“O caminho é Portugal 2.0”

“O caminho é Portugal 2.0”

Portugal tem que ser diferenciador nas propostas que apresenta ao mercado. Luís Veiga, eleito novo presidente da Associação da Hotelaria de Portugal revela, em entrevista, que Portugal está aquém da sua procura potencial. À frente da AHP, Luís Veiga assegura que o primeiro objectivo é posicionar a Associação como parceiro privilegiado na relação com os órgãos públicos e “caminhar para um compromisso entre públicos e privados que leve à construção de um novo “Plano Nacional de Turismo 2014-2020”.

O que presidiu ao programa que irá nortear o seu mandato à frente da AHP?

O nosso programa espelha o diagnóstico efectuado à associação e ao que os nossos associados necessitam num contexto nacional e internacional. Estamos num panorama de audição e partilha de testemunhos em permanência. Numa lógica de revolução web, tudo tem de ser revisto e reequacionado. A AHP tem actualmente meios muito equilibrados e recursos humanos motivados, o que lhe permite estar preparada para os desafios que tem pela frente. Isso também deriva da envolvência no projecto TTT que satisfaz os nossos associados, mas que pode ir mais além. Ainda ao nível interno, temos uma direcção executiva muito interventiva, com um ‘background’ enorme, sendo uma estrutura operacional muito profissional, dedicada à associação e vida associativa. Na parte financeira regista-se um equilíbrio, evidenciado pelas contas recentemente aprovadas, com uma margem líquida satisfatória e sem endividamento. Estes factores permitem-nos encarar e partilhar os desafios com os nossos associados e com a tutela.

Qual o principal desafio que se põe?

Tenho a convicção, ao contrário de outros agentes do mercado, que estamos muito aquém da procura. A nossa oferta pode ser considerada excedentária em alguns destinos, muito pelo efeito de sazonalidade, mas o que acredito é que temos que procurar mercados, pois estamos aquém da procura potencial. Há concorrentes nossos que o estão a fazer, nomeadamente Espanha. Portugal tem neste momento um fraco reconhecimento da sua marca, que naturalmente, face às nossas condições deveria ser superior a alguns dos concorrentes, tendo também condições para obter melhores resultados, ocupando oferta existente em Lisboa e no Algarve, Açores e Madeira. Considero que temos de ser diferenciadores nas propostas apresentadas ao mercado, reorganizar actividades na cadeia de valor, em todos os sectores do turismo. A nossa cadeia de valor tem de ser toda construída, toda revista, para sermos competitivos e termos uma proposta concreta para o mercado internacional, já que o contexto nacional é o que sabemos. Temos que ganhar então quota de mercado a outros países europeus, assim como do Norte de África. Apesar de termos de concorrer com destinos, como a Turquia, que actuam no mercado com práticas de ‘dumping’ à luz do dia, que deveriam ser penalizadas ao nível da União Europeia.

Quais os objectivos estratégicos para a AHP?

O primeiro objectivo é posicionar a AHP como parceiro privilegiado na relação com os órgãos públicos, responsáveis pela definição de políticas públicas, desde a Secretaria de Estado do Turismo, ao TP, ao AICEP, passando pelo Banco de Portugal, Estradas de Portugal, entre outros. Pretendemos uma maior articulação com o sector público e tutela em diversas áreas. Da recente revisão do PENT, temos de caminhar para uma nova realidade e esta passa por um Plano Nacional do Turismo que acompanhe o QREN, de 2014 a 2020, e que trace uma nova visão e reforce a marca Portugal, que é praticamente inexistente. O Plano Nacional do Turismo deve ser o próximo guião para a modificação que queremos que seja o turismo nacional e que demonstre claramente os objectivos e metas, numa proposta única, criativa e diferenciadora. Este deve ser acompanhado por um Plano Estratégico de Marketing, que tenha uma lógica de relação com os mercados e produtos e também de fidelização dos clientes externos. Vejo a AHP como motor de todo o turismo nacional, quando representa 500 associados hoteleiros e os maiores grupos nacionais. Com o Conselho Geral esperamos dar um contributo muito positivo para os órgãos públicos, em especial para a Secretaria de Estado do Turismo, na definição de uma política nacional do turismo. Podemos e teremos também que identificar e avaliar as barreiras ao turismo e os, custos de contexto que são penalizadores para a actividade turística e ajudar a avaliar e monitorizar os resultados e as metas.

E ao nível da promoção o que defende esse Plano Nacional do Turismo?

As três melhores promoções nacionais avaliadas a nível mundial são as realizadas pela Noruega, Espanha e Finlândia, por isso é preciso estar atento ao que estes países estão a fazer. Temos de ir beber alguma coisa a Espanha, saber o que estão a fazer, assim como perceber porque a Noruega está em primeiro lugar. Não temos feito isso, a nossa marca não tem assinatura, não sabemos concretamente o que os visitantes externos sabem de Portugal nem qual a sua motivação para nos visitar. O futuro do Plano Nacional de Turismo é ver um país como um todo, organizar os produtos que são transversais a todo o país, comercializá-los e não subordinar isso às regiões e aos seus micro e por vezes insondáveis interesses. Considero fundamental para se conseguir isso a entrada dos privados no Turismo de Portugal. Pode considerar-se uma revolução mas a promoção no futuro deste país deve ser feita na lógica de um país 2.0. O caminho é Portugal 2.0, os turistas hoje não andam há procura de postos do turismo, querem plataformas que façam interligação com os seus dispositivos móveis e os avanços na geolocalização ainda vão potenciar mais esta rede. Mas atenção que não basta ter uma oferta bem desenhada, bem feita, com acções de guerrilha offline e ligações ao online, também é necessário ter serviço e produto estruturado. É necessário, aqui, uma requalificação ao nível de algumas unidades hoteleiras mas também ao nível formativo de forma a cuidar-se da debilidade de algumas empresas do sector. Tem que se criar, à semelhança de um programa feito em Espanha no início de 2000, em que se atribuía um Q de qualidade a quem cumprisse uma série de requisitos demonstrando que tem uma certificação que permite estar no mercado e ser identificado como exercendo e cumprindo boas práticas na área do turismo.

Como o turismo pode contribuir para alavancar a economia do país?

Para crescer neste país, ao nível da oferta de emprego, o caminho são as exportações e o turismo, que tem um efeito multiplicador no emprego muito grande. A tutela tem a noção disso. Agora tem que haver uma proposta criativa e única para o turismo nacional, actuando de uma forma muito forte incisiva e diferenciadora, sobretudo na web 2.0. Tenho defendido a necessidade de se criar um Conselho Interministerial para o Turismo. Porque os sectores que são ‘clusters’, essenciais à nossa sociedade, não podem ser penalizados, têm de ter um guarda-chuva que lhes permita sobreviver e sobretudo gerar ‘cash-flow’ para se modernizarem permanentemente. Fico satisfeito que, mesmo não tendo um Ministro do Turismo, o actual SET conseguiu sensibilizar o Ministro da Economia para a oportunidade da criação da Comissão de orientação estratégica para o turismo. É o primeiro passo para o reconhecimento do Turismo como motor de relançamento da economia.

Leia a entrevista na íntegra na edição 258 da Ambitur.

Pedro Chenrim