O Alentejo é o destino do mês de junho na Ambitur.pt. Num roteiro de cinco dias pela região norte e centro deste vasto território, pudemos conhecer melhor as histórias e “estórias” de projetos, imóveis, centros interpretativos, lugares de “culto” aos vinhos e à boa gastronomia alentejanos, sempre contadas pelos próprios, por quem ali vive e melhor do que ninguém sabe do que está a falar.

O que junta Vasco da Gama, Vidigueira, romanos, João Gonçalves Zarco, uma talha de 1814, celtas, vinho, cartagineses, Vila de Frades, fenícios ou grainhas de uvas carbonizadas? Histórias… e que em alguns diferentes momentos confluíram na mesma região alentejana e que hoje podem ser apreendidas no Centro Interpretativo do Vinho de Talha, em Vila de Frades. O historiador Carlos Cristo acompanhou-nos neste percurso de milénios, numa infraestrutura recente, bem preparada tecnologicamente para os graúdos e mais novos, onde se mostra que a tradição do vinho de talha e da região andam de mãos dadas desde o tempo em que a história só já consegue ir baseada em vestígios, indícios ou lendas.
O nosso percurso pelo Centro Interpretativo do Vinho de Talha terá demorado mais de duas horas, mas algo mais ainda ficou para ver, por saber ou por contar. Assim, como, de forma generosa, declinamos o convite para uma prova de vinhos de talha, por a termos feito uma hora antes em outro local de Vila de Frades. O que significa que é uma visita agradável que dará para meio dia de entretenimento e aquisição de conhecimento. Apesar de todo o Centro de Interpretativo dialogar connosco através de imagens, sinalética, vídeos interativos, tablets interativos, o historiador Carlos Cristo acrescenta que as visitas são sempre guiadas, sendo um diferencial deste espaço. O Centro Interpretativo do Vinho de Talha abriu no dia 11 de novembro de 2020 as portas ao público, como espaço de interpretação, de difusão científica e tecnológica e de divulgação do património imaterial relacionado com o saber-fazer daquele produto ancestral. Refira-se que o 11 de Novembro é o dia tradicional de abertura das talhas onde o vinho do ano é produzido.
Explica Carlos Cristo que há sensivelmente duas décadas houve uma atenção que despertou o Centro Interpretativo do Vinho de Talha, porque quando falamos em Vidigueira, fala-se numa sub-região demarcada de vinhos, ela já existia e tem passado e uma bagagem por detrás, agora o nicho do vinho de talha, apesar de ser um mercado existente, mas praticamente a nível local, atingiria poucas pessoas, poucas centenas, que conheciam e que aqui acorriam para comprar este vinho, no período em que ele se produz. E essa visão mais de futuro, de aproveitamento da economia, e não só a nível económico por parte dos produtores, mas também a nível turístico, levou a equacionar a criação de um Centro Interpretativo, que funciona aqui como intermediário para a passagem de informação, conhecimento e cultura. Por outro lado, pretende este espaço funcionar como referência e ponto de partida de descoberta desta realidade no Concelho da Vidigueira, mas também no Alentejo. Aqui informa-se quais as adegas e produtores artesanais de Vinho de Talha, mas também os produtores das adegas tecnológicas, que já produzem com alguma consistência.
O vinho de talha tem a sua essência na produção caseira. Onde um grande número de habitações da região a utilizavam para produção ou armazenamento de vinho, mas não só. Uma talha de barro é um grande recipiente, com uma boca estreita e um grande bojo, utilizado tradicionalmente para armazenar vinho, azeite e cereais. Em Vila de Frades são vistas em muitas demolições e reconstruções de casas de habitação, muitas vezes simplesmente em detritos utilizados para enchimento do próprio solo. Esta proximidade da população com a produção de vinho de talha advinha do terreno disponível ser muito fragmentado na região, havendo uma extensão para a própria produção e consumo próprio. As propriedades de cultivo já vinham de famílias, que foram herdadas, outras vendidas, mas nunca dá para alargar muito o terreno, porque há vários proprietários. “Isso terá levado a que cada uma dessas pessoas com área de vinho tivesse uma pequena talha, duas talhas, ou potes, que são talhas mais pequenas, de dimensão mais reduzida, em que dessas áreas de produção de uva, acabavam por produzir vinho para autoconsumo”, acrescenta o entrevistado. Hoje, essa ainda é a realidade, vê-se “desde garagens em que há um pote ou dois, uma talha ou duas, uma talha e um pote mais pequeno, seja uma garagem mais recente, seja outra mais antiga, aquelas casas de quintal, onde existia aquela área para os petiscos, para fazer certos cozinhados, as matanças de porco, que existem muito nas zonas de quintal, além da cozinha, que está no interior da habitação, em que aparece também uma ou duas talhas, ou três, ou potes, e isso sempre se manteve. Manteve-se e se mantém. Continua igual”.
