Grande Entrevista: “Portugal é do tamanho do sonho que a gente possa ter”

Grande Entrevista: “Portugal é do tamanho do sonho que a gente possa ter”

Conhecer melhor o empresário brasileiro foi um dos objetivos desta Grande Entrevista a Roberto Medina. Uma oportunidade para conhecer o espírito criativo e inovador deste carioca de gema que, há 37 anos, criou o Rock in Rio, um fenómeno de sucesso que desde sempre procurou ser mais do que um festival de música e que, há dois anos, teve um impacto económico de 1,7 biliões de reais na economia da cidade do Rio de Janeiro. Aliás, Roberto Medina sublinha que quis “fazer um projeto de comunicação ao qual as marcas se pudessem agregar” e lamenta a falta de interesse dos políticos na cultura e nos eventos, capazes de criar valor, gerar emprego para o país e oxigenar a economia local.

Onde nasceu e quando? O que lhe ficou da juventude? Qual o seu primeiro emprego?
Até aos 16 anos, era um rapaz que era filho do maior empresário do Rio de Janeiro. Eu achava o meu pai muito doido porque dedicava muito dinheiro a cuidar da cidade, mas não tinha veia política nenhuma, e aquilo deixava-me curioso. Gostava de fazer poesia, na minha cabeça com 16 anos eu iria ser poeta, escritor. Essa era a minha matéria, fazer poesia. O Brasil estava na Ditadura Militar e ele “brigou” com os militares. E então perdeu tudo o que tinha, e eu passei a procurar emprego. O primeiro emprego que consegui foi na Artplan (agência de publicidade), onde comecei como estagiário, a empresa tinha oito pessoas. Depois fui assistente de contacto, mas rapidamente, já com 22 anos, era dono daquele lugar, e fazia muito dinheiro. Fui publicitário do ano algumas vezes, foi uma época onde fui muito feliz, mas era muito conservador. Aí surge o Rock in Rio, uma ideia sem pés nem cabeça (risos).

Depois de começar a liderar a Artplan, fiz um trajeto bonito, grandes campanhas de comunicação. Como a publicidade para mim não acabava num anúncio de televisão, comecei a fazer projetos como a Árvore de Natal da Lagoa flutuante e móvel, no Rio de Janeiro. Tentei sempre trazer para o dia-dia da cidade coisas que eu vi no meu pai. O meu pai fazia isso o tempo todo. O meu pai e o meu irmão foram presos naquela confusão. Fiquei sozinho, tive que batalhar pelas coisas em que acreditava. O Rock in Rio, na minha visão, tem muito a ver com isso. Fim da Ditadura Militar e entrada na Democracia, aquilo era importantíssimo, eu queria um movimento para a garotada colocar a cara, mas foi um processo complexo e muito difícil, a sociedade não queria. Os governantes perseguiam-me indicando que era um local para drogas, entre outros. As pessoas acabaram por ser muito generosas. Eu errei muito no primeiro Rock in Rio. Mas ninguém se deu conta, porque estavam todos de bem com a vida. Lembro-me do recinto ter ficado com lama e eu trabalhei tanto para não ter lama, mas as pessoas até disso gostaram. Olhando
hoje, o evento foi uma resposta à Ditadura Militar e ao que vi o meu pai passar. Cheguei e fiz o evento com ele, ele trabalhou lá comigo.

Eu nasci em Botafogo, morei na Tijuca e depois em Copacabana, regressando novamente à Tijuca. Não foi uma vida fácil, tomei uns “trancos”, vi o meu pai e a família tomarem uns “trancos”. E achei que devia lutar, para devolver um pouco do que tínhamos perdido.

O meu pai tinha uma relação com o Rio de Janeiro impressionante, ele importava-se e fazia a diferença. Quando a revolução “pegou” ele, os militares delapidaram a empresa. Eu ajudei-o com a empresa, mais tarde.

