“Temos de ter a humildade de aceitar que é sempre possível fazer melhor”

“Temos de ter a humildade de aceitar que é sempre possível fazer melhor”

Esta é a segunda parte da Grande Entrevista a Eduardo Jesus, publicada na Edição 329 da Ambitur. Aqui ficamos a conhecer um pouco o trajeto profissional do secretário Regional do Turismo e Cultura da Madeira.

Como se cruza a sua vida com a atividade turística?
A minha vida esteve sempre ligada ao meio empresarial, e relacionada através da consultoria com muitos projetos ligados ao turismo. Desde muito cedo, e comecei na atividade profissional em 1992, tive sempre projetos turísticos e clientes ligados à área do turismo. Foi quando tive a felicidade de presidir à Ordem dos Economistas na Madeira que desenvolvi muitos projetos relacionados com o turismo, a atividade rainha da economia regional. Nessa altura realizámos a Conferência Anual de Turismo, que se veio a revelar um Fórum extremamente oportuno.

Não tendo iniciado a minha vida profissional na área turística tive desde muito cedo um contato com o turismo. Além disso é uma atividade de que pessoalmente gosto muito, não só pelo facto de ter tido oportunidade de viajar regularmente desde criança, por opção dos meus pais que todos os anos faziam questão de ir a um país diferente. Isso deu-me uma abertura e um gosto especial pelo turismo compreendendo depois a dimensão que ele tem para a atividade regional. O gosto depois apurou-se e profissionalizou-se e foi de uma forma muito simples que isso aconteceu.

O que é servir a causa pública? Do que um político não se deve esquecer?
Não se deve esquecer que é uma grande responsabilidade e que servir a causa pública é estar ao serviço do interesse dos outros e de um interesse coletivo. É um grande compromisso. Quando se assume o desafio de querer servir uma causa pública significa desprender-nos dos nossos interesses pessoais e colocarmo-nos ao serviço de uma coletividade. Neste caso, numa região, tem a ver com um projeto que está relacionado com um território, com um conceito autonómico que é conquistado e reafirmado dia-a-dia. Mas acima de tudo tem que ver com uma responsabilidade, não se gere um território fechando um território. Só se cresce com abertura, olhando para fora, vivenciando outras realidades, e é esse exercício de governação que nos é colocado com esta pasta.

Ao longo da sua carreira que experiência mais o marcou?
Eu vivo tudo com bastante intensidade. Mas, sem dúvida alguma, que este que estamos a viver é talvez o mais especial. As pessoas do turismo desenvolvem um software no seu hardware para captar simpatias, trazer pessoas, vender o turismo, para mostrar como isto aqui é apelativo e agradável, e nós neste período de confinamento tivemos que fazer o contrário. Tivemos que criar as melhores condições para fazer voltar a casa aqueles que cá estavam de férias, fazendo ver que esta é uma terra que acolhe bem até numa saída, para que venham a escolher a Madeira mais tarde. Talvez esta situação marque o momento mais diferente, mais especial, apesar de ainda estarmos metidos no “olho do furacão”. Talvez este seja o maior desafio da minha vida, conjuntamente com o facto de relançar o destino no momento em que ele está a zeros. Temos a perfeita consciência que desde o princípio de abril até agora saíram mais pessoas da Madeira do que aquelas que entraram.

Provavelmente o maior desafio é ter vivido numa conjuntura como aquela em que batemos todos e mais alguns recordes, com o maior ano de sempre do turismo da história da Madeira em 2017, e estar numa outra conjuntura completamente diferente agora.

É ambicioso? Qual a sua definição de ambição?
Acima de tudo temos de ter a humildade de aceitar que é sempre possível fazer melhor. Nunca nada do que fazemos é perfeito. Só existe uma coisa perfeita que é a imperfeição e nisso a imperfeição é perfeita. O estado de espírito da ambição deve ser este, nunca termos as coisas com um dado adquirido pois aquilo que temos hoje já não é amanhã. Aliás esta circunstância da Covid-19 demonstra isso perfeitamente bem. A ambição deve ser algo que nos deve nortear neste estado de espírito que é podermos sempre fazer melhor.

Tem tempo para ser turista na Madeira?
Eu desfruto da Madeira em coisas muito simples. Tive uma experiência única, nesta fase em que estávamos todos confinados, apesar do recolhimento obrigatório. Vinha trabalhar todos os dias. Deslocava-me muito frequentemente entre a Secretaria Regional e a Presidência do Governo, ou a Secretaria e a vice-presidência do Governo, com quem tínhamos reuniões diárias, e uma das experiências que tive e que não me esqueço é ouvir os meus passos na calçada. O silêncio era tal que no meu gabinete, que é num segundo andar, passei a ouvir os pássaros e já os conhecia quase de forma diferenciada dependendo da hora do dia. Essa foi uma experiência de um silêncio diferente, que a Madeira tem para oferecer mas não neste ambiente cosmopolita da cidade, mas junto à sua natureza, quer seja ela na montanha ou no mar. Nessa altura consegui presenciar isso dentro do Funchal. Esta deve ser a sensação mais marcante que eu levo do período de confinamento.

