Opinião de Nuno Tomaz: E depois da crise?

Opinião de Nuno Tomaz: E depois da crise?

Categoria Advisor, Opinião

Por Nuno Tomaz, diretor comercial Grupo GEA

“O Turismo pós-Covid19: Uma provável realidade

O coronavírus irá mudar a forma como viajamos entre países e quais os transportes que escolhemos? Como nos alojamos num empreendimento hoteleiro? Como desfrutamos de uma refeição num restaurante? Como visitamos um museu ou um monumento famoso de um destino turístico? Como esperamos numa fila? À guisa de conclusão, como vamos à praia ou mesmo como vamos marcar as nossas férias? São questões pertinentes actualmente, mas impensáveis há cerca de 3 meses e meio atrás.

Tentemos pensar um pouco fora da caixa. Este choque que apanhou de surpresa a humanidade vai inequivocamente obrigar-nos a fazer mudanças de fundo. E no turismo em particular. Olhando para a frieza dos números, com a travagem brusca da economia, milhões de trabalhadores do sector do Turismo e das viagens estão agora sem trabalho e no desemprego. Mas, no entanto, e à medida que as estratégias levadas a cabo pelos governos dos países um pouco por todo o mundo começam a produzir efeitos positivos, mitigando o surto pandémico, regista-se por parte dos players do sector um sentimento de esperança de retorno à estaca zero do passado pré-pandémico. Mas esta ainda ténue luz ao fundo do túnel que se vislumbra, leva-nos a pensar que, apesar das “lesões” e “baixas” empresariais e algumas mudanças ao nível essencialmente sanitário que têm que ser necessariamente feitas nas empresas, mercê da ainda presente ameaça do vírus, não é observável ainda uma mudança notória nas mentalidades nas empresas, salvaguardando-se as sempre existentes excepções, para encarar um novo futuro, fazendo-nos partir do pressuposto que a grande maioria dos players acreditam que tudo irá ser como dantes. Portanto, sem quaisquer mudanças aos modelos existentes de negócio, apesar dos profundos “estragos” económicos que a depressão resultante desta pandemia inaudita veio e vai continuar a provocar. Perante esta nova conjuntura trazida por este surto viral, o futuro já começou a ser construído, e quem ainda assim continuar a pensar, com os olhos postos no passado, ou se desengana ou não passará da condição de cadáver adiado, passe a expressão.

O passado tal como era será impensável daqui em diante, teremos que o aceitar. Porque este choque psicológico global e totalmente inesperado poderá influir de tal forma na indústria, que as viagens e o turismo no período pré-coronavírus pura e simplesmente não funcionarão ou serão impensáveis num mundo pós-coronavirus. Este vírus veio para ficar, não apenas nos problemas de saúde que veio, ainda continua, e vai certamente continuar a causar, mas sobretudo na tomada de consciência a que nos veio obrigar. E que vai impor doravante, designadamente nas mudanças profundas na forma de trabalhar dos profissionais e de como se vende turismo, e não apenas nas obrigações de ordem sanitária que vem impor nos espaços físicos das empresas. E, por inerência, pelo lado do consumidor, na forma como se compra turismo.

Aspectos positivos: pensemos no mundo. Caminhávamos rapidamente para o desastre ecológico à escala planetária. Quanto do mundo realmente selvagem e intocado há ainda para visitar no nosso planeta e que justifique despender uma soma razoável? Será que as praias de sonho que vimos na brochura ou na fotografia da internet são mesmo tão maravilhosas e límpidas como as tínhamos observado? E a qualidade do ar é boa? E as instalações sanitárias são limpas? A verdade é que o capitalismo imparável e a globalização desenfreados vinham democratizando enormemente o turismo, fazendo-o entrar numa espiral de quebra de qualidade a nível geral, na proporcionalidade inversa da quantidade, da massificação. Resultado: o vírus Sars-Cov-2 veio fazer um “knock-out técnico” e global que nos trouxe até à conjuntura actual. E que veio fazer soar o despertador para a realidade de que todos os intervenientes do cenário económico, na sua esmagadora maioria, se abstinham de observar e assimilar.

Um simples exemplo sintomático do que se passa(va) a nível global com o turismo que serve como mote para reflexão: O Museu do Louvre e a Mona Lisa. É uma autêntica maratona para se entrar no Museu, esperar na fila, entrar pela pirâmide e chegar à ala Denon onde se encontra a famosa obra prima. Outra maratona para conseguir ver de perto o quadro, quando se tem essa sorte, porque na maior parte das vezes, quando muito vê-se de longe, por cima de muitas cabeças. Isto para o turista dizer que viu a famosa pintura durante uns quantos segundos ou parcos minutos, enquanto os seguranças do museu asseguram a rápida circulação dos visitantes para não estrangular a circulação do número infindável de visitantes. Concluindo, é este o tipo de turismo que de verdade queremos fazer? E nós, profissionais, é esta a realidade que queremos apresentar ao nosso cliente quando a expectativa deste último é completamente inversa? Poderíamos falar de outros recursos/atracções por esse mundo fora e encontraríamos o mesmo problema: Angkor Wat, as Pirâmides de Gizé, a Grande Muralha, Machu Pichu, etc., etc., ad nauseum.

