Portugal na rota do turismo de compras (fotogaleria)

Portugal na rota do turismo de compras (fotogaleria)

O turismo de qualidade e shopping é hoje um fenómeno em ascensão em algumas das principais capitais europeias. E também Portugal tem razões para sorrir. Lisboa começa a estar na rota dos destinos mais atrativos para fazer compras e onde os viajantes chegam para viver experiências diferenciadoras.

Só no ano passado, o país recebeu mais de 20 milhões de turistas a gastarem cerca de 15.100 milhões de euros em compras, gastos que ajudam a equilibrar as contas do país. Estes dados são da Global Blue e foram anunciados por João Vasconcelos, presidente do comité organizador da 1ª edição do Shopping Tourism & Economy Summit, um colóquio que decorreu recentemente em Lisboa e juntou os setores público e privado para definirem estratégias para os próximos anos.

A mesma informação revela que, numa altura em que a atividade turística não demonstra sinais de abrandamento, “Portugal foi o país europeu que mais cresceu em tax free shopping durante 2017”, tendo registado um aumento de 36%, destaca o responsável. Os turistas extracomunitários foram os que mais contribuíram para esta subida expressiva.

Num tom marcadamente positivo, o ministro da Economia, Manuel Caldeira Cabral, exaltou o sucesso pelo qual o setor se tem pautado nos últimos anos. “O turismo em Portugal vive um momento de sucesso. Em 2017, as receitas turísticas cresceram 19,5%, um crescimento recorde”, destacou para introduzir o anúncio do lançamento da e-Tax Free. A ferramenta estará disponível para todos os portugueses a partir do dia 1 de julho de 2018.

Por sua vez, também na ocasião, Gloria Guerava Manzo, presidente & CEO do World Travel & Tourism Council, aproveitou para constatar o bom ambiente que se vive na relação entre o setor público e privado, reconhecendo-o como essencial para a “excelente performance do país” nesta atividade.

Cidades portuguesas preparam-se para novo segmento
A dinâmica do turismo de compras tem captado um novo perfil de turista que chega às nossas cidades. Isso mesmo fez com que Fernando Medina, presidente da Câmara Municipal de Lisboa, tenha definido que “a capital portuguesa deve funcionar como polo de atração para captar investimento” de privados.

Para que isso aconteça, o líder do executivo municipal considera essencial “cuidar dos acessos à cidade de Lisboa”. Aumentar a capacidade aeroportuária ao mesmo tempo que se trata da construção ou renovação de “elementos centrais” do destino são também prioridades.

Mais a norte, na cidade do Porto, a estratégia segue a mesma linha, porém, com o comércio no centro de todas as atenções. Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, chega mesmo a afirmar que entende que “uma cidade deve ser vendida como um produto”.

Novos segmentos, novas experiências
Da cultura à gastronomia, é sabido que para nos mantermos neste estado de graça que vivemos, o turismo deve apostar cada vez mais nas experiências que promove. Esta é, pelo menos, a convicção de Álvaro Covões, empresário e managing partner da Everything is New, que durante a sua intervenção refletiu sobre o contributo dos festivais de música para o turismo nacional. “Não vamos continuar a crescer se não aumentarmos os conteúdos”, sustenta

E se este é um dos segmentos que tem merecido destaque nos últimos anos, o mesmo acontece com a gastronomia portuguesa, fator diferenciador de Portugal e que tem levado a imagem do país além-fronteiras. Isso mesmo reconhece José Avillez, chef de cozinha e empresário, que nem mesmo após a abertura do seu 14.º restaurante duvida do potencial de Portugal como destino gastronómico de eleição. Para isso, refere, “é necessário comunicar melhor e preservar a cultura, a tradição gastronómica e a hospitalidade que nos distingue”.

‘Boom’ turístico “é passageiro”
O fantasma da crise económica poderá voltar a pairar sobre o setor mais cedo do que se julga. O CEO do André Jordan Group, Gilberto Jordan, teorizou sobre a hipótese deste boom turístico em Portugal tratar-se de “uma moda”, insistindo que este fenómeno “é passageiro”. E, como tal, faz questão de afirmar que “temos de preparar-nos para o pós moda”.

Pedro Rebelo de Sousa, sócio e fundador da SRS Advogados, lançou a mesma provocação. “Vivemos um ciclo virtuoso”, disse, alertando para “o perigo de nos deslumbrarmos” com os resultados do crescimento turístico nacional, muito acima dos esperados. “Este é um momento irrepetível”, reconhece Pedro Rebelo de Sousa, que insiste na ideia de que “podemos perder uma oportunidade” se não fizermos o esforço de “tentar equacionar de forma estratégica esta mudança do paradigma turístico”.

Outro dos pontos fortes da intervenção de Pedro Rebelo de Sousa surgiu quando o advogado admitiu existir “um divórcio muito grande” entre a forte procura do mercado e a oferta disponível. Foi lembrado pelo fundador da SRS Advogados que, embora queiramos ser um destino de qualidade, “não há um único espetáculo traduzido para os turistas”.

“Onde é que está o bom centro comercial com produtos de alta gama portuguesa?”, questionou-se, mostrando-se convicto de que “este é o momento de olhar para aspetos que sejam geradores de riqueza”. Pedro Rebelo de Sousa lançou um último repto: “Temos de aproveitar este momento para olhar para as nossas vantagens competitivas com pragmatismo”.

Poucos terão sido, porém, os países que recuperaram tão bem de uma crise económica como Portugal. José Theotónio, CEO do Pestana Hotel Group, lembrou com um sorriso que, embora ainda não consigamos garantir tarifas médias semelhantes às de outras cidades europeias, “Lisboa e o Porto têm melhorado muito a qualidade da oferta”.

O responsável deixou também no ar que não está alheio à “excessiva concentração nalguns locais mais procurados pelos turistas”. José Theotónio considera que já deveriam estar a ser discutidas “estratégias de ordenamento que permitam inverter essa situação e, com isso, melhorar a oferta do destino”.

“É altura de separar o trigo do joio”
José Theotónio defendeu que, “se o alojamento local não existisse, Lisboa e o Porto não conseguiriam responder à procura que têm tido”. “O alojamento local também é para destinos que querem ser cosmopolitas”, sustentou, apetrechando-os de negócio. O CEO do Pestana Hotel Group sublinhou, no entanto, que neste momento “em que as coisas correm bem e que chega para todos, é altura de separar o trigo do joio”.

Num setor onde Portugal quer manter-se competitivo, também a presidente do Portugal Hotels & Hospitality Group, Karina Simões, defende que “qualquer destino turístico tem de ser capaz de dar resposta a todos os segmentos”. “O Airbnb, conforme provou noutras capitais, é uma ótima solução”, reforça.

Descubra as diferenças
Sobre as questões imobiliárias, Karina Simões não tem dúvidas de que o país falha na distinção entre a oferta hoteleira. “Temos o ‘super luxo’ e o ‘novo luxo’, muito associado aos millennials [nascidos entre 1980 e 1995], que não procuram tanto as estrelas, mas algo confortável, com acesso à Internet”, disse.

“É nestas duas grandes tendências internacionais ao nível da hotelaria que estamos a falhar em Portugal”, reforçou. Karina Simões deu ainda conta de que a oferta hoteleira nacional começa a dar sinais de estar “muito concentrada nos quatro e cinco estrelas, sem diferenciação”. No lado oposto, lembra que “o luxo e o três estrelas superior não dão resposta ao lifestyle e às tendências de procura dos millennials“.

 

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Ricardo Ramos Gonçalves com Rita Rebelo / Este artigo foi publicado na edição 310 da Ambitur.