Notícias do Brasil: Entrevista exclusiva à Secretária de Estado do Turismo de Portugal

Notícias do Brasil: Entrevista exclusiva à Secretária de Estado do Turismo de Portugal

Categoria Advisor, Opinião

Por Cristina Lira

1 – 2021 chegou e a pandemia continua no mundo. Como será o turismo em Portugal nesses primeiros meses? Qual a expectativa?

Neste início do ano o mundo registou números preocupantes, que nos alertam para a necessidade de mantermos a saúde pública como prioridade. Os programas de vacinação a nível mundial estão, como em Portugal, na sua primeira fase de implementação. Tudo visto, o sentimento nestes primeiros meses de 2021 é de expetativa e esperança. Acreditamos que a partir do segundo trimestre de 2021 iremos conseguir iniciar a retoma.

2 – Qual o subsetor do turismo mais afetado? A hotelaria, a restauração, as agências de viagens e o setor de congresso e eventos? O turismo representa quanto na economia portuguesa?

Infelizmente, em 2020, as perdas em todos os subsetores do turismo são muito significativas, pelo que, o grande desafio passa por apoiar as empresas, defendendo a sua capacidade produtiva e o emprego, em toda a cadeia de valor.

Em 2019, o VAB gerado pelo turismo representou 8,5% do total do VAB da economia nacional. No mesmo período, a procura turística foi equivalente a 15,4% do PIB, cerca de 33 mil milhões de euros. O setor do turismo é a maior atividade económica exportadora do país, sendo, em 2019, responsável por 52,3% das exportações de serviços e por 19,7% das exportações totais.

3 – O que o Governo tem feito para melhorar a situação dos portugueses que perderam o emprego e para assegurar as empresas?

A nossa primeira prioridade tem sido a saúde dos cidadãos. Reconhecemos, porém, que o surto de coronavírus representa também um enorme choque para a economia pelo que, desde março, temos vindo a lançar um conjunto muito importante de medidas que visam defender a capacidade produtiva e o emprego.

SET, Rita Marques

Ao nível de medidas de apoio à tesouraria, destaco os alívios fiscais, as moratórias bancárias e as linhas de crédito com garantia pública. Ao nível da manutenção do emprego, implementámos o lay-off simplificado e lançámos apoios à retoma e à normalização da atividade, suportando parte dos encargos com os salários dos trabalhadores. Finalmente, não descuramos os apoios ao investimento, nomeadamente, para adaptação às exigências sanitárias, nem os apoios a fundo perdido para cobrir custos não salariais. No total, foram mais de 22 mil milhões de euros de apoios. Expurgando moratórias de natureza fiscal e bancária, 2,5 mil milhões de euros foram direcionados para o setor do turismo, ou seja, cerca de 20% do montante total mobilizado.

Para além destas medidas, destaco ainda o lançamento do selo Clean and Safe, que reconhece as entidades de toda a cadeia de valor do turismo que implementaram medidas de segurança sanitária e que garantem a devida proteção aos visitantes. Esta medida, a primeira do género a ser lançada na Europa, foi muito importante para criar confiança nos clientes. Atribuímos perto de 22.000 selos, e demos formação prática sobre medidas sanitárias a mais de 23.000 pessoas.

Devemos cuidar do presente, mas sempre com os olhos no futuro. Em outubro de 2020, lançámos o Plano Turismo +Sustentável 20-23, que reforça o nosso compromisso com a sustentabilidade no turismo. Lançámos ainda o Programa de Formação Upgrade, dirigido aos profissionais do turismo, e que pretende ajudar as pequenas e muito pequenas empresas a adquirirem conhecimentos e competências que lhes permitam preparar o futuro, estruturando os seus negócios com novas propostas de valor, mais sustentáveis e capazes de responder às exigências futuras do setor.

Temos também lançado diversas ações dirigidas às startups, ao emprego tecnológico, e aos investidores, pois Portugal continua a ser um excelente destino para empreendedores e oferece condições muito competitivas para investidores, para trabalhadores altamente qualificados, e para residentes não habituais, incluindo os nómadas digitais.

4 – O Reino Unido é o principal polo emissor de Portugal. Quanto representa na economia a perda desse mercado? E o que tem sido feito?

Ao longo dos últimos anos, Portugal tem vindo a trabalhar na diversificação da procura, tanto através da abertura de novos mercados emissores, como desenvolvendo novos segmentos de procura em mercados mais tradicionais para Portugal, como é o caso do Reino Unido.

