Um problema que Portugal já não pode ignorar
Por Rodrigo Borges de Freitas, Diretor Geral de Operações da Vila Petra e Delegado da ADHP Algarve
Estamos no final de maio e os problemas persistem. Aquilo que foi apresentado como uma necessária modernização do controlo de fronteiras transformou-se, no Aeroporto de Faro, num problema operacional sério, com consequências diretas para a imagem externa do Algarve e para a estabilidade da principal atividade económica da região.
O Sistema de Entrada e Saída da União Europeia, EES, prossegue um objetivo legítimo, reforçar a segurança das fronteiras externas do espaço Schengen através do registo biométrico de cidadãos de países terceiros. Nunca esteve em causa o princípio. O que está em causa é a capacidade de execução. E, no caso do Aeroporto de Faro, essa execução está manifestamente aquém do exigível.
Os impactos do Brexit produzem efeitos operacionais concretos desde janeiro de 2021. Estamos em 2026. Portugal teve tempo suficiente para preparar infraestruturas, ajustar procedimentos, reforçar recursos humanos e adaptar a capacidade operacional dos seus principais pontos de entrada. O que hoje se verifica no Aeroporto de Faro já não pode continuar a ser justificado com argumentos de transição, ajustamentos técnicos, falhas de software ou dificuldades de arranque.
Temos a obrigação institucional e política de fazer muito melhor do que aquilo que atualmente apresentamos à entrada de Portugal.
As filas prolongadas e os tempos de espera excessivos deixaram de ser episódios isolados. Tornaram-se recorrentes e são diariamente reportados por passageiros, operadores turísticos, hoteleiros e profissionais do setor. Muitos dos turistas provenientes do Reino Unido, um dos principais mercados emissores para o Algarve, chegam ao país confrontados com uma experiência desorganizada, demorada e operacionalmente desadequada.
Os hoteleiros e os agentes turísticos estão legitimamente preocupados. E essa preocupação deve ser levada extremamente a sério.
No turismo, a primeira impressão tem um peso determinante. Um visitante que permanece horas numa fila antes sequer de abandonar o aeroporto inicia a sua estadia com uma perceção negativa do destino. E essa perceção, num ambiente digital altamente exposto, é rapidamente amplificada através de redes sociais, plataformas de avaliação e canais informais de recomendação com impacto direto na decisão de futuros visitantes.
Cada fila desnecessária no Aeroporto de Faro representa um dano reputacional para o Algarve.
O mais preocupante é que esta realidade era inteiramente previsível. O Aeroporto de Faro opera há décadas sob fortes picos sazonais e com uma elevada dependência de mercados extracomunitários, em particular do mercado britânico. Esta configuração operacional não é nova, nem desconhecida. É estrutural. Não antecipar o impacto do EES nestas circunstâncias não corresponde apenas a um erro técnico, corresponde a uma falha de planeamento operacional e estratégico.
E persistir nessa falha depois de os seus efeitos serem evidentes é ainda mais grave.
Existe também uma dimensão operacional que não pode continuar a ser ignorada. A afetação de recursos da PSP a um sistema que continua a demonstrar incapacidade de resposta adequada está a retirar meios necessários ao policiamento de proximidade, à prevenção e à segurança efetiva dos principais destinos turísticos nacionais. A perceção de segurança constrói-se através de presença operacional eficiente e visível no território, não através de filas biométricas intermináveis à entrada do país.
Importa, por isso, ser absolutamente claro. Não defendo menor exigência no controlo fronteiriço. Defendo, sim, que segurança sem eficiência operacional se transforma inevitavelmente em burocracia disfuncional. E a burocracia disfuncional tem consequências económicas concretas, afasta turistas, penaliza empresas e fragiliza a competitividade da economia regional.
O Governo português não pode continuar numa posição de passividade perante uma situação que ameaça diretamente a competitividade turística do Algarve. É urgente defender junto das instituições europeias uma solução transitória, uma aplicação mais flexível do sistema ou, se necessário, uma suspensão temporária da sua implementação plena no Aeroporto de Faro até estarem reunidas condições operacionais adequadas.
Não considero aceitável que o país assista passivamente ao desgaste da imagem de Portugal, e em particular do Algarve nos principais mercados turísticos internacionais.
O turismo algarvio não vive de indicadores abstratos. Vive da confiança de milhões de visitantes que escolhem a região todos os anos. E essa confiança perde-se sempre mais depressa do que se recupera.
Se nada for corrigido rapidamente, o verão de 2026 corre o risco de ficar marcado não pela qualidade do destino, pela hospitalidade ou pela excelência da oferta turística, mas pelas filas à chegada ao Aeroporto de Faro.
As imagens falam por si. E se nada for feito, estaremos perante um fracasso operacional, político e estratégico que Portugal não se pode permitir.
O Governo dispõe de uma janela de decisão cada vez mais estreita. Cada semana de inação representa mais desgaste, mais prejuízo reputacional e mais dano acumulado para a economia regional.
O momento de agir é agora.




















































