Conhecer o que é o NEST – Centro de Inovação do Turismo e qual a sua missão foi o objetivo da Ambitur nesta entrevista a Roberto Antunes, diretor executivo desta entidade da qual o Turismo de Portugal é um dos oito sócios fundadores. O entrevistado não tem dúvidas de que Portugal está no bom caminho mas acredita que ainda tem de evoluir no apoio que dá às ideias, participando no risco inerente a inovar. Esta é a 2ª parte desta Grande Entrevista, que foi publicada na íntegra na edição 342 da Ambitur.
O que destacaria de mais impactante da atividade do NEST até hoje?

Os pilotos que decorreram e decorrem são oportunidades que seriam de algum modo difíceis sem um “empurrão” em termos de suporte de conhecimento, apoio de gestão, financiamento, conexão com algumas entidades, espaço, entre outros. Também as oportunidades de trabalhar sobre grandes imperativos na transição digital e ambiental, que estão a ser construídos com base em consórcios, necessárias para o acesso a uma série de regras e com os quais o NEST teve a conquista de dois Programas Cosme na UE, um Digital Innovation Hub, o único dedicado ao turismo dentro da UE e a única agenda focada em turismo no PRR. Estas são conquistas muito importantes. Para além disso atingimos uma proximidade com os empresários, através dos grandes eventos, seja na BTL (com 40 startups presentes) ou em outros de âmbito nacional, mas também internacionais, num esforço de dar oportunidade a todos os que queiram ganhar escala e se internacionalizar.
Uma proximidade no dia-a-dia com os temas que estão nos nossos webinares e redes sociais. Somos os primeiros a dar nota de novas possibilidades que existem ao nível da tecnologia, as soluções que surgem por parte dos inovadores e empreendedores, e que estão disponíveis para ter um impacto positivo nos negócios do turismo. Neste aspeto temos mais de 10 mil seguidores, que é um universo enorme para a escala que este setor tem. Mas também um impacto na sua capacitação através de formação e apoio a formação, que é feita em grande escala através do Turismo de Portugal, da Academia Digital, da qual o NEST é um parceiro através de conteúdos e de algumas das tecnologias ali aplicadas.
Há duas coisas, que pautaram o último ano: a internacionalização e criação de uma network e proximidade com o resto da Europa. O setor do turismo é muito parecido nestes países ao nível da sua constituição, muitas pequenas e médias empresas, havendo os mesmos desafios, sendo que esta oportunidade é muito importante para trocar experiências, para um entendimento do que são as melhores práticas. Esta participação em força em programas europeus é muito única, pois temos em Portugal pouca experiência de participação em consórcios europeus. Estes consórcios dos quais somos entidades constituintes e/ou coordenadoras, como o Digital Innovation Hub e agenda que entra no PRR, foram trabalhos que passaram por um processo que está a culminar, a aguardar a disponibilização das verbas para começar a operar, e esses sim vão ser o grande foco deste ano que se inicia, pois trazem uma grande possibilidade de mobilizar uma enorme transformação provinda da inovação neste curto espaço de tempo. Esta vai ser a nossa grande fonte de conhecimento e experiência a para disseminar no setor.
O que vos diferencia de uma associação tradicional?

Temos um enfoque no impacto, relevância e no retorno dos projetos que criamos ou aos quais nos associamos. Não procuramos financiamento para fazer coisas. Fazemos coisas que merecem ser financiadas. Recorremos a apoios de financiamento, tanto da UE como nacionais, assim como apelamos a parceiros, interessados e participantes, que estejam dispostos a ser financiadores desses programas. Aquilo que tipicamente nas associações se costuma procurar é quem pague quotas. Não é essa a nossa política. Queremos ter um grupo interessado, participante, motivado em querer ser também espaço para experimentação, muito mais qualitativo do que em massa. Os nossos fundadores e associados são uma mais-valia, para nós termos cada vez mais técnica e capacidade de irmos buscar recursos. Um associado para o NEST é alguém que tem interesse no nosso trabalho e está interessado em ajudar.
Como entram as startups e empresas tradicionais na vossa gestão?

