António Valle é o novo diretor geral do Turismo de Lisboa e esteve à conversa com a Ambitur, no seu escritório do número 23 da Rua do Arsenal. Preparado para este primeiro mandato, garante que a missão é afirmar Lisboa como capital europeia do mundo, apostando sempre na autenticidade.
Quais as prioridades principais de atuação para os próximos três anos do Turismo de Lisboa numa ótica de consolidar Lisboa como destino turístico global?
A área metropolitana de Lisboa vive com Lisboa como motor e as prioridades, passam por uma reafirmação na Europa, mas como componente mundial. Ou seja, hoje Lisboa não é só uma capital europeia. Lisboa é, cada vez mais, uma capital europeia de dimensão mundial.
O que os dados nos têm indicado é que tem havido um crescimento sustentável. Aquilo que se espera para 2026 é ainda um crescimento, mas um decréscimo nesse crescimento. Há quem lhe chama até planalto para 2026. E aí aparecem as oportunidades para Lisboa, que estão na sua reafirmação internacional. E, nessa reafirmação, as prioridades passam, objetivamente, pelo reconhecimento de Lisboa. O que é diferente de conhecimento; Lisboa é uma cidade conhecida a nível internacional. Queremos agora ser reconhecidos internacional e mundialmente, e em mercados qualificados.
Esses mercados qualificados obedecem a uma linha muito factual e pragmática de querermos os melhores turistas em Lisboa e na área metropolitana. Que criem valor à cidade, valor à área metropolitana. Não abdico da linha concreta, que também os dados nos indicam, que turismo é emprego. Essa é a base da estratégia que espero vir a implementar ao longo deste mandato. Turismo é emprego. O turismo tem uma componente social e tem uma componente que é o eixo estratégico. Se quisermos falar em prioridades, outra será a cultura. Portanto, os três eixos de prioridade – a área social, emprego e cultura – são fundamentais para a reafirmação de Lisboa no mundo. É aí que fazemos a nossa grande diferenciação.
O que eu sinto é que, muitas vezes, há mais orgulho internacional na cidade e na sua área metropolitana do que orgulho nacional. Devemos estar muito orgulhosos do trajeto que a área metropolitana de Lisboa fez na promoção do próprio país lá fora. É um orgulho.
E como se pode alterar essa postura?
Uma das coisas que queríamos muito valorizar e trazer para esta base de implementação é o facto de haver esta discussão da identidade e de como reafirmamos Lisboa. Essa reafirmação passa pela identidade. O que é a identidade? A identidade é a cultura da nossa cidade. Lisboa não perde identidade por receber visitantes. Antes pelo contrário. Lisboa perde identidade se deixar de investir na cultura. Nós queremos investir muito na cultura. O investimento na cultura é um investimento de posicionamento internacional da cidade.
As festas de Lisboa, por exemplo, no mês de junho. Lisboa tem aqui uma oportunidade inacreditável de trabalhar muito a promoção deste produto único no mundo. As marchas de Lisboa não estão ultrapassadas, são algo muito atual.
Hoje fala-se muito, a nível mundial, da estratégia de turismo, da autenticidade. É na autenticidade que temos que apostar. Diria que as prioridades passam um bocadinho por esta mescla estratégica de posicionamento para a cidade e para a área metropolitana. Lisboa é uma cidade de oportunidades para criação de riqueza, novas empresas, tradição e inovação.
Como se pretende operacionalizar um conceito de um modelo estratégico que junta atratividade, sustentabilidade e também qualidade de vida?
Aí entramos naquilo que o turismo tem de fazer pela cidade e pela área metropolitana. Há áreas que estão identificadas. Temos o espaço público na cidade e na área metropolitana. Temos a questão da segurança. Temos a questão da limpeza. E temos aqui uma questão que, se calhar, poderemos falar mais à frente, pois essa sim é também uma oportunidade. Em cada obstáculo há uma oportunidade. E nós vamos ter vários obstáculos ao longo deste mandato, seguramente.
Um deles o aeroporto…
Podemos implementar as estratégias todas que quisermos, mas se não houver, e ao que parece, nas últimas semanas, julgo que o Governo e o próprio Secretário de Estado do Turismo, o Ministro da Economia e o Ministro das Infraestruturas estão empenhados em resolver, em ultrapassar esses obstáculos. Por exemplo, as alterações que foram feitas agora no Aeroporto de Lisboa são uma melhoria.
Mas, ao nível estratégico, temos novamente a questão social. Considero mesmo que temos duas linhas: ou olhamos para o dia-a-dia ou um bocadinho mais à frente. Esse problema social é a questão do emprego. Porque com menos turistas a virem para a área de Lisboa, vamos precisar de menos pessoas para trabalhar. Isso era algo que me preocupava e julgo que isso pode ser ultrapassado rapidamente.
