luz do dia e não é que ela não esteja já trabalhada e desenvolvida. Aliás o próprio Secretário de Estado, enquanto Presidente do Turismo do Centro, trabalhou, como o seu antecessor, em diversas propostas que foram apresentadas. Sou um defensor de fazermos nessa integração a junção das duas virtudes que têm as duas entidades, as Entidades regionais e as ARPTs.
Ao nível da Entidade Regional no Algarve, não existe outra entidade na região tão representativa da mesma. Repare que, em 33 elementos que temos na Assembleia Geral, temos os 16 municípios do território, 14 associações representativas dos diversos setores da atividade do turismo na região – desde a hotelaria, à restauração, animação turística, marinas, parques de animação -, dois setores ligados ao turismo e depois temos aquele que, na Lei 33, ainda é designado como representante do Governo, a CCDR. Sinto falta de ter aqui, por exemplo, a Universidade do Alarve e é uma limitação que a atual lei me coloca, assim como outras associações e isso é algo que ambiciono ver como possível numa revisão da Lei 33, podermos alargar ainda mais este espectro daquilo que é a representatividade da Entidade Regional do Turismo do Algarve. Depois, do ponto de vista da ARPT, temos aquela virtude de conseguirmos trazer as empresas privadas, as empresas per si, para um trabalho também estratégico connosco, estratégico e de ação propriamente dita.
Repare que, ao nível das ARPTs, uma das principais áreas que desenvolvemos e trabalhamos é aquilo que chamamos de planos de comercialização e venda (PCVs), em que efetivamente há um investimento público que é equiparado, no mesmo valor, por um investimento privado, e isso permite a muitas empresas dobrarem aquilo que é a sua capacidade de ação e de investimento num conjunto de ações que definem estrategicamente connosco, desde a campanhas, a participações em feiras que fazem em articulação com a ARPT. Portanto, se conseguirmos juntar estas duas virtudes numa entidade só, conseguimos melhorar ainda mais o desempenho do setor e esta harmonia que existe entre o setor público e privado, ligado ao turismo.
Quem é André Gomes?
Mudando um pouco o rumo à conversa, e de forma a conhecê-lo um pouco melhor, onde nasceu, onde passou a infância e como correu o seu percurso escolar académico?
Não é muito linear, porque aquilo que consta do cartão do cidadão é que nasci em Figueira de Castelo Rodrigo, no Distrito da Guarda, porque quando nasci o meu avô era lá notário e assim que soube que eu tinha nascido, foi o que fez. Mas nasci no Porto, por circunstância profissional do meu pai. O meu pai era juiz, magistrado. Na altura em que nasci, ele estava a trabalhar em Lousada. Mas vivo há mais de 42 anos no Algarve. Portanto, efetivamente, considero-me algarvio.
Vivo em Portimão, fiz todo o meu percurso escolar básico e secundário em Portimão, e depois fui estudar Direito para Lisboa. Estudei na Universidade de Lisboa, tendo depois concluído já o curso aqui no Algarve, já a trabalhar, já com filhos. E foi na altura precisamente que ingressei no setor do turismo. No início do trajeto profissional, passei por experiências diferentes, também na área comercial. Trabalhei na Santa Casa da Misericórdia, um dos primeiros trabalhos que tive, depois ingressei no Gabinete do Turismo em Portimão, na Câmara de Portimão, onde trabalhei durante mais de 10 anos no setor do turismo, dos eventos, da gestão de infraestruturas, como o Portimão Arena ou o Centro de Congressos do Arade. Depois disso tive uma experiência extremamente interessante, com muito orgulho, precisamente ao nível do Governo. Foi o chamado “Governo da Geringonça”, em 2016/2017, no qual tive a oportunidade de trabalhar com a senhora Ministra do Mar, na altura um ministério criado de novo. Foi uma experiência extremamente gratificante, honrosa, e que me trouxe uma experiência também, a título profissional, fantástica.
Como entra a política na sua vida?
Eu, na política, (como na altura, creio eu, entrávamos muitos de nós), na altura no Secundário comecei a participar das associações de estudantes. Depois ingressei na juventude partidária, na Juventude Socialista, onde fiz um percurso desde Concelhio até ao Secretariado Nacional. Estive com o Pedro Nuno Santos, Duarte Cordeiro na direção nacional da JS.
Depois houve, claramente, uma viragem, uma opção pela vertente profissional, e desde essa altura não exerço qualquer atividade política ou partidária. Aliás, como também creio eu, a partir do momento em que vim desempenhar funções aqui para o Turismo do Algarve, em 2018, como diretor da promoção, aí claramente foi uma questão posta mais de lado.
O que tem o Algarve para o fazer dedicar a sua carreira ao turismo desta região?
Para já, é um setor fantástico. É um setor de trabalho de pessoas para pessoas, é chamado o setor da indústria da paz. Trabalhamos aquilo que proporciona bons momentos e boas vivências às pessoas. Sou muito ligado a Portimão, são mais de 42 anos de vida ligados a Portimão. Tive algumas oportunidades de ir trabalhar para Faro antes, noutras áreas, e recordo-me que, também na altura, cheguei a confidenciar com alguns amigos meus dizendo-lhes que a única coisa que me levaria a fazer o esforço de ir todos os dias trabalhar para Faro, eventualmente só se fosse o setor do turismo. Algo que se efetivou em 2018, quando o anterior presidente, João Fernandes, me convidou para vir dirigir o núcleo da promoção e informação turística aqui na Região de Turismo.
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