O meu pai tinha uma relação com o Rio de Janeiro impressionante, ele importava-se e fazia a diferença. Quando a revolução “pegou” ele, os militares delapidaram a empresa. Eu ajudei-o com a empresa, mais tarde. Um dia chega uma nota de cobrança para mim, que estava controlando tudo, de 600 camiões de pipa de água. Aí fui até ele dizendo que estavam a falsificar a sua assinatura, porque o que tínhamos era uma empresa de eletrodomésticos. Aí ele falou: “Você vem trabalhar por que caminho?”. Eu respondi que vinha pelo Aterro do Flamengo e ele ripostou: “E você não reparou que o Aterro do Flamengo está seco?”. Resumindo, ele pagou a rega do Aterro do Flamengo por seis meses pois estava numa situação de seca. Eu poderia dar 200 exemplos da relação do cidadão com a cidade. Isso está se esgarçando no mundo, estamo-nos a afastar de pensar que também podemos contribuir para uma cidade ficar mais bonita. A mim importa-me a minha cidade.

Por uma questão económica, e por dificuldades que o Brasil passava em 1984, tanto em termos de relações internacionais como pela falta de infraestruturas (período pós Ditadura Militar), a minha visão foi fazer um projeto de comunicação ao qual as marcas se pudessem agregar. Fiquei muito impressionado por termos feito isso, pois nós vínhamos da “era da pedra lascada”.

O “Rock in Rio” sempre pretendeu ir para além de um evento cultural/musical. Onde começa e até onde vai esta aventura?

Por uma questão económica, e por dificuldades que o Brasil passava em 1984, tanto em termos de relações internacionais como pela falta de infraestruturas (período pós Ditadura Militar), a minha visão foi fazer um projeto de comunicação ao qual as marcas se pudessem agregar. Fiquei muito impressionado por termos feito isso, pois nós vínhamos da “era da pedra lascada”. O Brasil nesta época não tinha nada, precisava de conquistar credibilidade externa, inclusive.

Vi este negócio como independente da cultura, da arte, do entretenimento; é um negócio que se torna importantíssimo para as cidades para onde fui. Para o Brasil mais ainda porque temos um conteúdo fantástico que habitualmente não é explorado. Tive essa ideia de fazer algo que fosse importante economicamente, porque ao criar valor estamos a ajudar o país a gerar emprego e dar melhores condições à sua população.

O Rock in Rio acontece porque tinha de acontecer. (…) Criámos um conceito de entrega que vai muito além de fazermos um festival. No último ano, em assessoria de imprensa, tivemos um valor de mais de 2,5 biliões de reais. É uma comunicação que atinge o mundo inteiro. Em Portugal, este é também um projeto fortíssimo.

O Rock in Rio acontece porque tinha de acontecer. O conceito de qualidade e a entrega que damos sai muito caro, por isso só é possível se trouxermos as marcas para este ambiente. Trazendo as marcas podemos criar um ambiente mais confortável para a marca, pois esta tem que se sentir segura. Criámos um conceito de entrega que vai muito além de fazermos um festival. No último ano, em assessoria de imprensa, tivemos um valor de mais de 2,5 biliões de reais. É uma comunicação que atinge o mundo inteiro. Em Portugal, este é também um projeto fortíssimo.

Levamos a cultura como janela. O político, de uma forma geral, não tem sensibilidade para o setor da cultura e arte, que é o melhor negócio possível. A cultura permite uma economia sem chaminés e cria emprego na mesma hora que está acontecendo.

Levamos a cultura como janela. O político, de uma forma geral, não tem sensibilidade para o setor da cultura e arte, que é o melhor negócio possível. A cultura permite uma economia sem chaminés e cria emprego na mesma hora que está acontecendo. No Rio de Janeiro, o negócio dos eventos deixa na cidade – e não temos calendário, estamos praticamente dependentes do Rock in Rio e do Carnaval – um negócio de 25 biliões de reais, sem turismo, que é residual. Portugal tem uma população de cerca de 11 milhões de habitantes e têm um número igual de turistas (antes da pandemia), o que permite potenciar mais o que aí desenvolverem.