A outra linha estratégica é a ideia do “repeat”. Hoje temos Lisboa como uma cidade de “city break” e a área metropolitana com vários produtos, como o surf, o golfe… Sintra é um produto incrível e julgo que com a nova liderança na Câmara Municipal do Presidente Marco Almeida, terá também ali um propósito muito claro em relação ao turismo. Cascais também é um eixo super atrativo. Temos a Arrábida. Portanto, na área metropolitana de Lisboa, e a nível internacional, temos um diamante que pode ainda ser muito mais explorado.
Por outro lado, aquilo que os dados nos indicam é que o aumento que tem surgido também a nível turístico tem-se visto a nível interno. A nível internacional, esse crescimento tem diminuído. Mas queremos voltar a colocar Lisboa nesse patamar de atratividade internacional.
Depois, o outro ponto que eu queria abordar é a questão da gestão do espaço público, a questão dos desequilíbrios do tecido económico urbano, a questão do licenciamento zero, que objetivamente tem de ser abolido. Até iremos apresentar uma proposta, o mais rapidamente possível, junto das entidades competentes. Não queremos acabar com o licenciamento zero simplesmente porque sim. Tem havido uma descaracterização em algumas áreas da cidade, isso vai contra aquilo que acabei de dizer sobre a valorização da autenticidade e da identidade da cidade e aquilo que nos diferencia internacionalmente, nomeadamente as nossas lojas com história, mas também numa expressão que eu considero muito feliz, que eu ouvi há poucos dias do Presidente da Câmara de Lisboa, o Engenheiro Carlos Moedas, as lojas com futuro. As lojas de souvenirs não são nem lojas com história, nem lojas com futuro.
O licenciamento zero tem que acabar integrado nestes dois eixos: a nossa promoção e a nossa diferenciação em relação às lojas com história, que são lojas que têm passado, têm presente e têm que ter futuro; e as lojas de futuro que trazem esta inovação que se alia com a tradição de Lisboa.
E há um ponto que nos preocupa muito em relação ao turismo, a questão da segurança. E aí a ATL quer fazer parte da solução. Queremos contribuir para uma política público-privada de turismo. E aí, objetivamente, a ATL tem que ter um papel a dizer e apresentar soluções. Uma delas é estarmos disponíveis para, também junto das forças de segurança, encontrar soluções a nível de espaços que reforcem as condições da atuação das forças de segurança, equipamentos que valorizem as próprias forças.
Quando aceita esta missão, que diagnóstico é que tem relativamente à pressão turística versus a opinião pública, qual o caminho para a diminuição de tensões neste campo?
Começava por fazer uma diferenciação grande em relação à sua pergunta. A tensão não é uma tensão entre a opinião pública e o turismo, é uma tensão entre certa opinião publicada, o que é diferente, e o turismo. Nós não temos turismo a mais. Nós temos é que ter uma melhor gestão de turismo. Não embarco na ideia da “turistificação”. O turismo não é o problema de Lisboa. Aliás, o turismo é parte essencial da solução de Lisboa.
Lisboa só é uma cidade viva porque é também uma cidade visitada. E aí afirmo a ideia da componente social do turismo. Hoje em Lisboa, as estimativas mais recentes da área metropolitana é que temos cerca de 300 mil pessoas que vivem direta ou indiretamente do emprego, e em Lisboa estima-se que cerca de 200 mil pessoas possam viver direta ou indiretamente do emprego nesta atividade.
Não embarco nessa ideia de que temos turistas a mais. Não, não temos. Temos sim que qualificar esse turismo. Aliás, comecei por dizer que Lisboa quer estar presente em mercados que criam valor. Queremos os melhores turistas para Lisboa. Queremos os turistas que investem na cidade. Queremos os turistas que deixam dinheiro na cidade. Queremos trazer pessoas que não venham só para o city break, que é uma oportunidade incrível, queremos pessoas que venham repetidamente a Lisboa. Esse é o desafio.
Esta é uma questão muito politizada?
É muito politizada. Mas admito uma coisa, e é um desafio que julgo que todo o setor pode ganhar com ele: temos de trabalhar a reputação do turismo.
A memória é muito curta. Há cinco anos, com a pandemia, estava a opinião publicada a gritar por mais turismo. Não venham com essa conversa que temos mais turismo. Pelo contrário, a nível internacional temos cada vez mais pessoas a elogiar a cidade, a elogiar a região de Lisboa. Este diamante que temos aqui, não é para ser explorado, é para ser promovido. E promovido… em termos qualitativos.
