“O Alto Alentejo ainda é um território onde existe muito por descobrir”

“O Alto Alentejo ainda é um território onde existe muito por descobrir”

Categoria Advisor, Entrevistas

Ricardo Pinheiro, presidente da Comunidade Intermunicipal do Alto Alentejo (CIMAA), defende que o Alto Alentejo tem um enorme potencial de crescimento a nível do turismo, tendo de haver uma estratégia de promoção e de divulgação nos canais certos, daquilo que este território tem para oferecer.

Qual a missão da CIMAA e que objetivos pretende atingir?
A missão da Comunidade Intermunicipal é concertar os esforços de governação pública de 15 municípios do Alto Alentejo, do distrito de Portalegre. Temos como principal objetivo coordenar aquilo que é a problemática dos fundos comunitários e orientar esses mesmos fundos através de uma operação à qual designamos contratualização, onde são distribuídos fundos pelos diferentes municípios consoante as suas opções estratégicas.

Damos apoio a tudo o que são problemas de financiamento, também fora dos instrumentos contratualizados pela CIMAA, e ganhamos escala no sentido de podermos otimizar o que é o exercício da gestão pública em determinadas áreas da contratação, como o caso dos combustíveis, eletricidade, seguros.

É passar do registo da governação, não só do ponto de vista concelhio, para um registo de âmbito regional onde valorizamos muito as questões de autonomia em cada um dos 15 concelhos, onde existe um Conselho Intermunicipal, no qual estão representados os presidentes de Câmara, constituído por um presidente e dois vice-presidentes, que representam aquilo que são as vontades e as deliberações tomadas nos conselhos intermunicipais.

Os nossos principais objetivos são, cada vez mais, numa altura em que a Função Pública e o exercício da Função Pública têm que continuar a ser preservados, otimizar ao máximo o exercício da gestão pública para que possamos profissionalizar cada vez mais e conseguir, ao mesmo tempo, dentro de uma estratégia de receita e despesa, estar profundamente organizados não só ao nível da gestão mas também da formação e dos recursos humanos.

Concretamente no que diz respeito ao turismo, e à “Estratégia de Eficiência Coletiva (EEC) PROVERE INMOTION 2020”, o que tem procurado a CIMAA fazer nesta região?
A promoção do turismo à escala nacional é feita pelas entidades regionais de turismo. Mas vamos continuar a ter uma relação estreita com a Entidade Regional do Turismo do Alentejo e gerimos vários programas. Por exemplo, o Alentejo Feel Nature, uma rede de percursos pedestres onde praticamente todos os municípios do Alto Alentejo participaram. Não potenciar só o património edificado dentro dos centros urbanos mas também toda a beleza natural de um território.

Cada vez mais os fóruns e as discussões de turismo para os próximos 10 anos, nesta área do Alentejo, privilegiam isso: saber como seremos capazes de continuar a promover e a proporcionar aos turistas experiências novas, mantendo a nossa essência. Temos grandes maus exemplos à escala mundial onde a massificação do turismo acontece.

A estratégia do Alentejo Feel Nature baseia-se fundamentalmente nisso, na proteção do meio ambiente e na preservação do modelo de vida associado aos turistas, proporcionando essas experiências aos turistas que queiram conhecer o Alto Alentejo e repetir a experiência.

Continuamos com uma experiência que é a “Estratégia de Eficiência Coletiva (EEC) PROVERE INMOTION 2020”, uma estratégia de rede onde todos os agentes na área do turismo se podem associar no sentido de existir uma estratégia definida, em todo o território PROVERE (Alto Alentejo e Estremoz). Queremos, de uma forma absolutamente organizada, dar possibilidade aos parceiros privados, que muito nos fazem falta na área de promoção turística, de conseguirem estar articulados e promover a melhor oferta, o melhor serviço e a melhor organização, porque cada vez mais é necessário estarmos à altura dos desafios dos públicos extraordinariamente exigentes que visitam o Alto Alentejo.

Como caracterizaria o Alto Alentejo a nível turístico?
O Alto Alentejo ainda é um território onde existe muito por descobrir. Há 10 anos atrás, o nosso país teve uma expansão enorme à escala mundial; o Alto Alentejo ainda não beneficiou diretamente desse tipo de expansão, acima de tudo porque se promoveu muito Lisboa e toda a zona litoral.

Penso que o Alto Alentejo tem a possibilidade de crescer imenso nos próximos anos, em matéria turística. Portugal tem apostado muito na otimização da requalificação dos centros urbanos, existem propostas muito ambiciosas onde o património edificado dentro dos nossos centros pode servir como uma alavanca forte à experimentação de vivências dos turistas nas zonas mais rurais do país, em zonas que são francamente ricas em experiências; apostar nas vivências do que é a ruralidade e, ao mesmo tempo, a necessidade desta ruralidade acompanhar a contemporaneidade de experiências, de evolução económica, de evolução social.

O que procuram os turistas na região?
O que mais procuram é a originalidade das pessoas e do território. O Alto Alentejo teve o desafio de crescer apressadamente e teve a felicidade, ou a infelicidade, de não o ter feito no momento certo. Mas, neste momento, somos um território claramente original, em que as pessoas que o visitam sabem que vão ter momentos de experiência e de vivência, o mais ancestrais possível, não só do ponto de vista económico mas do ponto de vista social.

Quais as principais dificuldades que a região sente a nível turístico e de que forma poderá ultrapassá-las?
Julgo que a principal dificuldade, e também a maior oportunidade, é adaptar a nossa comunidade aos três grandes idiomas falados à escala mundial: o inglês, francês e espanhol. Acho que é extraordinariamente necessário todos os agentes envolvidos no Alto Alentejo estarem capacitados para esta questão.

Temos que ter uma estratégia de promoção e de divulgação nos canais certos daquilo que este território pode oferecer. Quando conseguirmos entrar nestes canais e, ao mesmo tempo, ter os centros históricos dos 15 concelhos do Alto Alentejo completamente organizados, um modelo de restauração perfeitamente alinhado, seja em Sousel, Campo Maior ou Portalegre, estas questões vão trazer uma credibilidade diferente àquilo que deve ser a promoção turística do território do Alto Alentejo.

Têm algum projeto ou iniciativa turística em curso?
O maior projeto que está neste momento em curso, no Alto Alentejo, prende-se com as inúmeras situações de recuperação de património. Falo de Elvas, Campo Maior, Portalegre. Falo de toda a estratégia que os autarcas têm concertado, durante os últimos anos, de perceberem que existem monumentos de extraordinária importância, que devem estar absolutamente articulados e recuperados para proporcionar essas experiências aos turistas.

Não tenho uma estratégia pessoal em relação à Comunidade Intermunicipal. Represento aquilo que é a vontade dos outros 14 presidentes de Câmara mas claramente, neste projeto, temos vindo a falar e a debater no Conselho Intermunicipal, de adaptar e de harmonizar, uma palavra extraordinariamente importante, aquilo que são as sinaléticas dentro desta singularidade que o Alto Alentejo tem para oferecer e harmonizar do ponto de vista da sinalética, da receção e dos alojamentos. Há um trabalho grande a fazer. Eu não diria transformar o Alto Alentejo num grande resort, como em vários pontos do mundo, mas conseguir produzir uma capacidade organizativa e de comunicação global à escala do Alto Alentejo é, para mim, o principal desafio da CIMAA neste momento.

Rita Inácio, publicado na edição 318 da Ambitur.