Ao nível mais económico deste pequeno território, Vila de Frades, também mostra ter sido pejado de adegas. Indica Carlos Cristo, que “mesmo hoje em dia, temos aquelas adegas, que nós vemos que ainda conservam – uma delas, por exemplo, ainda conserva um tanque de pisa, com um grande janelão que servia como caixa de descarga da uva, onde chegava em carroças. Temos isso, temos talhas datadas pelo próprio fabricante, onde vemos a data inserida, 1800 e qualquer coisa, nós temos aqui de 1814. Existe uma talha em Vila de Frades na Taberna dos Arcos que tem a data de 1656, essa bastante mais antiga”. Ou seja, “vemos essas adegas assim, com mais passado, com marcas de antiguidade, a nível de estrutura em si, as pequenas janelas viradas a norte, para os ventos frios entrarem, porque são favoráveis à produção de vinho. Algumas também com a própria prensa fixa ao solo, já lá estão há muito tempo”.
Voltando ao Centro Interpretativo, este ramifica-se nas seguintes áreas: o Território, a História Milenar (São Cucufate), a Cultura da Vinha, o Processo do Vinho na Adega e a Taberna. Através delas foi criada uma narrativa, com índole cronológica e sequencial, que permite percorrer todo o ciclo, do campo ao vinho, dos romanos à atualidade, utilizando tecnologia de realidade aumentada, que cria um layer digital invisível de conteúdos, que é acessível por intermédio de tablets dispostos ao longo do percurso. À distância de um clique, tal como os textos são bilíngues, português e inglês, informação é acrescentada. Uma voz-off, acompanhada das animações que surgem sobre as ilustrações, conta a história e fornece informação ao visitante. Já na adega, junto à taberna, onde o olhar vislumbra a vinha, uma grande mesa ocupa figura central e convida ao convívio através de um filme dedicado à temática. Comparativamente às qualidades de um vinho, o Centro despertará sentidos, sendo o visitante convidado a descobrir cheiros e aromas, os sons da vinha, as paisagens da Vidigueira, os provérbios e o cante que, em conjunto, formam a alma do vinho de talha.
De acordo com Carlos Cristo, “houve aqui o idealizar do percurso ideal, mais coerente, mais lógico, cronológico, sequencial. Começa pelo visitante perceber onde é que ele se encontra, estamos em Portugal Continental, no Alentejo, parte mais a sul e neste caso no concelho da Vidigueira. É passada a informação que a norte existe a Serra do Mendro (confluência com Portel) que impede os ventos do norte e cria aquilo que os enólogos falam de um terroir específico relativamente às castas que aqui são cultivadas. Temos também o factor e elemento do Rio Guadiana. Temos um Alentejo quente, seco, longe da costa, em que aqui acaba por não ser assim. Na Vidigueira estamos a falar de 18 quilómetros até Pedrógão do Alentejo, isto em direção depois a Moura, Serpa”.