Não nos podemos esquecer que o turismo investe. Os resultados de termos gente a visitar-nos é financiamento na cultura. É financiamento no património. E é financiamento no espaço público. E enfatizo: financiamento na cultura.
Nos últimos anos, o Museu Tesouro Real foi feito com a taxa turística, por exemplo. A limpeza urbana, ainda que considere que tem que ser melhorada objetivamente, mas parte da taxa turística vai para a limpeza urbana da cidade. E portanto, sim, o turismo tem de contribuir para uma melhor qualidade de vida da cidade. Essa é a base para nos podermos apresentar lá fora com autenticidade, veracidade, cumplicidade e capacidade. São estas quatro palavras que nos devem definir.
O Turismo de Lisboa irá aprofundar a sua veia de requalificação da cidade?
Esse é um ponto que gostaria de salientar e que me deixa muito orgulhoso, enquanto Diretor-Geral da Associação de Turismo de Lisboa (ATL). É um trabalho incansável que a Associação tem feito e que tem agora um desafio grande, até meio de 2026, no âmbito do PRR. E isto vai ao encontro também da questão da requalificação da oferta.
A ATL hoje é responsável por requalificar entre 11 a 15 museus da cidade. É uma obra cultural, turística e social incrível. Estamos a requalificar o Palácio Nacional da Ajuda, o Panteão Nacional, o Mosteiro dos Jerónimos, o Museu Nacional de Arqueologia, o Museu Nacional de Arte Antiga, o Museu Nacional de Arte Contemporânea, Torre de Belém, o Museu dos Coches, o Museu Nacional dos Azulejos e o Museu Nacional do Teatro e da Dança.
Este é também um dos propósitos da ATL. É uma obrigação, diria, requalificar a oferta. E requalificar a oferta tem de ser uma oferta patrimonial e cultural.
A ATL tem de ter uma palavra a dizer na estratégia cultural da área metropolitana. Temos de ter um papel muito firme aí. E hoje o setor da cultura também estará aberto a essa parceria que espero fazer cada vez mais.
“Eu não venho para me instalar. Eu venho para fazer coisas. E quero fazer.”
Quem é António Valle e qual tem sido o seu percurso?
Nasci em Coimbra, vivo em Lisboa há 20 anos. Fiz um percurso na área mais privada. E há 14/15 anos fui acumulando também conhecimento na área das políticas públicas, nomeadamente na área do governo. Trabalhei com o anterior primeiro-ministro Pedro Passos Coelho. Tive uma experiência também nesta área de promoção do país na AICEP, em que trabalhei com Miguel Frasquilho quando foi presidente e terminei as minhas funções mais públicas, por assim dizer, a trabalhar com Carlos Moedas como chefe de gabinete.
Portanto, a sua formação é na área de…
A minha formação é na área da comunicação. Depois tirei uma especialização na área empresarial, no Porto. Este é um processo que não termina… adoro estudar. É sempre um processo contínuo de aprendizagem. Mas a última formação mais académica que tirei foi no ISCTE, em Lisboa, na área da ciência política.
E o que o fez interessar-se por esta área?
A política pública. Genuinamente, a nossa intervenção pública e privada deve ser para o bem comum. Eu acredito nisso. E o turismo, apesar de ter chegado recentemente, é uma área que eu sempre acompanhei, é uma peça essencial… Quando falamos de qualidade de vida, estamos a falar do bem comum. E o turismo pode ser esse bem comum. A capacidade de mudar a vida das pessoas. É isso que também me move. Sou um apaixonado por ajudar a mudar a vida das pessoas, a vida de cidades, a vida desta grande área metropolitana que é Lisboa.
Temos aqui uma oportunidade incrível para o fazer. Eu tive a sorte de chegar à ATL com um legado incrível, deixado por Vítor Costa. É um legado incrível e é um reconhecimento que a área metropolitana e a cidade de Lisboa lhe devem. Aliás, julgo que não é novidade, mas Carlos Moedas já revelou que quer homenagear Vítor Costa. Foram décadas a liderar a promoção da cidade. E o Vítor Costa fez aquilo que espero poder objetivamente continuar… esse legado, que é essa mudança de vida de uma cidade. Ele prestou um serviço à cidade e à área metropolitana. Ele mudou a vida de milhares de pessoas, objetivamente. E eu acho que essa é uma função que todos devemos ter.
