A sustentabilidade no turismo deixou definitivamente de ser um adjetivo aspiracional. Tornou-se uma exigência estrutural, regulatória, social e ética. Num setor que representa uma das maiores indústrias globais, a discussão já não se limita à redução de impactos ambientais, mas abrange governação, direitos humanos, inovação tecnológica, coesão territorial, cultura e bem-estar.
É neste contexto multifacetado que a Fundação INATEL tem vindo a consolidar uma estratégia transversal, integrando certificação internacional, valorização do território, inovação aberta, promoção cultural e turismo social. Foi com a missão de abordarmos algumas dimensões da sustentabilidade no turismo que se integram no ecossistema INATEL que falámos com personalidades e organizações com as quais a Fundação INATEL tem uma forte ligação. O objetivo foi reunir dimensões diferentes capazes de confirmar a imagem da INATEL enquanto operador turístico e gestor de uma rede de hotéis que acompanha as tendências de evolução com as parcerias que estabelece a este nível as práticas que desenvolve diariamente.
Certificação como transformação estrutural

A distinção da Fundação INATEL como Travelife Partner marca um momento relevante no seu percurso enquanto operador turístico. O sistema Travelife, gerido pela ABTA – The Travel Association no Reino Unido e pela ECEAT Projects nos Países Baixos, é hoje uma das referências internacionais na certificação de operadores e agências de viagens.
Para Paulo Brehm, Country Manager da Travelife Portugal, a importância da certificação reside no facto de obrigar a uma transformação estrutural: “O impacto mede-se pela transformação que introduzimos na gestão das empresas, sustentada por metas concretas, indicadores monitorizados e verificação externa independente.”
Não se trata, sublinha, de “um projeto pontual nem de uma campanha isolada”, mas de um sistema de gestão contínuo. As organizações certificadas são obrigadas a medir consumos, definir metas de redução, rever critérios de seleção de fornecedores, implementar políticas de direitos humanos e monitorizar resultados.
No caso da INATEL, o reconhecimento enquanto Travelife Partner significa o cumprimento de mais de 100 critérios relacionados com gestão interna, cadeia de valor, parceiros internacionais e informação ao cliente. O referencial integra princípios da ISO 26000 — Responsabilidade Social Corporativa — abrangendo ambiente, biodiversidade, relações laborais e direitos humanos.
Paulo Brehm destaca ainda o “efeito multiplicador” das certificações: “Quando um operador certificado exige padrões mínimos aos seus parceiros, gera impacto para além da sua própria estrutura.”
Num tecido empresarial maioritariamente composto por pequenas empresas, este efeito é particularmente relevante. A sustentabilidade deixa de ser um departamento e passa a ser cultura organizacional.
Sobre o risco de greenwashing, Paulo Brehm é claro: “A credibilidade constrói-se com evidência. O impacto não está apenas no selo. Está na exigência que ele impõe.” Reconhecendo que o enquadramento legal europeu poderia ter avançado mais depressa, o responsável da Travelife acredita ainda que o sentido da evolução é claro e que “as empresas terão cada vez mais de comprovar aquilo que comunicam”.
A posição da INATEL enquanto operador certificado reforça precisamente essa lógica de evidência e transparência.
Do sistema à prática: Green Key nos hotéis
Se a Travelife estrutura a dimensão estratégica do operador turístico, o programa Green Key incide diretamente na operação hoteleira. Coordenado em Portugal pela ABAAE – Associação Bandeira Azul de Ambiente e Educação, o Green Key promove critérios obrigatórios de gestão ambiental e responsabilidade social.

