O Algarve é o destino do mês de novembro da Ambitur. Num roteiro de cinco dias elaborado pelo Turismo do Algarve, percorremos a região de lés a lés, passando pelos 16 concelhos deste vasto território. De Alcoutim ou Vila Real de Santo António até Vila do Bispo ou Aljezur, atravessámos o litoral e o interior, e conhecemos iniciativas e projetos turísticos que contribuem para que o Algarve continue a ser hoje um destino que merece ser visitado ao longo de todo o ano.

Albufeira é hoje a região explorada e aqui encontramos João Neves, diretor de Ciência e Conservação, e Hugo Brites, diretor de Comunicação e Marketing do Zoomarine, e somos levados numa viagem por este parque aquático que, todos os anos, atrai milhares de portugueses e estrangeiros. Mas, mais do que escorregas e piscinas que fazem as delícias de toda a família quando o tempo está quente, e que abrem as portas todos os anos entre março e novembro, o Zoomarine alberga toda uma infraestrutura fundamental ligada à conservação das espécies e à educação ambiental de quem o visita.
Na verdade, desde sempre que o Zoomarine teve no seu mindset estas temáticas, estando no início muito ligado à vida nos oceanos. Mas os tempos são outros e a nova geração que está atualmente ligada à administração do parque também assume novas preocupações e objetivos, sempre direcionados para a conservação da natureza.
Este ano o Zoomarine não trouxe novas atrações de lazer ou diversão, mas investiu sim na remodelação daquela que foi a sua primeira estrutura de reabilitação, o Porto D’Abrigo, inaugurado em 2002, com profissionais especializados e dedicados à reabilitação de fauna marinha. Em 2025 reabre portas com novas e melhores infraestruturas. Biólogo de formação, João Neves está no Zoomarine há cerca de 20 anos, e conhece bem o projeto, mas a sua grande motivação foi sempre a associação ao ambiente. Estando responsável pela área da conservação há dois anos, João explica que a filosofia se mantém a mesma desde a fundação do parque mas hoje “estamos muito mais alinhados com aquilo que acredito ser a conservação”. Uma mudança que se reflete, por exemplo, no facto de atualmente o Porto D’Abrigo estar sobretudo focado na reabilitação das tartarugas marinhas, até porque, admite o biólogo, se “agirmos em todas as frentes, não conseguimos ser realmente bons em nenhuma. E por isso queremos ser realmente bons com as tartarugas marinhas”. Retirou-se pois o foco de toda a vida marinha para se concentrar competências nestes animais. Não é que ox golfinhos deixem de ser importantes, por exemplo, mas a reabilitação destes mamíferos é feita na praia, uma orientação que vem mesmo do ICNF,e aí as equipas do Zoomarine também estão prontas para intervir, mas que permitiu reformular todo o centro. E neste processo de reabilitação das tartarugas, o objetivo é sempre devolvê-las ao seu habitat natural no final ou, em casos em que assim seja necessário, a centros de reprodução no exterior.
Hugo Brites frisa que a missão do Zoomarine foi esta, desde o início: “a educação ambiental num local que, por si só, é muito turístico, e para o qual as pessoas vinham usufruir do bom tempo, e nós queríamos chegar a elas com esta parte educacional”. E a questão tornou-se precisamente esta: saber qual a melhor maneira de chegar às pessoas com a mensagem certa. E, ao longo dos anos, as equipas do Zoomarine têm percebido que nem sempre as pessoas visitam o parque e saem com as mensagens que o espaço queria passar. Daí a importância dos questionários no sentido de ter a noção daquilo que os visitantes levam consigo e do que têm para dizer para que o espaço possa assim adaptar a sua estratégia de uma forma mais efetiva. Mas, claro, admite o responsável, “a missão tem de ser transmitida de uma forma lúdica para levar toda a informação da conservação das espécies e do seu bem-estar”.
Na verdade, os visitantes do Zoomarine sempre tiveram a noção de que este é mais do que um parque de diversões aquático, e sempre procuraram entrar em contacto com as outras realidades que o espaço oferece.
