Vê Portugal: “Não pretendemos que o Interior seja apenas uma ‘sala de visitas’ das grandes cidades”

Vê Portugal: “Não pretendemos que o Interior seja apenas uma ‘sala de visitas’ das grandes cidades”

“Turismo no Interior do País – Ativos diferenciadores” foi um dos temas propostos pelo Turismo Centro de Portugal no VI Fórum Turismo Interno que aconteceu entre os dias 21 e 22 de maio, em Castelo Branco.

Num painel para pôr à discussão estes “ativos diferenciadores”, moderado pelo diretor do jornal “Expresso”, João Vieira Pereira, a primeira questão foi sobre a região: “O que se pode esperar do Interior?”.

“Temos oferta turística diferenciadora e consolidada no Litoral e uma oferta em vias de consolidação no Interior”, inicia João Paulo Catarino, realçando a “solidariedade” que existe para com as regiões menos desenvolvidas. O secretário de Estado da Valorização do Interior dá o exemplo do Turismo de Portugal com o programa “Valorizar” que é uma “alavanca para a oferta turística: quem visita o Porto e Lisboa pode percorrer outros locais e conhecer aquilo que há para oferecer no Interior”, acrescenta. A “autenticidade do povo lusitano” está no Interior, seja na gastronomia ou na paisagem. Mas, “o Interior precisa do Litoral para se afirmar” e “o Litoral precisa do Interior para oferecer uma diferenciação efetiva”.

O responsável considera indispensável a criação de rotas e roteiros que, na sua ótica, são a “única forma de estruturar o turismo no Interior. É preciso fazer mais e precisamos de intensificar esta oferta. Não pretendemos que o Interior seja apenas uma ‘sala de visitas’ das grandes cidades”, sustenta João Paulo Catarino. Para isso, é necessário “criar mais incentivos aos turistas” de modo a que a sua visita traga “retorno económico. As pessoas que estão aqui não são meros figurantes do turista de Lisboa”, até porque a “qualidade de preço/atendimento, a gastronomia” e toda “esta autenticidade onde a oferta é, realmente, variada do resto do país” marca pela diferença. “Depois de visitar, o turista volta”, salienta.

Quem parece concordar com a mesma visão é Ana Abrunhosa. A presidente da Comissão de Coordenação e Desenvolvimento Regional do Centro realça que a “diferenciação” passa pelo turista “sentir-se em casa e em família” quando visita o Interior. “Os recursos endógenos são a prova de que, quem vem, quer vivenciar o que só existe cá”, refere. Contudo, “não basta termos os ativos” diferenciadores: é necessário “transformá-los em produtos turísticos” porque, só assim, “vamos transmitir a tal experiência”, refere.

Ainda sobre “ativos diferenciadores”, o presidente da Câmara Municipal de Seia, Carlos Filipe Camelo, apontou a  “mudança de mentalidades” que, atualmente, acontece nas autarquias, deixando a ideia de que se devem “quebrar as barreiras e fronteiras”. Os ativos diferenciadores são também ativos “não transacionáveis. Daqui ninguém os leva e quem quer usufruir tem de se deslocar até cá”, sustenta o também presidente da Comunidade Intermunicipal Beiras e Serra da Estrela. Assim, o caminho passa pela “valorização” de marcas territoriais “únicas” que conferem a “tal notoriedade e singularidade” aos territórios do Interior, não esquecendo o “funcionamento em rede”, ou seja, “criar realidades mais diferenciadoras em termos de ativos atraindo pessoas aos territórios e gerando riqueza para a economia”.

É preciso “trabalhar em rede”

O trabalho em rede foi amplamente referido neste painel com João Paulo Catarino a insistir no assunto. O responsável considera que o país se tem desenvolvido de forma muito “curiosa” no que toca às infraestruturas e à coesão territorial.

Indo ao encontro da necessidade de criação de roteiros e rotas, o secretário de Estado da Valorização do Interior considera que as rotas do enoturismo são “fundamentais” mas que os incêndios florestais (na época de verão) “acabam por criar uma má imagem” e “desvalorizam um ativo do interior que é a paisagem”. A criação deste tipo de rotas depara-se com outro problema: os apoios por via de Fundos Comunitários. “Na transição de um quadro para o outro temos de esperar mais dois anos para voltar a ter apoio”, sublinha o responsável. É certo que os apoios dados aos investidores que apostam no Interior são mais “vantajosos” do que aqueles que são dados aos que investem no Litoral. No entanto, “acaba-se por se perder o fio condutor e o trabalho que já está feito”. A solução: é necessário “trabalhar em rede colaborativa com as parcerias”, sustenta o secretário de Estado.

Um ponto de partida do como poderá ser trabalhada uma rede colaborativa está no lançamento da “criação vitivinícola da Rota Interior”. Segundo Rodolfo Baldaia de Queirós, esta Rota, que usa um “recurso endógeno” da região, abarcará 20 concelhos, promovendo todo o território e não apenas o vinho. Segundo o presidente da Comissão Vitivinícola Regional da Beira Interior, de quem partiu a ideia, a rota envolverá “vários agentes” locais e nacionais, de forma a “criar e gerar riqueza” para que a “população futura tenha condições para permanecer na região. Não queremos que seja mais uma rota, mas sim que seja «A»” rota”, sublinha.

Cristiana Macedo, em Castelo Branco