A música é um negócio tão bom, porque não é de esquerda, não é de direita, injeta dinheiro na mesma hora e cria emprego. É muito pobre, na maioria dos países, o investimento do poder público nesta área. Não há essa cultura

A música é um negócio tão bom, porque não é de esquerda, não é de direita, injeta dinheiro na mesma hora e cria emprego. É muito pobre, na maioria dos países, o investimento do poder público nesta área. Não há essa cultura. É comum para o político ter uma secretaria de eventos, mas pouco faz, a verba que tem é mais para justificar a sua existência do que para criar um calendário de eventos e fazer comunicação. Este é um negócio muito barato para o retorno que dá.

Temos que sair de uma atitude recetiva de ideias e ser pró-ativos. Tem que se ter capacidade de trabalhar num calendário de eventos que possa atrair vários setores, no caso de Portugal de toda a Europa.

Como as cidades poderiam programar-se mais e melhor através da cultura para atrair turismo?

Temos que sair de uma atitude recetiva de ideias e ser pró-ativos. Tem que se ter capacidade de trabalhar num calendário de eventos que possa atrair vários setores, no caso de Portugal de toda a Europa. No Rio de Janeiro, tive uma reunião esta semana com o Prefeito, pois estou trabalhando na sugestão de um calendário mínimo de eventos, apesar de não participar na maioria deles. Por outro lado, fiz um trabalho para a Fundação Getúlio Vargas que permite entender qual o retorno de um evento em termos económicos, de emprego, entre outros, permitindo dar uma clareza absoluta ao poder público dos retornos que poderão ser atingidos. Por exemplo, de acordo com esta ferramenta, observa-se que o Rock In Rio há dois anos teve um impacto económico de 1,7 biliões de reais e o Carnaval de três biliões na economia da cidade do Rio de Janeiro.

A outra vertente é a comunicação, esta pode ser a cereja no topo do bolo para Portugal, este é um modo de comunicar para o resto da Europa. No nosso caso, para a América Latina. No último Rock In Rio do Rio de Janeiro, tivemos compradores de bilhetes de cerca de 75 países, isto oxigena a economia local, restaurantes, táxis, entre outros. É necessário e é possível termos uma visão clara deste negócio.

Desta forma o poder público pode entender quais deverão ser as suas prioridades a este nível. A outra vertente é a comunicação, esta pode ser a cereja no topo do bolo para Portugal, este é um modo de comunicar para o resto da Europa. No nosso caso, para a América Latina. No último Rock In Rio do Rio de Janeiro, tivemos compradores de bilhetes de cerca de 75 países, isto oxigena a economia local, restaurantes, táxis, entre outros. É necessário e é possível termos uma visão clara deste negócio.

É muito comum os políticos argumentarem que têm de cuidar dos hospitais, das escolas mas, no caso do Rio de Janeiro e Lisboa, estes eventos é que darão dinheiro para uma melhor atuação a esses níveis. No caso do Estado do Rio de Janeiro até chega a ser estranho, pois fizeram investimentos em infraestruturas devido às Olimpíadas, de 30 biliões de reais, mas esqueceram o “piloto”, não há conteúdo para dinamizá-las.

O sucesso de Portugal perante o turismo não se deu pela atitude do Governo, ele se deu porque se deu, porque era seguro, era lindo, era barato e as pessoas descobriram. Tem de haver uma maior pró-atividade dos Governos e não ter a vergonha de investir num negócio que é base para eles, principalmente em locais que estão preparados para potenciar esses investimentos, como Lisboa.

O sucesso de Portugal perante o turismo não se deu pela atitude do Governo, ele se deu porque se deu, porque era seguro, era lindo, era barato e as pessoas descobriram. Tem de haver uma maior pró-atividade dos Governos e não ter a vergonha de investir num negócio que é base para eles, principalmente em locais que estão preparados para potenciar esses investimentos, como Lisboa.