Gozo facilmente da Madeira como turista ou residente-turista, quando dou um mergulho no mar ou quando desfruto de um passeio no meu dia-a-dia, e faço isso com alguma regularidade. São momentos de alguma inspiração que nos fazem bem porque o contacto com a natureza regenera.

O que o Eduardo Jesus tentou dar ao turismo e cultura da Madeira em virtude das funções que desempenhou e desempenha, e o que sente que recebeu em troca?
O que tentei dar tem a ver com uma perspetiva muito coletiva que tenho das coisas. Recordo-me que ainda antes de entrar pela primeira vez para o Governo, em 2015, tinha trabalhado muito sobre o turismo e tinha algumas ideias que nos pareciam muito certas. Aplicámo-las e correram muito bem, ao nível de uma clarificação relativamente à promoção distinta do que é o produto ou a animação. Quando elegemos que toda a promoção ficaria concentrada na Associação de Promoção, sendo ali concentrado todo o orçamento e responsabilidade da promoção, foi uma decisão acertadíssima. Para além da profissionalização que se ganhou, os resultados foram por demais evidentes.

O facto de cuidarmos do produto no âmbito da Direção Regional do Turismo onde as questões do smart, da sustentabilidade e agora do safe são tomadas de uma forma muito intrínseca, também nos permitiu ganhar muito. Foi uma questão de arrumar a organização e acreditar em princípios de gestão que já praticávamos na nossa vida privada e trazê-los para este ambiente. Entendo que houve uma aposta muito ganha no sentido de que a Madeira apostava numa comunicação muito alicerçada no mar e na montanha; nós trouxemos um terceiro pilar, a cultura. Este trazer a cultura para a nossa comunicação e para a nossa oferta turística tem uma particularidade que é estarmos a humanizar o destino, a trazer os hábitos, as tradições, aquilo que é fundamentalmente nosso.

A distinção dos vários destinos turísticos deve-se dar de uma forma muito fiel. Não podemos defraudar as expectativas daqueles que convencemos a cá virem com aquilo que cá encontram. A nossa comunicação tem de ser muito séria, muito realista e a cultura presta esse serviço. A cultura é muito nossa, é o que nos distingue dos demais, não é que a nossa cultura seja melhor ou pior, é diferente, e é este aspeto da diferença que se promove na comunicação. É impensável importar conceitos para um destino. O que é especial é podermos oferecer aquilo que é autenticamente nosso. Esta é uma das coisas que foi bem aprofundada e que se ganhou muito com isso. Ainda há duas semanas tivemos reuniões entre a Direção Regional Cultura, Direção Regional do Turismo e Associação de Promoção Turística a estudar o potencial de cada oferta cultural, no que diz respeito à comunicação e no que diz respeito à experiência que as pessoas podem ter no território. É esta fusão entre dimensões que faz todo o sentido e que nos pode ajudar a fazer a diferença. Esta talvez tenha sido uma das conquistas que me torna mais satisfeito.

Quem é Eduardo Jesus?
Eduardo Jesus nasceu a 18 de abril de 1969, no Funchal, irmão do meio de três filhos rapazes. A infância foi passada na Madeira mas, como a mãe era de origem brasileira (São Paulo), as férias de verão levavam a família muito frequentemente até ao outro continente. Durante não menos de dois meses viajavam pelo Brasil e pela América Latina, com uma “agenda” preenchida de amigos para rever. O gostinho por viajar terá nascido aí.

Da infância as recordações são as melhores, sempre rodeado de familiares – o pai é o mais velho de 11 filhos o que garantia uma grande família – e de amigos dos pais que aproveitavam para vir conhecer a Madeira. Foi uma vivência onde a hospitalidade era um elemento central, com a família de Eduardo a ciceronear os amigos por toda a ilha e passeios turísticos que o levaram a conhecer a sua ilha como ninguém.

Decidiu formar-se na área de economia no 10º ano, apesar de gostar muito de engenharias e arquitetura. Mudou-se então para Lisboa aos 17 anos, para se formar em Gestão de Empresas pelo ISCTE, e esteve na capital durante cinco anos . Não hesita em afirmar que esta foi uma fase de grande crescimento e a “verdadeira recruta da minha vida”. Mas acabou por regressar à Madeira pois tinha o desejo de dar continuidade à empresa fundada pelo pai.

Nos tempos livros, são os carros antigos que mais chamam por ele, gostando não só de os restaurar como de os aproveitar em curtos passeios de fim-de-semana pela ilha.

 

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Esta entrevista foi publicada na edição 329 da Ambitur.