José Archer, presidente da ABAAE, sublinha que muitas unidades já desenvolvem boas práticas isoladas, mas o programa impõe uma abordagem integrada: “O Green Key apoia os estabelecimentos a organizar uma estratégia e definir pontos de melhoria no seu desempenho ambiental e social.”
A monitorização inclui redução de consumos de recursos, aquisição de produtos sustentáveis, formação de colaboradores e sensibilização de hóspedes. Um dos elementos diferenciadores é o forte foco na educação ambiental.
Atualmente, a INATEL possui 10 hotéis certificados com o selo Green Key. Esta presença ganha ainda maior significado quando se considera que dois terços das unidades certificadas em Portugal se concentram nas regiões de maior procura turística (Região de Lisboa, Algarve, Área Metropolitana do Porto e Madeira). E a verdade é que o objetivo do Green Key é “reduzir o impacto negativo das unidades na comunidade envolvente e, acima de tudo, criar um impacto positivo e duradouro. Quando o turismo está fortemente concentrado em determinados destinos, este desafio torna-se ainda mais relevante”, admite José Archer. A atuação da INATEL em territórios do interior contribui, assim, para uma descentralização efetiva.
O responsável alerta, contudo, para um desafio contemporâneo: a pressão do mercado para acelerar certificações pode comprometer a consolidação estrutural das práticas. Isto porque as unidades poderão tender “a acelerar o processo de implementação dos critérios, nem sempre garantindo o tempo necessário para consolidar práticas de forma estruturada e consistente e a consciência plena na mudança de comportamento que isso implica”.
Território e ciência: o Geopark Estrela
Na Serra da Estrela, a sustentabilidade assume uma dimensão científica e territorial. Emanuel Castro, coordenador executivo do Geopark Estrela, explica que os Geoparks mundiais da UNESCO assentam em três pilares fundamentais: geoconservação, educação e turismo. “Acreditamos que a educação é a melhor estratégia de geoconservação”, indica.

A monitorização do impacto turístico é feita através de imagens aéreas por drone no Planalto Superior e da instalação de 15 contadores em locais de interesse geológico. Estes mecanismos permitem avaliar capacidade de carga e definir medidas de preservação.
O responsável refere que “a classificação UNESCO é reconhecida internacionalmente como uma marca de qualidade, pelo que os territórios detentores desta «marca» vêm a sua atratividade turística aumentar de forma significativa”. Parceira do Geopark desde 2020, a INATEL articula as suas unidades de Manteigas, Vila Ruiva e Linhares da Beira com programas de turismo de natureza estruturados. Esta integração reforça um modelo onde hospitalidade, ciência e desenvolvimento local caminham juntos.
O Geopark trabalha ainda em rede com instituições, empresas, escolas e produtores locais através da marca GEOfood , promovendo cadeias de valor regionais — uma lógica que encontra eco na oferta gastronómica e cultural da INATEL.
Biodiversidade e envolvimento comunitário: BioLagoa

Na Lagoa de Óbidos, o projeto BioLagoa demonstra como a sustentabilidade pode ser construída a partir da monitorização científica e da educação ambiental. Liliana Ferreira, presidente da direção da Associação PATO, explica que o acompanhamento anual das aves aquáticas permite identificar espécies e zonas sensíveis, orientando práticas responsáveis de observação.
A responsável não tem dúvidas de que este projeto contribui para a criação de um modelo de turismo sustentável centrado na conservação da natureza. Envolvendo escolas e comunidade em ações de sensibilização, promove-se “uma consciência ambiental coletiva, incentivando práticas turísticas responsáveis e o respeito pelos ecossistemas da lagoa”. E, acrescenta, esta abordagem valoriza o território como destino de natureza, dando a conhecer a diversidade de aves presentes ao mesmo tempo que sensibiliza e educa para a sua conservação.
Mas há desafios num projeto desta natureza: financiamento estável e manutenção do interesse público. As parcerias com entidades públicas e operadores turísticos são fundamentais para garantir continuidade.
A INATEL participa através do hotel da Foz do Arelho e no desenvolvimento de programas de turismo de natureza, integrando conhecimento científico na experiência do visitante.
Inovação como acelerador de sustentabilidade
A sustentabilidade também se constrói com tecnologia. O Nova SBE Haddad Entrepreneurship Institute, através do programa Check-In, liga startups a empresas turísticas para codesenvolver soluções inovadoras.