Portugal é do tamanho do sonho que a gente possa ter e, graças a Deus, o mundo conspirou e Portugal tem hoje uma posição de destaque no turismo mundial. Estou tentando que no Brasil abram os olhos para essa realidade.

Portugal mudou muito nos últimos anos porque havia um sentimento de muito pessimismo, de se considerarem pequenos, marginais. Portugal é do tamanho do sonho que a gente possa ter e, graças a Deus, o mundo conspirou e Portugal tem hoje uma posição de destaque no turismo mundial. Estou tentando que no Brasil abram os olhos para essa realidade.

Que recordações tem da sua vivência em Portugal? Tem acompanhado a evolução do país?

Quando eu fui para Portugal, a imagem que os brasileiros tinham do país era tosca. Um país velho, um país sem nada. Quando cheguei a Portugal foi uma surpresa para mim. Fiquei tão animado com a história de fazer lá um Rock in Rio. Fui buscar, para poder entregar o Rock in Rio, verbas de investimento importantes e fui muito bem acolhido. Parece que a tradição da relação entre Brasil e Portugal da nossa parte não tinha feito boas entregas.

Tentei levar para Portugal uma visão mais otimista da vida, fazia sentido pois participava do mercado europeu, está na lista dos países mais desenvolvidos do mundo, achando que era o “patinho feio”. Eu sinto, nestas últimas idas para Portugal, que o país mudou de uma maneira incrível, a juventude começou a tomar os seus passos. Lembro-me de aos Domingos estar tudo fechado em Portugal, hoje não.

A minha filha apaixonou-se por Lisboa, faz muito tempo que mora aí.

Porquê a internacionalização do Rock in Rio? Que desafios vos foram levantados, que parcerias foram fundamentais?

No início foi complicado. Não foi fácil contar essas histórias para as entidades públicas, para as marcas. Mas fui muito bem recebido por quem tinha paciência para me ouvir. O Millennium foi um parceiro fantástico. Eu tinha que entender que tinha de quebrar um paradigma. Da mesma forma que o Brasil em 1985 tinha um motivo, Portugal tinha na altura uma oferta, neste âmbito, muito fraca. Eu falava que na hora que der certo vocês vão ter um investimento muito maior, que não estava relacionado só com o Rock in Rio, mas com Portugal. Consegui quebrar esse gelo.

No primeiro Rock In Rio, o complicado era fazer o público entender. Num festival de música eu contrato um artista e você compra o bilhete; nunca pensei nesta perspetiva. No Rock In Rio, em 1985, no Rio de Janeiro, a cerveja Brahma assumiu um patrocínio de 20 milhões de dólares, sem me perguntarem quais as bandas que iriam tocar. Este valor é dado porque eu tinha um projeto de comunicação para a marca. Aquilo era revolucionário para aquela época e ainda o é hoje. O mercado americano é 12 vezes maior do que o brasileiro em patrocínios. O Rock In Rio vale cinco vezes mais do que o maior evento americano. Isto é um contrassenso, é incrível, face a um país que centraliza e exporta a música, cujo maior evento é o Lollapalooza, em Chicago.

Eu sou um batedor de tambor, o negócio da música está ali, mas eu tenho uma campanha de comunicação um ano no ar sempre tentando levar uma imagem positiva e num mundo cada vez mais complicado, um mundo que está triste.

