Por Paulo Brehm, consultor de Sustentabilidade
A cidade de Amesterdão aprovou, em janeiro deste ano, uma alteração ao regulamento municipal de publicidade, tornando-se a primeira capital do mundo a proibir publicidade a carne e produtos associados a combustíveis fósseis em espaços públicos municipais.
Desde 1 de maio, deixaram de poder surgir em outdoors, abrigos de elétrico, metro, autocarros e outros suportes urbanos geridos pela cidade, anúncios relacionados com voos, cruzeiros, automóveis a gasolina ou diesel, contratos de gás e produtos de carne.
Importa, ainda assim, esclarecer uma nuance importante: não se trata de uma proibição absoluta de publicidade. A medida aplica-se apenas aos espaços públicos municipais e não impede publicidade em plataformas digitais, aeroportos, jornais, televisão ou espaços privados. Por enquanto…
Confesso: mon cœur balance!
Percebo perfeitamente o raciocínio dos holandeses de Amesterdão. E, em muitos aspetos, concordo com ele.
É um facto que precisamos de reduzir, reduzir, e voltar a reduzir, o consumo de combustíveis fósseis. É igualmente evidente que o consumo excessivo de carne, sobretudo de vaca, levanta questões ambientais muito sérias, desde emissões de metano ao uso intensivo de água e território.
Eu próprio já reduzi o meu consumo de carne. E desafio todos os leitores a fazerem o mesmo, nem que seja apenas uma refeição de carne de vaca a menos por semana. Acredito, genuinamente, que pequenas mudanças, quando multiplicadas por milhões de pessoas, podem fazer – fazem – diferença.
Em Portugal, por exemplo, deveríamos falar da ligação ferroviária direta Lisboa–Madrid (e de Madrid a toda a Europa) com, pelo menos, a mesma intensidade com que falamos do novo aeroporto.
Também faz sentido exigir mais ferrovia, mais comboio, mais alternativas reais à aviação de curto curso. Em Portugal, por exemplo, deveríamos falar da ligação ferroviária direta Lisboa–Madrid (e de Madrid a toda a Europa) com, pelo menos, a mesma intensidade com que falamos do novo aeroporto. Até porque estamos a perder turistas que que, noutros países europeus, já optam pelo comboio como alternativa ao avião – e que simplesmente excluem Portugal das suas escolhas por falta de ligações ferroviárias internacionais rápidas, modernas e competitivas.
Não basta pedir às pessoas para mudarem comportamentos: é preciso criar condições reais para que essa mudança seja possível.
Tudo isto me parece racional. Necessário, até.
Mas há outra parte de mim que hesita.
Porque também é verdade que não vamos, nem podemos, deixar de voar. Nem vamos, num horizonte próximo, deixar de comer carne, embora talvez cresça o consumo de carne produzida em laboratório. E, sinceramente, não creio que devamos transformar estas atividades numa espécie de novo tabaco climático.
A comparação começa a surgir cada vez mais vezes: primeiro vieram as restrições à publicidade ao tabaco; agora chegam restrições à publicidade de voos, carne ou combustíveis fósseis. Há quem fale já num «estilo tabaco» para produtos intensivos em carbono.
Mas, para mim, existe uma diferença fundamental.
O tabaco não era necessário. Não existe consumo saudável de tabaco. O objetivo final era, legitimamente, reduzir o consumo até ao mínimo possível.
Já a alimentação e a mobilidade pertencem a outra categoria. Comer é uma necessidade básica – embora possamos, naturalmente, discutir o que consumimos e em que quantidades. Viajar também não é apenas um luxo descartável.
Claro que podemos – e devemos – discutir excessos. O desperdício alimentar. O absurdo de certos voos evitáveis. A pressão do turismo de massas. A lógica do «quanto mais barato melhor» sem qualquer reflexão ambiental.
Mas há uma linha delicada entre incentivar comportamentos mais sustentáveis e começar a tratar escolhas humanas normais quase como desvios morais.
Mas há uma linha delicada entre incentivar comportamentos mais sustentáveis e começar a tratar escolhas humanas normais quase como desvios morais.
E é aí que fico dividido.
Mesmo assim, o simbolismo político da decisão de Amesterdão é enorme. Porque, pela primeira vez, uma capital europeia coloca carne, aviação e combustíveis fósseis dentro do mesmo enquadramento climático e regulatório.
Mas Amesterdão não é um caso isolado. A cidade neerlandesa de Haarlem foi pioneira na proibição de publicidade à carne em espaços públicos. Outras cidades, como Utrecht ou Nijmegen, seguiram caminhos semelhantes.
No caso dos combustíveis fósseis e da aviação, cidades como Edimburgo, Sheffield, Estocolmo ou Florença avançaram também com restrições à publicidade ligada a produtos considerados altamente poluentes. A França foi ainda mais longe, aprovando limitações nacionais à publicidade associada a combustíveis fósseis.
Ou seja: isto não é um episódio isolado nem uma excentricidade holandesa. É uma tendência política, cultural e climática que está claramente a ganhar espaço na Europa.
Por cá, como tantas vezes acontece, vamos esperando para ver onde param as modas – e só depois decidiremos se queremos acompanhar ou fingir que nada mudou.
E talvez seja precisamente isso que torna o debate tão importante.
Porque, no fundo, concordo com o objetivo. Só não tenho a certeza absoluta sobre o caminho.
Tenho dúvidas sobre até que ponto queremos que o espaço público passe a ser um instrumento de orientação comportamental. Tenho dúvidas sobre quem decide quais os produtos «aceitáveis» para publicidade. Hoje são carne e voos. Amanhã será o quê?
Ao mesmo tempo, também me custa ignorar a realidade climática. A ciência é clara. As emissões precisam de diminuir. O modelo atual de consumo não é sustentável a longo prazo.
Talvez o maior mérito destas decisões seja precisamente esse: obrigarem-nos a discutir temas que durante muito tempo ficaram fora do debate público. A alimentação. A mobilidade. O impacto climático das nossas escolhas quotidianas.
E talvez seja saudável que essa conversa exista.
Porque, para ser honesto, o meu mon cœur balance continua bem vivo. E aceitam-se argumentos – de ambos os lados – que me ajudem a decidir.




















































