Tourism Talks: Indústria de cruzeiros tem de estar “preparada para perder dinheiro”

Tourism Talks: Indústria de cruzeiros tem de estar “preparada para perder dinheiro”

Categoria Business, Transportes

A crescer a dois dígitos todos os anos, a indústria dos cruzeiros poderá ser o mais danificado dos “subsetores” do turismo. Fala-se em retoma e recuperação, mas o timing para a indústria de cruzeiros será o mais difícil de se prever. Resta questionar: Como é que os cruzeiros darão a volta a este cenário?

Francisco Teixeira, diretor geral da Melair, começa por contextualizar que a indústria de cruzeiros já lida com as “questões de higiene há muito tempo”. No entanto, desta vez, ficou mais “exposta” devido à “rejeição do Japão em não aceitar o desembarque dos cruzeiros: aquilo que era um número pequeno de passageiros infetados gerou uma multiplicação”. O responsável falava na segunda edição das “Tourism Talks”, promovidas na passada sexta-feira pela Message in a Bottle.

Para Francisco Teixeira, as companhias de cruzeiros estão conscientes que têm de garantir um “bom programa”, assegurando a confiança do consumidor. “Há companhias asiáticas que já têm discutido publicamente medidas até porque o mercado de cruzeiros na China já tem alguma dimensão”, afiança. A medição de temperatura nos embarques e desembarques ou a higienização de espaços regularmente frequentados ou de cada tripulante a cada duas horas são algumas das medidas mencionadas pelo responsável. Neste sentido, a “imagem que é criada” em torno dos cruzeiros não é um problema: “São empresas musculadas que trabalham de forma global com recursos humanos, capacitados ao nível da higiene, operação ou marketing, capazes de conseguir encontrar planos de forma a conquistar o consumidor”. É certo que “levará o seu tempo” até porque fala-se de um produto onde o convívio social é feito em “grande escala”, reforça.

Taxa de ocupação terá de ir forçosamente para patamares muito reduzidos
As previsões do responsável são de que 2022 e 2023 serão anos de maior estabilidade. No entanto, e porque a indústria de cruzeiros centra-se em vendas antecipadas, o responsável afirma que “estamos preparados para vender 2021” mas, “eventualmente, com taxas de ocupação muito baixas”. A retoma da atividade é uma das preocupações de Francisco Teixeira, referindo que está condicionada por vários fatores: “A abertura dos portos, se as cidades vão autorizar navios, quanto tempo é que um navio irá demorar a fazer uma escala ou quais as ligações aéreas que vão existir entre os mercados emissores e de embarque”. Além disso, trata-se de uma indústria que trabalha a 114% de ocupação: “Como é que vai lidar com a distância social?”, questiona o responsável, evidenciando que “forçosamente terá de ir para patamares de taxas de ocupação” muito mais reduzidos, do qual o “modelo de negócio não é apropriado”: estão em causa os “preços de vendas, custos da construção de um navio ou de operação”, entre outros. O “pilar central do negócio” é a relação que será feita entre a taxa de ocupação e o preço médio: “Não prevejo que um cruzeiro possa custar mais 60% e manter níveis de taxa de ocupação suficientemente necessárias para a indústria”, afirma.

A reentrada no mercado é uma questão que também preocupa o diretor-geral da Melair Cruzeiros: “Distribuímos 95% das nossas vendas pelas agências de viagens portuguesas”. Uma vez que assumem o papel de “interlocutor”, Francisco Teixeira questiona de que forma a mensagem chegará aos clientes: “Como é que vamos transmitir as medidas de segurança das companhias e como é que vamos conseguir conquistar a nível de comunicação a confiança do consumidor?”. Na distribuição, a relação que existe com o consumidor é de “venda pura. Não há diálogo sobre o produto”, cabendo assim ao agente de viagem estar “preparado ao nível do conhecimento das medidas da indústria e das necessidades do cliente”, atenta o responsável.

Relativamente à rentabilidade da operação, o diretor-geral da Melair Cruzeiros afirma que a indústria está consciente de que a “retoma será muito complexa”. Só após o surgimento da vacina é que a atividade poderá “retomar a condições normais”, refere, evidenciando que as “empresas, até lá, têm de estar preparadas para perder dinheiro”. O responsável acredita que a “retoma inicial da atividade” e o processo de “garantir a sobrevivência terão de ser feitas em simultâneo”, referindo, contudo, que nesta fase “ainda não há respostas”.

Cristiana Macedo