Este parece-me um modelo de “ganha, ganha” para todo o mundo. Temos que ficar batendo o tambor. Eu fiz um projeto, Amazónia Live, derivado do Rock In Rio, que visava plantar árvores, cuidar da natureza, porque queria dar um pequeno exemplo. Eu plantei, acompanhando pessoalmente, um milhão e meio de árvores, e chamei o público para plantar mais. Hoje estamos em 3,7 milhões de árvores plantadas. Antes de começar a plantação, coloquei no meio do rio Amazonas, num palco flutuante a recriar uma folha, uma orquestra, Plácido Domingo e Ivete Sangalo, para 200 pessoas apenas (com transmissão para muitas mais). Na ocasião, um jornalista de Portugal perguntou-se se isso iria resolver algo. Eu respondi: “Uma árvore só resolve, meu tema é bater o tambor, eu tenho que impregnar o eleitor para que vote na pessoa que trabalhe estas medidas”. Eu sou um batedor de tambor, o negócio da música está ali, mas eu tenho uma campanha de comunicação um ano no ar sempre tentando levar uma imagem positiva e num mundo cada vez mais complicado, um mundo que está triste.

Penso que este ano o Rock In Rio vai ser uma loucura, as pessoas vão ficar à espera da abertura dos portões e as pessoas vão voar. Ninguém aguenta mais esse isolamento a que fomos submetidos pela pandemia. As pessoas querem abraçar e beijar. Este ano coincidirá com as edições do evento em Portugal e no Brasil. As pessoas não vão querer só ver bandas, querem conviver, será um grito, porque foi muito difícil os tempos que vivemos e que ainda estamos a viver. O nosso setor particularmente acabou. Eu sou viciado em dar boas notícias, essa é a minha especialidade.

Quais os princípios que devem orientar uma projeção de marca (seja de uma cidade ou de um país), a nível nacional e/ou internacional?

Quando comecei a minha vida de comunicador, comecei com uma agência de publicidade e cheguei ao Rock in Rio muito de repente na minha vida, mas sou basicamente um homem de comunicação. Hoje fala-se muito em comunicação em 360º, naquela época não. É óbvio para mim que há um momento em que você toca no coração do consumidor. Eu até brinco com esta situação: eu tenho o meu telefone da Apple, tenho um CEO que tem um Samsung, e ele tenta provar que o Samsung é melhor. Mas eu não quero saber. Porque o meu coração está na Apple. Essa coisa da construção da marca e do amor é algo que você tem que sentir. Quando se abrem os portões do Rock In Rio, em Portugal ou no Brasil, é tão emocionante, aquele momento é único, não tem no cinema, nem na televisão, e se a marca de certo modo está a dar, a inspirar para que aquilo aconteça, é matador. Não é à toa que o Rock in Rio todos os anos, quase durante 40, tem um volume de patrocínios absurdo. Tornou-se um grande negócio para a marca, porque ela ali conta a sua história. Isso é outra coisa também. Hoje estamos a viver um momento complicado porque as ferramentas são tantas e os impactos que você tem como consumidor são tantos que o que você lia num jornal no passado ficava transitando dois, três meses; hoje você pega numa notícia com o seu telemóvel, o jovem olha aquilo e 10 minutos depois já recebeu mais dois milhões de conteúdos, tendo esquecido o anterior. Hoje o conteúdo não fica velho de noite, mas na mesma hora. Há hoje um desafio muito grande que é como resolver isso. Antigamente, havia um padrão de tantos “atingimentos” numa pessoa, como se faz agora? Não é porque as ferramentas não são identificadas, elas são, mas está na velocidade com que eu perco a interação com você. Quando conseguimos chegar ao consumidor, tem de estar a acontecer alguma coisa, isso leva-nos a ter de dar emoção, o que leva a um produto cada vez mais difícil.

Eu lembro-me de uma entrevista do presidente da Coca-Cola, que investiu 35 milhões de dólares no Rock in Rio, em 1991, em que afirmava que tinha ganho tanto dinheiro nesse verão que mesmo que não tivesse o Rock in Rio estaria bom para ele. Mas ele estava a proteger a marca entregando para o patrocinador, surfando nesta onda por seis meses/um ano. Foi o mesmo com a cerveja Brahma, há 38 anos; eu fiz a cerveja construir a ideia comigo do Rock in Rio, tomámos o mercado brasileiro de uma maneira impressionante.

Como comunicador temos um grande desafio, a velocidade de comunicação. Temos outro desafio: os jovens não querem parar.