Maria Eugénia Mascarenhas, Associate Director, explica que a sustentabilidade é abordada de forma integrada, cruzando impacto ambiental, social e económico. Exemplos como a noytrall, que desenvolveu uma solução orientada para a medição e gestão da pegada carbónica, e a Savearth, que está focada na promoção de práticas ambientais mais responsáveis, demonstram como a gestão de dados pode reduzir emissões e otimizar recursos.
A inteligência artificial surge como ferramenta de eficiência e humanização, libertando profissionais para tarefas de maior valor relacional. “Através da automação e do uso inteligente de dados, torna-se possível otimizar operações, antecipar fluxos turísticos, apoiar o planeamento territorial e reduzir desperdícios”, explica a responsável.
Parceira do programa, a INATEL testa soluções em contexto real, assumindo-se como laboratório vivo de inovação sustentável.
Turismo e bem-estar: a dimensão social
Se a sustentabilidade ambiental e a inovação tecnológica estruturam o futuro do setor, a dimensão social recorda-nos que o turismo, antes de ser indústria, é experiência humana. É nesta perspetiva que intervém Anya Diekmann, professora de Turismo na Universidade Livre de Bruxelas e coordenadora do grupo “Alliance & Research” da ISTO – Organização Internacional de Turismo Social.

Para a ISTO, falar de sustentabilidade social no turismo implica considerar todos os atores envolvidos: residentes, trabalhadores, visitantes, decisores políticos e operadores. “Todos devem trabalhar em conjunto para um bem maior.” A sustentabilidade não se esgota na eficiência energética ou na redução de emissões; envolve qualidade de vida, trabalho digno, inclusão e coesão social.
Na visão de Anya Diekmann, o turismo pode — e deve — ir além do lazer. “O turismo torna-se muito mais significativo quando é encarado não apenas como fuga, mas como caminho para o bem-estar global.” E a investigação científica tem demonstrado impactos positivos do turismo no bem-estar físico e mental. Mais ainda: estudos indicam que, após uma viagem, os custos médicos podem reduzir-se temporariamente, representando até poupanças para os sistemas de saúde. Não se trata de luxo, mas de direito social.
Mas transformar o turismo numa ferramenta efetiva de bem-estar exige escolhas conscientes. Implica atenção às comunidades locais — inclusive aos residentes que não estão diretamente envolvidos na atividade turística — e equilíbrio entre objetivos económicos e bem-estar coletivo.
Alguns modelos turísticos geram receita, mas podem comprometer benefícios físicos, emocionais e sociais tanto para residentes como para visitantes. A responsabilidade recai sobre os stakeholders: criar experiências significativas e não superficiais, envolver as comunidades na conceção das ofertas, assegurar partilha equitativa de benefícios, promover trabalho digno e intercâmbio cultural genuíno.
Há ainda uma dimensão crítica: a gestão do impacto dos visitantes. Proteger recursos naturais e culturais sem impedir o acesso responsável é um dos maiores desafios do setor.
A Fundação INATEL, pela sua própria génese enquanto instituição de turismo social, posiciona-se nesta discussão. A democratização do acesso ao lazer, que esteve na origem da Fundação, encontra hoje ressonância nas reflexões da ISTO sobre o turismo como direito e como instrumento de coesão social.
Cultura como pilar de autenticidade
Diogo Infante, diretor artístico do Teatro da Trindade INATEL, introduz a dimensão cultural: “A arte humaniza o olhar e desperta a capacidade de escuta.” Para o artista, a promoção da cultura e das artes pode sim construir um turismo mais consciente e responsável, conduzindo a uma compreensão mais profunda dos territórios e das identidades das comunidades. Aliás, diz, “através da fruição cultural, podemos educar o visitante: questionam-se práticas, desigualdades e heranças históricas, e incentivam-se comportamentos mais conscientes e mais éticos”.