Natureza, silêncio e solidão são alguns dos últimos luxos remanescentes no mundo. Este coronavírus veio alertar-nos para a importância deles. Fugir às massas, encontrar equilíbrio na natureza, mergulhar na alegria de novos lugares e partilhar belezas e maravilhas com a família – estas são algumas muito boas razões, entre outras, que justificam o porquê das pessoas viajarem. Aproveitando aqui esta linha de pensamento para fazer um pequeno parêntesis e falar do nosso pequeno (mas muito Grande) Portugal: estamos repletos de lugares que nos oferecem tudo isto. E muito mais!

Lamentavelmente, não era assim que se estava a viajar, a fazer turismo, falando em termos gerais. A massificação do turismo reduziu a espécie humana à condição de um número. O destino que o viajante espera encontrar com gastronomia local está pejado de cadeias de fast-food internacionais, os ecossistemas e as faunas locais em muitos casos destruídos, o artesanato local substituído por bugigangas de plástico “made anywhere else” (in China), o paraíso que esperaríamos encontrar não existe, de facto. Ou existe, em raríssimas excepções, exclusivas para um número muito limitado de pessoas com poder aquisitivo para lá do horizonte da maioria do comum dos mortais.

O Turismo é maravilhoso porque nos mostra a magia do mundo. Um turismo bem estruturado permite abrir as mentes e ajuda a rejeitar o preconceito e a respeitar as outras culturas. Elimina as fronteiras e os limites criados artificialmente pelo homem, e liga as diferentes nacionalidades pelo simples traço comum da humanidade. Mostra-nos, por outro lado, a realidade de um planeta em perigo. A pegada ecológica humana tem deixado marcas indeléveis no planeta. E o turismo tem dado um contributo muito assinalável nesse contexto.

O primeiro passo para resolver um problema é reconhecer que ele existe. Esta pandemia pode, portanto, vir a ser um bom ponto de reconhecimento dos problemas que têm vindo a afectar o sector, e tornar-se o ponto de partida para resolver os mais frequentes, como o excesso de desenvolvimento e o excesso de turismo, a destruição ambiental, o aumento dos níveis de poluição, a destruição da vida selvagem, entre outros. O negócio das viagens e do turismo deve usar esta pausa para encarar as suas realidades menos boas, sejam elas os excessos na indústria de cruzeiros com a construção imparável de maiores navios, da hotelaria com a construção desenfreada de hotéis, muitas vezes sem um planeamento territorial adequado, e por vezes provocando desastres ambientais, quando por exemplo se dinamita um recife de coral na Polinésia ou nas Maldivas para construir mais um hotel/resort com bungalows sobre a água. Ou na própria aviação comercial, com a construção imparável de aviões, em muitos casos usados pelas companhias para servir rotas de procura baixa ou praticamente nula.

A indústria das viagens e turismo, primeiro e antes de tudo, tem que deitar por terra o lema “quanto mais, melhor”. Compare-se, por exemplo, a Riviera Maya nas Caraíbas dos anos 90 com os dias de hoje: outrora natureza no estado mais puro com um número equilibrado de resorts vs. uma actualidade em que a linha de costa está pejada de inúmeros e enormes resorts. Lançar navios de cruzeiros cada vez maiores não trará aquele toque nostálgico das Caraíbas de outrora. Ou aquele charme único das ilhas gregas. Transformar um destino numa identidade corporativa acaba com a sua autenticidade e afasta as populações locais.

E o futuro? Definir padrões para práticas justas devem ser estabelecidos e reforçados. Devagar, o mundo está a recomeçar a movimentar-se, as fronteiras começarão brevemente a abrir-se. Ter em mente que o passado, baseado num turismo global de massas, assentava em graves déficits. Devemos pensar, sobretudo nós, os do sector, não em “recuperar” a indústria tal como ela era, mas sim trabalhar numa transição para um turismo verdadeiramente sustentável a todos os níveis. Será essencialmente neste aspecto que residirá o equilíbrio.

Temos agora a oportunidade de transformar esta indústria usando critérios claros de sustentabilidade, e assumir uma atitude humilde para que, aplicando as nossas melhores práticas e técnicas, as possamos combinar com outras de sucesso aplicadas noutros países e culturas. Teremos, mais que nunca, que aproveitar as energias renováveis, para poupar o nosso precioso planeta. Igualmente, a força laboral tem que ser tratada adequadamente para que, por sua vez, assimile uma cultura de serviço tão necessária à captação e fidelização do consumidor. Factor indispensável em qualquer sector de serviços, em que negócios são fechados no contacto entre pessoas.

Acima de tudo, os profissionais de turismo e os viajantes têm que tomar melhores decisões. A pandemia de coronavírus veio trazer a lume muitos dos aspectos negativos do sector. As viagens e o turismo têm que aceitar o seu papel nas alterações climáticas, no impacto económico global, na preservação do meio ambiente, na conservação da vida selvagem e na justiça social. Temos que criar um mundo conectado de forma sustentável ou, em alternativa, não teremos um turismo com um futuro muito brilhante. Será apenas mais do mesmo e impõe-se a questão: será isso que desejamos para as gerações futuras?

Não será presunçoso afirmar que nunca na história da humanidade a nossa espécie esteve tão conectada e unida à volta de um denominador comum. E nunca tão isolada esteve como está agora, por todo o planeta. Iremos voltar a viajar sem dúvida, mas quando o fizermos, é nossa obrigação fazê-lo de forma adequada e correcta.”

* O autor escreve segundo a antiga ortografia

** A opinião foi solicitada por Ambitur.pt no âmbito de um conjunto de artigos que estamos a elaborar com empresários e responsáveis do setor sobre a atual situação que o país/mundo vive no âmbito da Covid-19.