Como comunicador temos um grande desafio, a velocidade de comunicação. Temos outro desafio: os jovens não querem parar. E outro ainda, que a informação está “rasa”, é muito comum ter uma agência em que o redator não sabe redigir. Os anúncios não têm texto hoje. Eu fico exercitando permanentemente a cabeça do meu grupo para estes pontos.

Outra coisa que acho para a relação com as marcas e das marcas connosco é a procura do detalhe que as pessoas não veem, mas sentem. E a marca sente também.

Um dos aspetos do Rock in Rio é que é transversal na sociedade. Temos visitantes dos oito aos 80 anos de idade. Aqui temos uma diferença para os festivais. Fiz isso estrategicamente porque não conseguiria colocar 1,5 milhão de pessoas, há 40 anos, falando em nicho. Foi uma estratégia feliz porque hoje podemos ter o avô e o neto a irem juntos ao evento. É muito positivo esse convívio porque é familiar.

Quando acaba um Rock in Rio eu quero mais, quero saber de tudo que se passou, quero sempre melhor. As marcas que estão connosco compreenderam isso, tanto aqui, no Brasil, como em Portugal.

As motivações que nos levaram a construir esta marca foram de comunicação e essa perceção de que se não for extractivista, der o melhor preço que posso dar pelo produto que estou vendendo, com qualidade, desde as casas-de-banho aos sons únicos, esse tipo de qualidade é brutal face a outros eventos ou ao que era disponibilizado antes. É tudo meticulosamente feito. Quando acaba um Rock in Rio eu quero mais, quero saber de tudo que se passou, quero sempre melhor. As marcas que estão connosco compreenderam isso, tanto aqui, no Brasil, como em Portugal.

Tem que se informar com emoção, não é só com qualidade. E nisso a música é emocionante, é uma linguagem que fala para todo o mundo, com todos os idiomas. Tivemos a felicidade de entrar num caminho que é virtuoso e procuro seguir por esse caminho com todos os nossos parceiros.

Que desafios se levantam hoje na comunicação de uma marca?

Hoje tenho uma agência de publicidade gigante no Brasil, que está realmente a fazer um trabalho brilhante, a Artplan. Mas o planeamento dentro de uma agência está a deixar os criadores, que eram uma parte importante da energia desta história, de lado. As agências em todo o mundo estão a ter muitas regras. Houve coisas que fizemos ao longo da caminhada, a minha geração e a anterior, que estabeleceram conceitos. Hoje, com tanta regra e informação, e tendo em conta que o dono da marca sumiu, pois hoje há um CEO que responde a outro CEO, isso complica o processo criativo. Hoje é difícil contar uma história para estas empresas. Como aconteceu com a American Airlines, em 2001, com a Coca-Cola, em 1991, e a Brahma, em 1985; a emoção estava presente na relação e no que entregávamos ao público. De há um tempo para cá algo mudou. Tanto em Portugal como no Brasil, as marcas vão ao mercado e comunicam a 60 ou 30 dias. Antes do Rock In Rio, o que se chamava de patrocínio era uma faixa com o nome da marca, mas connosco eu estou a entregar à marca uma marca já poderosa de comunicação, que inspira valores. Quando você sai nos 30 segundos da televisão, do jornal, essa tem de ser uma parte da história. Tem que se informar com emoção, não é só com qualidade. E nisso a música é emocionante, é uma linguagem que fala para todo o mundo, com todos os idiomas. Tivemos a felicidade de entrar num caminho que é virtuoso e procuro seguir por esse caminho com todos os nossos parceiros.

Conseguimos manter uma relação mais pura entre o público e os artistas e, ao mesmo tempo, colocar investimentos importantes que se traduzem em qualidade na entrega. O Rock in Rio tem de ser grande e sofisticado, com uma visão grandiosa.

