Opinião: “Turismo: Confiança. Ação”

by Inês Gromicho | 15 Abril 2019 10:58

Por Vítor Neto, empresário e ex-secretário de Estado do Turismo

Temos todas as razões para ter confiança no futuro do Turismo em Portugal. Mas também temos de ter consciência de que são muitos os obstáculos e que vai ser preciso trabalhar muito e com inteligência. O Turismo tem vindo a crescer ao longo das últimas décadas, confirmando-se como uma atividade consistente em termos estruturais e como um dos setores mais importantes da nossa economia. VAB, PIB, empresas, emprego.

Os números finais de 2018 confirmam o Turismo como o principal setor exportador de Bens e Serviços de Portugal (16,6 mil milhões de euros, 18,6% do total), com um crescimento de 1,5 mil milhões (9,6%) em relação a 2017. Em 2018 o saldo da Balança do Turismo confirma-se como o principal contributo (11 ,9 mil milhões) para o saldo positivo da Balança de Bens e Serviços de Portugal. Sendo que o saldo da Balança só de Bens é negativo (14,7 mil milhões).

O Turismo é uma realidade consistente. Portugal é reconhecido como um destino turístico de qualidade, ocupando uma boa posição nos principais rankings. É positivo, mas não chega. Temos de nos preparar para o futuro.

Como responder aos desafios
Começando por se ter consciência do novo contexto internacional. Por um lado, já estamos na presença de um
quadro global de desaceleração do crescimento económico, desde logo na Europa. que vai ter consequências no consumo, nas viagens. Por outro, temos a instabilidade nos principais mercados europeus emissores de turistas, a começar pelo Reino Unido, com a desvalorização da libra e o seu imprevisível Brexit, mas também noutros países. Ao mesmo tempo importa refletir sobre efeitos reais que já são visíveis.

Em 2018, Portugal registou quebras de turistas europeus, não só de britânicos, mas também de alemães, franceses, holandeses, italianos e polacos (menos 1,2 milhões de dormidas, das quais 700 mil de britânicos). Pouco se falou. Destas quebras europeias, meio milhão foram compensadas por dormidas de turistas dos EUA (310 mil) e do Brasil (190 mil). Disfarçou. Dos mercados relevantes da Europa só cresceram as dormidas de Espanha (80 mil), em benefício do Algarve (45 mil) e do Norte (35 mil).

Uma nota: em termos de quebras o Algarve foi a região mais atingida, mas não foi a única. Nos ganhos, por exemplo, quem mais beneficiou com o aumento dos turistas provenientes dos EUA, foi Lisboa. Nos aumentos de espanhóis foram Algarve e Porto/Norte. E Lisboa, principal destino de turistas espanhóis, perdeu 32 mil dormidas.

Estamos, portanto, perante um quadro mais complexo do que muitas vezes pode parecer por afirmações superficiais, que dificultam uma análise objetiva da realidade.

Que fazer
Primeiro. Importa ter uma visão objetiva do quadro global do Turismo (Mundo/Europa/ Portugal) e a perceção das suas dinâmicas e atuação dos concorrentes, que nos permita definir uma Estratégia correta e que não se
limite a fixar metas propagandísticas (mais turistas, mais receitas, mais interior, menos sazonalidade). Que só resultam em quanto se cresce.

Segundo. Importa ter estratégias mais objetivas e rigorosas para as diferentes realidades regionais. Que são mesmo diferentes. Lisboa, Algarve, Porto são realidades diferentes de produto/oferta, de procura/estada. Madeira também. Alentejo, Açores, Centro ainda mais. No entanto «soma-se tudo» para engordar os
números, escamoteando pesos relativos. O risco desta atitude, para além da propaganda política do «melhor ano de sempre», é de criar ilusões, fazer apostas políticas incorretas e levar empresários a errar investimentos.

Cada Região tem de ir mais a fundo nas suas análises e no rigor das estratégias. As instituições centrais têm o dever de acompanhar e apoiar.

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