Quando os hoteleiros constroem hotéis, estão a contribuir para a melhoria de vida das pessoas. Estão a criar emprego, estão a requalificar o espaço público, estão a promover o nosso país lá fora. Temos novos restaurantes que são cada vez mais referenciados lá fora. Tudo isso são valores práticos que podem contribuir para a mudança e para a qualidade de vida da cidade e do país. E o turismo é uma peça fundamental nisso.
Somos melhores que qualquer capital europeia. Isso tem que ser dito também, e com orgulho. Lisboa é uma referência mundial. Somos melhores que qualquer outro lá fora. Vamos mostrar-nos da melhor forma.
Este seu percurso, que até agora ainda foi maioritariamente privado, vai ajudá-lo nesta missão? O que é que o António Valle vai trazer de seu também aqui para este projeto?
Temos aqui este legado que já falei, de Vítor Costa, e é incrível o facto de ele ter deixou aqui tudo muito bem arrumado e uma linha muito bem definida. Mas eu sou uma pessoa diferente, não é? Sou uma pessoa diferente e tenho muita vontade de fazer. Eu não venho para me instalar. Eu venho para fazer coisas. E quero fazer.
Quero fazer com as pessoas do setor. Vamos criar na ATL alguns grupos de trabalho de proximidade para ouvir o setor, ouvir o setor privado, ouvir também o setor público. Queremos ter mais participação dos associados. Hoje a ATL tem mais de 900 associados. Queremos elevar essa participação e ter uma relação muito direta com cada um deles. Quero juntar equipas para conseguir projetar cada uma delas. Quero criar valor para este setor. Não estou aqui para criar valor individual…
Modéstia e à parte considero que tenho alguma capacidade de liderança e de concretizar. Estou à prova. Daqui a três anos poderemos fazer esse balanço.
É ambicioso?
Sou audacioso. Mais do que ambição, é preciso ter audácia. A audácia, julgo, é outro patamar. A audácia leva-nos a esta vontade de concretizar. A ambição é uma coisa desgastada. A audácia leva-nos à concretização. Eu quero concretizar. Fico muito frustrado quando não consigo concretizar. Espero que consiga ajudar. Há muitas concretizações aqui.
Taxa turística
Que desafios há aqui na taxa turística para o futuro relativamente à sua eficácia e aplicação de fundos? A taxa turística vai manter este modelo e remuneração?
A informação que tenho é que, para já, se mantém. O que eu defendo é que esse valor para o setor de turismo, ou seja, para a cidade, o valor que é transferido para o setor, deve aumentar. Não é aumentar a taxa turística. É aumentar a percentagem que afeta ao setor, o valor investido na cidade. Nós apresentamos projetos à Câmara e iremos apresentar mais projetos de forma a conseguirmos ir buscar mais financiamento para promover mais a área metropolitana e a cidade.
Como encarar a conectividade aérea e ferroviária de Lisboa no futuro? Como é que pode aqui a cidade evoluir com estas limitações?
São os custos da capitalidade. Há a questão do aeroporto. Na parte ferroviária também não temos uma ligação a Madrid, que tem que acontecer rapidamente. Julgo que tanto Lisboa, o atual presidente da Câmara, Carlos Moedas, o atual alcaide de Madrid e a própria presidente da região autónoma de Madrid, Isabel Ayuso, estão muito alinhados nessa matéria e o próprio governo já me pareceu que também que apostar. É fundamental para o desenvolvimento da região.
Na articulação com o setor, como pretende aprofundar a articulação com os vários parceiros?
Somos vice-presidentes da CTP e temos uma relação muito próxima com o doutor Francisco Calheiros. Tive a oportunidade também já de estar com o presidente do Turismo de Portugal, Carlos Abade, e o senhor secretário de Estado, Pedro Machado. Temos tudo para, em conjunto, desenvolvermos todas estas áreas que já abordámos. Há uma intenção de haver alguma alteração ao modelo da Lei 33. Não vejo que isso possa vir a prejudicar a área do Turismo de Portugal em Lisboa. Antes, pelo contrário.
Ao nível do MICE, quais os objetivos da cidade?
Lisboa está qualificada pela ICCA como número dois, ao nível de médios e grandes eventos, e queremos chegar ao número um, rapidamente. Isso vai ao encontro de toda esta estratégia inicial que vos falava, da qualificação do turismo e trazer mais valor, através de grandes congressos na cidade. Não desistimos dessa ambição, também o setor o exige, que é o novo centro de congressos. Mas temos já boas áreas, equipamentos que podemos aproveitar, se calhar requalificá-los também.
Por Inês Gromicho e Pedro Chenrim. Fotos de Raquel Wise




















