Referiu numa entrevista que “o Rock in Rio, a cada dia que passa, tem como astro menos a Beyoncé e mais o cidadão comum”. Apesar dos negócios que se cruzam no Rock In Rio, o consumidor é o vosso ponto de apoio; é fácil não se desviarem deste caminho?

Ao longo destes 38 anos, fizeram-me muitas propostas para colocar marcas no palco do Rock in Rio. Eu implementei uma regra que indica que 15 metros para cada lado do palco não pode haver intromissão de marcas. O público quer ter aquela relação pura com a arte e isso fica para o palco. Estou agora a contar-vos que essa regra não existia. Mas era necessário conter para as marcas não invadirem o palco. O público quer ter aquela relação pura com a arte e isso fia para o palco. A envolvente é a oportunidade para as marcas construírem a sua relação, trazendo conforto ao público, então é um “ganha, ganha”. E essa relação (marca-público) está cada vez mais sofisticada, há vários projetos com os patrocinadores ao longo do evento e criação de conteúdo também. Conseguimos manter uma relação mais pura entre o público e os artistas e, ao mesmo tempo, colocar investimentos importantes que se traduzem em qualidade na entrega. O Rock in Rio tem de ser grande e sofisticado, com uma visão grandiosa.

Para além dos projetos sociais, por exemplo, que a Roberta desenvolveu em Portugal. Isso não vende, mas reforça a marca, dá qualidade à marca. Ainda esta semana tive uma reunião com ela onde abordámos a questão dos projetos sociais em Portugal e no Brasil. Dedicamos tempo a isso porque sabemos que é importante, sabemos que temos instrumentos de comunicação para os jovens. Então como podemos fazer isso, sem politizar, de direita ou esquerda, isso une. As questões sociais do Brasil são muito mais complexas do que em Portugal. O Palco Favela, um projeto de música do Rock in Rio, procura isso, foi criado quando houve um tiroteio na Favela da Rocinha. Em primeiro lugar, procuro ter um olhar sobre os projetos, a favela tem 99% de pessoas sérias, que trabalham e respeitam os valores da sociedade. E fomos então buscar música, teatro, da favela, e trouxemos pequenas operações de comida da favela. Acho que materializei esse projeto.

Quando olho para o meu trajeto sou muito grato com a vida, ela foi generosa comigo, não me sinto com talento para ter feito o que fiz. (…) Se eu tivesse que escolher uma palavra para mim eu diria: comprometido. O talento, se eu tiver algum, uso também. Eu quero fazer, quero entregar e sinto-me obrigado a entregar o que eu sonho.

Trabalha com a família. Este foi um processo fácil ao longo dos anos?

É difícil trabalhar em família, temos de contar até três muitas vezes (risos). Não podemos “brigar”. Mas eu tenho muita sorte, a Roberta e o Rodolfo foram importantes para as marcas ficarem do tamanho que ficaram. Têm trajetórias, foram fundamentais, Roberta com o seu jeito, mais “cabeça” e social. O Rodolfo é mais um executivo, até nisso eles são complementares. Quando olho para o meu trajeto sou muito grato com a vida, ela foi generosa comigo, não me sinto com talento para ter feito o que fiz. Sinto-me uma pessoa comprometida, uma pessoa “bacana”, peço à minha equipa para mais do que serem geniais ou talentosos, que sejam comprometidos. Se eu tivesse que escolher uma palavra para mim eu diria: comprometido. O talento, se eu tiver algum, uso também. Eu quero fazer, quero entregar e sinto-me obrigado a entregar o que eu sonho.

Quando acabou o primeiro Rock in Rio, aquilo foi muito mau, fiquei muito deprimido, mas depois comecei a perceber que as pessoas estavam apaixonadas pelo evento, porque eu entreguei mais do que prometi. Em Portugal entregámos mais do que prometemos. Isso é um seguro, você entregar bem é um seguro para a sua empresa. Você ter uma marca querida é um seguro.

É ambicioso, o que é para a si a ambição?

