Por Rita Marques, Programme Director Porto Business School
Durante anos, o turismo em Portugal viciou-se em números: mais hóspedes, mais dormidas, mais receitas. Crescer tornou-se um fim em si mesmo, quase um reflexo automático de sucesso. Mas há uma pergunta que continua por responder: estamos a evoluir exatamente para onde?
Não nos iludamos. Multiplicam-se os sinais de pressão: centros urbanos mais saturados, experiências cada vez mais padronizadas, comunidades locais a perder espaço e destinos cada vez mais expostos a choques externos, sejam eles económicos ou ambientais. Aquilo que durante anos foi apresentado como um modelo de sucesso começa a revelar traços de um modelo em risco.
É neste contexto que emerge um paradoxo difícil de ignorar. Estamos perante um dos setores mais digitalizados do mundo e, ainda assim, continuamos a decidir como se estivéssemos no século passado. Cada pesquisa online, cada reserva, cada deslocação e cada interação digital gera um rasto contínuo de dados. Nunca tivemos tanta informação disponível sobre quem nos visita, como se move, o que valoriza e como consome o território. E, no entanto, essa abundância raramente se traduz em inteligência estratégica.
É precisamente aqui que se joga o futuro do turismo. A transição para modelos de gestão baseados em dados não é apenas uma evolução tecnológica, é uma mudança estrutural na forma como se governa o setor. É a passagem de uma lógica reativa para uma lógica antecipatória. É a capacidade de compreender o território em tempo real, antecipar padrões de procura, gerir fluxos com critério e avaliar impactos com rigor.
Felizmente, começam a surgir sinais positivos em Portugal. Projetos como o FAROL, o sistema de monitorização inteligente nos Açores ou o desenvolvimento do Centro de Inteligência Turística no Porto e Norte apontam para uma nova geração de instrumentos de governação. Demonstram que é possível integrar dados dispersos, produzir conhecimento acionável e apoiar decisões mais qualificadas.
Mas é essencial não confundir meios com fins. Tecnologia não resolve falta de ambição estratégica. E dados, por si só, não garantem melhores decisões. O verdadeiro desafio está na capacidade de usar essa inteligência para fazer escolhas difíceis. Sim, porque crescer com valor implica, inevitavelmente, escolher. Implica questionar o status quo e reconhecer limites. Implica aceitar que nem toda a procura deve ser captada e que nem todo o crescimento é desejável. Significa, por vezes, dizer não: não à pressão excessiva sobre territórios saturados, não à banalização da experiência turística, não à erosão da qualidade de vida das comunidades locais. Significa também dizer sim: sim à qualificação da oferta, sim à diversificação territorial, sim à atração de segmentos com maior valor acrescentado e sim à integração entre turismo, cultura e inovação.
De facto, o verdadeiro risco não é crescer menos. É crescer mal. É persistir num modelo que esgota recursos e fragiliza territórios. E é, acima de tudo, perder a oportunidade de reposicionar Portugal como um destino que não compete pela escala, mas pela inteligência e pela qualidade da sua proposta. E é assim que, mesmo sem a tão aguardada Estratégia 2030 do turismo, prometida pelo governo há muito, podemos evoluir.
*Este artigo foi publicado na edição 358 da Ambitur.




















