Ao nível dos novos mercados emissores temos, hoje em dia, novos mercados importantes para o nosso destino, que por motivo da pandemia se retraíram, mas que estamos confiantes que irão retomar logo que a situação for ultrapassada. É o caso de mercados como a China, a Coreia do Sul, o Japão e a Austrália, mas também alguns mercados intercontinentais já habituais em Portugal, que em resultado de estratégias agressivas de desenvolvimento da operação aérea, tiveram um novo ímpeto de crescimento, como é o caso do Brasil, EUA e Canadá.

Em simultâneo, temos também levado a cabo uma estratégia de desenvolvimento de novos produtos turísticos em Portugal, procurando com isso atrair novos turistas. É o caso de produtos como o cycling e walking, enoturismo e gastronomia, turismo de natureza, turismo industrial, turismo religioso, turismo desportivo, casamentos e luas de mel e muitos outros. Estamos atentos a novas tendências do consumidor que se começam a desenhar, como é o caso dos turistas nómadas digitais.

O Reino Unido é importante para Portugal e em alguns destinos regionais é mesmo um mercado crítico, como é o caso do Algarve e da Madeira. Estamos confiantes que com as estratégias que temos em curso para o desenvolvimento das acessibilidades aéreas, do desenvolvimento de novos produtos e do lançamento de medidas concretas para mitigar os impactos negativos da saída do país da União Europeia, como é o caso da manutenção das taxas de segurança aeroportuárias em Portugal para os passageiros com destino ao Reino Unido, conseguiremos que o mercado retome já a partir de 2021 e que paulatinamente atinja os valores de 2019. Os britânicos não deixarão de viajar, e Portugal mantém os seus ativos intactos.

5 – A vacina contra a Covid-19 já chegou a Portugal. Será obrigatória para todos os cidadãos?

Estão previstas três fases para a execução do plano de vacinação contra a Covid-19 em 2021, que teve início em dezembro passado. Atendendo à experiência de mais de 40 anos de plano de vacinação em Portugal, entendeu-se que a vacina deveria ser universal, facultativa e gratuita.

6 – O Brasil é  um forte mercado para Portugal. Com as restrições e o impedimento dos brasileiros entrarem no país como turistas, quanto representa a perda e qual o valor de turistas que o Brasil levava por ano para Portugal antes da pandemia?

Como já referi, o mercado do Brasil é extremamente importante para nós. Em 2019 registámos 1,3 milhões de hóspedes do Brasil (8% dos estrangeiros), e quase 3 milhões de dormidas (6% do total dos estrangeiros). Foi o segundo mercado que mais cresceu.

Até outubro de 2020, as quebras neste mercado, em dormidas e hóspedes foram de cerca de 74% e 76% respetivamente.  Assim que for possível viajar, temos muita confiança que os brasileiros viajarão em força para Portugal. Estaremos de braços abertos.

7 – De norte a sul do Brasil, a expectativa é grande em poder voltar a viajar para Portugal. Acha que isso já será uma realidade a partir de março deste ano?

Sim, a partir do 2.º trimestre. Estamos todos ansiosos.

8 – Como analisa a recuperação do turismo em Portugal? Será lenta? Deverá seguir esta situação até 2022?

A maioria das projeções indicam uma retoma no turismo internacional mais forte a partir do 2.º semestre de 2021, sendo que não antes de 2023 atingiremos os valores de 2019. Portugal seguirá uma trajetória idêntica.

9 – Portugal é um país pequeno mas imenso no seu potencial turístico, com as suas riquezas culturais e históricas. Qual será o principal turismo desta era? O turismo de natureza?

Todos os ativos estratégicos e motivos de atração do país estão intactos. Podemos até dizer que a atratividade de Portugal sai reforçada, já que Portugal oferece uma palete diferenciada de experiências, da praia à montanha, da cidade ao mundo rural, ajustadas à procura pós-pandemia, ou seja, produtos muito baseados na autenticidade, na cultura e na natureza, assim como no turismo de maior proximidade e menor aglomeração.

Mas temos de ser audazes para conquistar o nosso lugar no pós-pandemia. Estamos preparados para aproveitar a oportunidade quando for possível viajar. Estamos prontos para liderar o caminho de um turismo mais sustentável.

Cristina Lira