Se penso em grande, penso. Os meus sonhos são grandes. Acho que sou um pouco ambicioso, pelo lado bom da ambição, que leva você a encarar grandes desafios. Eu enfrentei na minha jornada grandes desafios. Ainda no plano da comunicação, em 2001, quando fiz um projeto social, em que educámos quatro mil pessoas no ensino fundamental, lembro-me que tive a ideia de parar a comunicação social do Brasil – temos 3200 rádios e 535 repetidoras de televisão – durante três minutos, para falarmos num mundo melhor. Fiquei batendo “lata” com esse “troço” sozinho, fiz reunião com a minha empresa, não me demitiram porque eu era o dono, mas devem ter tido vontade. Mas parei o país por três minutos, todas as emissoras e estações de rádio ficaram fora do ar e escrevi um texto sobre um Mundo Melhor. O próprio Rock in Rio parou, com todo o mundo vestido de branco lá dentro. Foi uma coisa tão bonita.

Sou ambicioso, reunir 250 mil pessoas num campo e ter 90 e tantos milhões assistindo a um Rock in Rio mostra isso, mas para o bem, construindo uma coisa com valor.

Que sonhos ou que desejos profissionais ainda gostaria de ver concretizados?

Hoje em dia o que quero é focar-me mais nos projetos Por um Mundo Melhor e para a vertente social. Quero apoiar a Roberta, que está sempre a erguer essa bandeira. Temos a música, que ultrapassa em muito a política e a economia. Se puder, quero usar esse valor da música para poder ligar as pessoas. Estamos a viver num mundo tão estranho, tão complexo, a música pode ajudar nessa caminhada. São países em guerra, há uma falta de referência dos líderes do mundo, então acho que podemos ser um pontinho de esperança para as pessoas. Tudo o que disse resumiria que somos um sinalizador de esperança para as pessoas, a base disso são os sorrisos que você vai ganhando em cada evento, mas tem de ser tratado cada vez mais como um projeto que leva esperança e, se possível, um projeto político, sem políticos, onde podemos estar com essa bandeira, porque estamos a sair de um momento muito difícil, onde a sociedade ficou de joelhos. Sabemos que um dia vamos morrer, mas podemos encarar de frente a morte. Para isso a sociedade precisa cuidar mais do planeta e eu quero reverberar através da música essa relação. O jovem está aberto e a precisar disso. Estou sempre em contacto com a juventude e sinto que estão com medo do que as nossas gerações estão a produzir. Isso não pode acontecer.

Quero estruturar mais ainda do ponto de vista global de comunicação, porque há uma grande carência no mundo, mais eventos. Através do exemplo próprio e canalizando a energia da juventude temos que ir mais longe no sentido de fazermos um mundo diferente do que estamos a fazer. Estamos a sair de uma pandemia e a entrar em guerra, isto é muito estranho. Temos de despolitizar, ter luz e alegria e pensar que temos de cuidar das coisas fundamentais do nosso planeta, o meio-ambiente e a segurança. Também entender que essas coisas cuidadas, dão dinheiro. Uma vez quis trazer a Disney para o Rio de Janeiro, mas a sua infraestrutura era muito complexa e muito cara, e nós não tínhamos turismo interno, como não temos até hoje, suficiente para um retorno. Esse foi o único projeto da minha vida que não fiz. Mas já equacionei pegar na floresta da Tijuca, que é uma floresta urbana, a maior do mundo. Se a iluminar, fizer projeção urbana, se contar uma história ali dentro, fico com o maior parque temático do mundo dentro de casa, sem gastar dinheiro. Estou contando isso, porque estou a trabalhar nisso. O Rio de Janeiro anda muito à volta do Rock in Rio e Carnaval, é necessário mais atrações permanentes. Por outro lado, se nada for feito na floresta da Tijuca, a favela vai ocupar esse espaço. A minha motivação principal é turismo, se eu vou fazer ou não vou? Eu acho que vou.

Pedro Chenrim e Inês Gromicho. Esta entrevista foi publicada na edição 338 da Ambitur.