Prosseguindo a visita, “este mapa permite que nós vejamos o elemento de talha, o elemento de garrafa e copo, a tal diferenciação entre aquilo que são os produtores de vinho de talha e os produtores das adegas tecnológicas. Depois a pontilhar os vários lugares e freguesias do concelho, temos elementos arquitetónicos, desde a Anta Grande de Corte Serrão, Há a Igreja de Santa Catarina de Selmes, Herdade do Monte da Ribeira, Herdade do Sobroso, Passos da Via Sacra de Selmes ou D. Vasco da Gama, que foi o primeiro Conde da Vidigueira. A partir daí os vários Condes que lhe sucederam – foram até o século XIX – registam uma forte ligação aos Gamas”. O que se pode observar desta ligação é o sino com o Brasão de Armas de 1520, que está na Torre do Relógio com a inscrição: este sino mandou fazer o Sr. Conde Dom Vasco Almirante da Índia. Mas a região ainda tem outro elemento de visita e símbolo importante, que são as Ruínas Romanas de São Cucufate, “são, de facto, importantes para a história que aqui se conta”, acrescenta. No Centro dá-se uma informação mínima, básica e algumas imagens para se ficar com uma ideia no intuito de levar o visitante a visitar esta atração.
Os tablets permitem que os mais miúdos não se entediem, através de jogos que os obrigarão a colocar os monumentos numa determinada ordem sequencial, entre outros desafios.
Da Vila de Frades à Vidigueira, o percurso pelo Centro leva-nos um contacto com o Alentejo, através do montado, artesanato, gastronomia e as freguesias. Depois passamos para a história milenar, o próprio nome é logo sugestivo. “É algo assim que já foi há muito tempo, não é? E neste caso há 2000 anos. Portanto, temos uma contextualização de que não foram os romanos que trouxeram para cá a vinha, a videira. Terá começado anos mais cedo com os celtas, cartagineses, fenícios. Aproveitando, todos eles o quê? A bacia do Mediterrâneo para chegar aos vários territórios e depois fixarem-se neles e introduzirem aquilo que fazia parte da sua vida económica”, acrescenta Carlos Cristo. Chegamos então aos romanos: “É algo físico. Não estamos a inventar nada. Os romanos estavam cá. Aqui, bem próximo, um quilómetro, o edifício está lá. É único na Península Ibérica porque conserva o rés do chão e as escadarias de acesso ao primeiro andar da casa. É imóvel de interesse público desde 1947. Toda esta área, eu costumo dar como exemplo, era uma espécie de monte alentejano, digamos assim, em que tinha o senhor e a família lá residia, na zona mais apalaçada e mais nobre, mas depois tinha dependências também para quê? Para os trabalhadores, para os escravos, oficinas de trabalho, ferreiros, abegões, aqueles que trabalhavam ferro, madeira, etc. É São Cucufate, nós remontamos aí”. Neste espaço havia zonas também agrárias e de transformação. No caso, por exemplo, dos lagares, para o esmagar da azeitona, para fazer o azeite, ou o esmagar da uva para obter o vinho. E aí depois tem que se falar na trilogia mediterrânea em que para a subsistência dos romanos contava o azeite, pão e vinho. Torna-se esta Villa Romana mais importante pela descoberta de grainhas de uva, resultantes das escavações de São Cucufate. “Uma descoberta da década de 90, pelo doutor Alarcão, com elementos também vindos de França. Uma equipa, neste caso, composta por especialistas dos dois países, que escavaram São Cucufate, que recolheram espólio, que se encontrava ali. E debaixo dos dois contrapesos do lagar que existem no sítio, os arqueólogos encontraram grainhas carbonizadas. E isso é importante para quê? Para perceber porque é que se pode associar, cá está, comprovadamente, a produção vinícola ou vitivinícola em São Cucufate e os romanos a esta zona. As grainhas foram encontradas. Mas não foi só por aí que ficou”, discorre Carlos Cristo.
A visita continua, as histórias sucedem-se, o museu dá-nos ideia das tradições de Vila de Frades, da Vidigueira e do Alentejo. Uma visita que vale a pena e que as crianças também agradecerão.
HORÁRIO DE FUNCIONAMENTO
Terça a Sexta-feira:
Manhã 9h30m > 12h30m | Tarde 14h00 > 17h30m
Fim de semana e feriados:
Manhã 10h00 > 13h00 | Tarde 14h30m > 17h30m
Encerramento semanal
Segunda-Feira e nos seguintes feriados: 1 de Janeiro, Domingo de Páscoa, 25 de Abril, 1 de Maio, Feriado Municipal e 25 de Dezembro
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