Nós queremos desenvolver pilotos matéria que possa ser experimentada, melhorada e de seguida adotada pelo setor. Se correrem mal, analisar porque isso aconteceu, como fazer melhor. Do ponto de vista de transformação massiva necessitamos que todo o setor evolua, não só as startups. Logo este trabalho de inovação leva-nos a trabalhar com todas as tipologias de empresas, com programas muito específicos para startups, é verdade.
Por outro lado, também levar a cultura de inovação e capacitação disponível a todos aqueles que estão a liderar empresas, por mais tradicionais que sejam. Temos que trabalhar estes dois flancos. Há um esquema também muito interessante do ponto de vista de startups. O turismo em Portugal tem uma dinâmica e orquestração interessante e é referência a nível mundial. A inovação é despoletada com um funil que começa com o seu programa Fostering Innovation in Tourism, que mobiliza anualmente cerca de 500 empresários, startups com ideias que servem os propósitos do turismo, e tem na outra ponta um instrumento provido pela Portugal Ventures, de capitalização das melhores empresas em fase de pre-seed. Ora o NEST entra no meio, no sentido de fazer uma curadoria daqueles que têm um grande potencial, trabalhando com eles em experiências e pilotos e ajudando a acelerar esse processo que retratei como funil.
Sente-se uma mudança por parte das empresas na procura da inovação?

Sente-se um crescendo e cada vez mais a dinâmica da economia e os imperativos das políticas da sustentabilidade, impõem soluções cuja única resposta é investir na inovação. Novos produtos, serviços, novos processos ou utilização de novas ferramentas, E penso que estamos todos cientes agora de que a inovação mobiliza vantagens competitivas, como as tecnologias podem entregar serviços de níveis de qualidade superiores, informação com mais destaque, comunicação que chega mais próximo dos próprios clientes, níveis de lucratividade que são ambicionados por todos.
Houve um momento muito claro, na pandemia, que trouxe uma abertura nos benefícios que este caminho poderia trazer, no modo como a tecnologia poderia servir propósitos. As empresas mais inovadoras conseguiram melhores resultados e ser mais resilientes face a graves crises. A procura no turismo, evolui constantemente, com necessidade de respostas a estas questões de sustentabilidade, segurança, saúde. Todos os efeitos dos novos interesses da procura, trouxeram esta necessidade de fazer evoluir produtos e serviços turísticos.
Estamos no bom caminho…
Estamos no bom caminho. Senão seria impossível termos um turismo tão reconhecido internacionalmente e no qual recebemos pessoas de fora e que estão expostas a tudo, inclusive à digitalização nos seus países, elevados níveis de qualidade, padrões exigentes de serviço, e marketing bem feito. Estas não sairiam satisfeitas se não cumpríssemos a nossa parte com distinção. Nesse sentido, estou absolutamente tranquilo com o direcional.
Contudo, as exigências e transformações que nos são pedidas, do ponto de vista do próprio cliente mas também dos impactos que queremos que a sustentabilidade ambiental e social tenha, são de tal forma desafiadoras que, de facto, precisamos de puxar ainda mais pelas nossas capacidades.
Penso também, que em Portugal, comparativamente, somos uma sociedade que apesar de ser muito aberta ainda precisa de evoluir no espaço que dá à inovação e aos inovadores, no apoio que dá às ideias e participar no risco inerente a inovar, tanto numa fase inicial como numa fase avançada.
Há que massificar a cultura de inovação, não obstante os bons resultados. Podemos estar mais na vanguarda da utilização de tecnologias, no uso da inteligência e da ciência dos dados e de traduzir isso em valor agregado aos serviços e operações ou em novos produtos.
Um perfil…

Quem é Roberto Antunes?
Desafio-me como um curioso, que retira daquilo a que se dedica, do trabalho e da vida pessoal, tudo o que pode fazer de mim a minha melhor versão. Aprendo sempre algo com as boas e as más experiências, nunca as ignoro. Para mim, as experiências profissionais são para conhecer pessoas, para aprender com as diferenças, com outros pensamentos. E encontrei no turismo um espaço que me permite um crescimento pessoal, quer nas minhas competências mais das soft skills, quer naquelas que são mais de técnica de gestão generalista e inovação, que me interessam no meu crescimento profissional.
Qual o seu percurso profissional?
Começo na área do marketing, em multinacionais, o que me leva de Portugal ao resto do mundo, em funções de coordenação de negócios regionais, como por exemplo coordenação da inovação europeia, até coordenação global em bens de grande consumo, o que também me permitiu gerir negócios em locais como Itália, França,
Reino Unido e Brasil. De volta a Portugal ao fim de uma “tournée” de mais de 10 anos, consegui concretizar um sonho de longa data que era trabalhar no turismo. Tinha feito em 2005 uma pós-graduação em gestão de produtos turísticos na Escola Superior de Hotelaria e Turismo do Estoril, e sempre pensando que um dia trabalharia no turismo. Há três anos proporcionou-se esse desejo, com a criação do NEST, um centro de inovação, e assim houve uma conjugação muito interessante de vontades e cá estamos.
Por Pedro Chenrim; Fotos de Raquel Wise
Grande Entrevista I: “A grande missão é atuar sobre a inovação, facilitá-la e acelerá-la”

















































