#Formação: “A adoção de plataformas tecnológicas terá um efeito permanente” no pós-Covid19

by Inês Gromicho | 29 Abril 2020 13:36

De um dia para outro, muitas foram as instituições de ensino obrigadas a passar para modelos de ensino à distância. Mas também outros segmentos, como os da formação executiva, viram muitos dos programas adiados ou mesmo cancelados.

À imagem de muitos outros setores, o professor de macroeconomia da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), Pedro Brinca, descreve o atual momento como sendo “especialmente delicado”, até porque a “incerteza relativamente a quando se volta a um (novo?) normal é grande e pode adiar muitas das decisões de investimento em educação” relativamente ao ano letivo 2020-21, nomeadamente em “mestrados ou em instituições” cujo “peso dos estudantes internacionais seja elevado”.

O docente acredita que a adoção de “plataformas tecnológicas de videoconferência ou trabalho remoto” terá um “efeito permanente” no pós-pandemia, pois foi “vencida a inércia” existente para alterar rotinas: “As pessoas e as instituições são naturalmente resistentes à mudança. Este capital intelectual de saber uma nova maneira de fazer as coisas não vai desaparecer”. O responsável acredita num ensino “blended”, conjugando as componentes presencial e digital: “A experiência de campus é ainda um atributo importante do produto educativo”, sublinha Pedro Brinca, embora atente que neste tipo de ensino haverá “uma maior predisposição e aceitação de ferramentas de ensino digital e online” quer pelos alunos, quer pelos professores.

“Será o formato da avaliação a mudar”
Relativamente aos currículos, o docente não tem dúvidas de que “haverá necessariamente adaptações aos materiais e aos formatos de avaliação”, havendo um “cuidado muito maior na conceção e no design dos materiais”, que ganham uma importância cada vez maior no processo de comunicação. “Prevejo que o trabalho infográfico se torne mais predominante”, diz, acreditando que esta pandemia se traduza no “melhoramento substancial deste tipo de materiais”.

Já os formatos de avaliação e a “dificuldade de controlar o ambiente nos processos de avaliação não presencial” levam o responsável a crer que a “natureza dos exames passe a ser menos reprodutiva de conhecimento e mais reflexiva”, de forma a “melhor assegurar a unidade das respostas. A avaliação de conhecimento através da reprodução do mesmo parece-me uma forma inferior de aferição da capacitação alcançada dos alunos”, sucinta. Além disso, Pedro Brinca acredita numa predominância cada vez maior de “aplicações de exames à distância” que sejam capazes de controlar o “ambiente de trabalho do aluno que está a fazer o exame no seu computador e monitoriza o mesmo através da webcam”.

Por seu turno, os currículos “serão mais focados em casos de estudo, técnicas de ensino indutivo, aprendizagem com base em resolução de problemas e simulações de ambiente real”. Neste sentido, Pedro Brinca acredita que será uma “mudança positiva”, uma vez que fará com que os “conteúdos” sejam mais “atuais” e “atualizados com maior frequência”, ou seja, com “mais relevância direta para o mundo real” e consequente “diminuição do fosso entre a academia e a realidade do mercado de trabalho”.

Numa lógica económica, a “digitalização” nesta área já é uma realidade, embora “alguns setores e tarefas” possam ser aceleradas pela pandemia: “Ter-se-á percebido que há ganhos substanciais em que (reuniões) sejam por teleconferência”, exemplifica. Também as “compras online”, que já são uma tendência, “tornaram-se ainda mais ubíquas”, realça.

“Reciclar técnicas, planos de marketing, estratégias e canais a utilizar”
Atualmente, “o nível de formação médio dos quadros das unidades hoteleiras em Portugal é bastante competitivo, fruto de investimentos contínuos e avultados que têm sido feitos no setor nos últimos anos”. A paragem da atividade turística leva o responsável a afirmar que o grande desafio das empresas do setor, em particular a hotelaria, é a liquidez. Do lado dos executivos, haverá, “no curto prazo”, um “efeito negativo relativo às disponibilidade financeiras”, levando a que este seja um mercado “em baixa nos próximos meses, pelo menos”. O docente considera que as circunstâncias para formar ou não os altos quadros não diferem muito das circunstâncias para formar os restantes trabalhadores: “A mudança de contexto única e os desafios postos pela definição de estratégias para uma nova realidade, pelo menos no curto prazo, podem ser fatores que aconselhem formações que incidam nas peculiaridades do momento e nas estratégias que podem ser seguidas especificamente neste contexto”, sublinha.

Mas para quem a liquidez não é “um problema”, a formação será uma “excelente maneira de manter ocupados os quadros que estão, neste momento, com pouca solicitação”. No curto prazo, Pedro Brinca diz que as áreas mais importantes serão as “vendas e a promoção: reciclar técnicas, planos de marketing, estratégias e canais a utilizar”, havendo mesmo “estratégias que podem ser desenvolvidas” e que aumentem “a resiliência das organizações a períodos de quebra de procura prolongada e que as preparam para a emergência de uma nova realidade comercial”.

Destinos como o norte de África são também um exemplo de uma boa aposta neste período: “Com a Primavera Árabe já longe e com a relativa menor incidência de casos de Covid-19 nestes destinos, a proximidade e acessibilidade podem ser determinantes e torná-los competidores fortes para o mercado europeu”. O mercado interno também é um segmento importante para este responsável: “Com as restrições a viagens internacionais e receio de viajar, apesar da quebra de rendimento, este ano, os portugueses podem ter uma procura por destinos nacionais, relativamente ao estrangeiro, acima do normal”. Pedro Brinca não tem dúvidas de que a “capacidade de adaptar estratégias, quer de vendas, quer de alojamento e entretenimento às especificidades destes grupos será uma vantagem importante”.

O facto da indústria hoteleira assegurar um “maior rácio de alavancagem financeira”, resultante de “investimentos elevados em infraestruturas ou equipamentos”, representa “encargos financeiros de monta que podem tornar-se críticos num cenário de quebra de fluxos de caixa”, atenta Pedro Brinca, acreditando que a “maior parte das empresas não tenha capacidade para cumprir com as respetivas responsabilidades”. Para este responsável, a estratégia a seguir será “reter o máximo possível de liquidez, tentando dilatar prazos de pagamento a fornecedores, despedir trabalhadores com vínculo precário e analisar a possibilidade de aderir a programas de apoio às empresas, inclusive o lay-off”.

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