A programação do Teatro da Trindade INATEL, um projeto já em vigor há oito anos, demonstra precisamente que a cultura pode ser motor de turismo doméstico e instrumento de democratização. Trata-se de “um teatro de repertório, que reflete as grandes questões da atualidade, capaz de chegar a um público diversificado e de várias gerações, e que tem funcionado simultaneamente como um motor de turismo”, esclarece Diogo Infante.
E os resultados têm sido muito positivos, com um aumento exponencial do público, que não se cinge ao concelho de Lisboa mas que vem de todo o país. ”A cultura tem esta força singular: cria motivos para viajar dentro do próprio país, aproxima comunidades e democratiza o acesso à fruição artística”, resume. A descentralização através de digressões nacionais, de norte a sul e ilhas, reforça o acesso cultural e estimula fluxos internos. “Quando os eventos culturais chegam a diferentes regiões e se desenham iniciativas acessíveis a públicos variados, o turismo deixa de ser privilégio de alguns e transforma-se num direito cultural para todos”, sublinha Diogo Infante.
Para o responsável, a INATEL tem tudo um papel fundamental na promoção de um turismo sustentável e responsável em Portugal e adianta que, no futuro, esta missão pode ser ainda mais determinante: “Num mundo que enfrenta desafios ambientais e desigualdades sociais persistentes, a Inatel pode promover um novo paradigma de turismo, mais humano e mais consciente”.
Música e gastronomia: identidade viva e experiência autêntica
Se a cultura institucional encontra expressão na programação artística do Teatro da Trindade INATEL, a dimensão identitária da sustentabilidade cultural ganha outra voz através de Paulo Furtado, músico e criador conhecido internacionalmente pelo seu alterego The Legendary Tigerman. O artista olha para a música e para a gastronomia como pilares estruturantes da identidade de um território.

E lembra que Portugal é, historicamente, um território de mestiçagem cultural: “Sempre senti que Portugal, pela sua localização e história, é um enorme melting pot cultural. O próprio fado é uma prova viva dessa mestiçagem.” Na sua perspetiva, essa capacidade constitui uma das maiores riquezas culturais do país. “A música, a cultura, a gastronomia e até a paisagem estão interligadas, viajam e influenciam-se. Criam sons e sabores que se tornam característicos de cada região”, frisa.
Esta leitura encaixa de forma direta na estratégia da INATEL, que tem vindo a integrar programas onde a experiência gastronómica e musical não é mero complemento, mas parte essencial da imersão cultural — seja através de roteiros associados a festividades tradicionais, seja na valorização da gastronomia regional nas unidades hoteleiras.
Para Paulo Furtado, essa riqueza exige responsabilidade: “É importante a existência de um turismo saudável e controlado, adaptado às possibilidades do país e dos seus habitantes.”
A massificação turística e a globalização de hábitos alimentares e musicais colocam desafios à autenticidade. Mas o músico acredita que a singularidade reside precisamente na diferença. Portugal, acrescenta, possui uma riqueza geográfica, artística e gastronómica que supera largamente a sua dimensão territorial.
Esta perspetiva reforça uma ideia transversal ao ecossistema INATEL: a sustentabilidade cultural não se resume à preservação passiva. Exige vivência contextualizada, respeito pelo território e equilíbrio entre procura e capacidade local.
Ao integrar música, gastronomia e tradição nos seus programas de viagens e na sua oferta hoteleira, a Fundação INATEL contribui para que a experiência turística seja autêntica, territorializada e geradora de valor para as comunidades. Ao reunir certificação internacional, práticas ambientais concretas, ciência territorial, inovação tecnológica, promoção cultural e bem-estar social, a Fundação INATEL constrói um modelo integrado de sustentabilidade.
Por Inês Gromicho, publicado na edição 357 da Ambitur.





















