Em 2022 foi inaugurado o Borboletário, um espaço que resultou da reconversão de um antigo cinema-planetário e que hoje é o habitat de espécies de borboletas de todo o mundo e mais de 70 espécies de plantas. O que se pretende é que os visitantes possam testemunhar o ciclo de vida das borboletas e entender o papel dos insetos no ambiente e, especialmente, na polinização, isto num momento em que as abelhas, por exemplo, estão já em ameaça de extinção.
Ou seja, não são apenas as espécies marinhas, que fazem parte da fundação do Zoomarine, que atualmente merecem o interesse da administração do parque. Até porque sabem que é isso que os visitantes querem, conhecer mais sobre as mais variadas espécies. “O Zoomarine, apesar de ser considerado um dos melhores parques aquáticos a nível nacional, é também considerado pioneiro e inovador em termos de estratégias de conservação e de educação ambiental”, sublinha Hugo Brites.
Passamos assim a outra área de habitat zoológico, as Américas, onde podemos avistar algumas espécies deste continente num espaço onde não falta vegetação tropical, o que permite uma maior aproximação à natureza e aos animais, mas sem comprometer os seus comportamentos naturais. Podemos ver araras, periquitos e corujas buraqueiras, além de aves aquáticas como patos e íbis, ou mamíferos como a preguiça-real e o tatu-bola. Nos meses mais quentes, é possível avistar a iguana-verde. É aqui que encontramos também uma espécie que está extinta na natureza desde 1995, a Rola-de-Socorro e o Zoomarine integra um programa de reprodução desta ave para que, um dia, se houver condições de segurança e número suficiente de animais, ela possa ser reintroduzida na Ilha de Socorro.
Hugo Brites recorda que o problema reside aqui no comportamento humano. E é aqui que entra João Neves, que é hoje líder do primeiro Centro para a Sobrevivência de Espécies para a Mudança de Comportamento, desenvolvido em articulação com a IUCN SSC CEC Behaviour Change Task Force, e que inaugurou em abril deste ano.
João explica como nasceu esta ligação à IUCN, admitindo que resultou sobretudo do facto de querer passar uma mensagem que, na verdade, ninguém parecia querer ouvir. O que o fez perceber que além da biologia, são necessárias outras ferramentas para se ser um bom comunicador. Quis o acaso que conhecesse Diogo Veríssimo, investigador da Universidade de Oxford e Chair da IUCN SSC CEC Behaviour Change Taskforce, que esteve no Zoomarine em 2017, durante um congresso. A parceria iniciou-se na altura e o Diogo “trouxe-nos a visão transformadora de olhar para a mudança do comportamento do nosso visitante dando mais informação e medindo esta informação”. Este centro tem como missão conectar conservacionistas, investigadores e decisores políticos, promovendo abordagens de mudança comportamental que respondam aos desafios globais da conservação. Hoje há já mais um parceiro nos EUA, que irá trabalhar em conjunto com o Zoomarine, sob consultoria do Diogo Veríssimo e da sua equipa, em competências diferentes mas sempre dentro do tema da mudança de comportamento para a conservação. No Zoomarine, o objetivo é fazer um relatório sobre a situação atual da vaquita, uma espécie da família dos golfinhos, cujos exemplares serão hoje menos de 10 em todo o mundo. Este relatório será concluído no final de 2026 e permitirá a outros grupos de trabalho trabalharem no processo de inversão desta ameaça de extinção.
João reconhece que não é fácil mudar o comportamento das pessoas, pois estas têm que querer fazê-lo realmente. Por isso há que promover mudanças de comportamento com base no chamado marketing para a conservação, que integra o marketing social.
E a missão do Zoomarine enquadra-se nestes objetivos, pois não se trata sequer de um espaço zoológico tradicional, mas sim híbrido. Ora isso faz com que a comunicação com o público também seja mais complexa.
Uma forma de chegar ao público é também através do espaço “Wings of the World”, onde os visitantes podem assistir a uma exibição de diversas espécies de aves, desde rapinas, como o bufo real, até aos cónures do sol e araras, sendo um exemplo da diversidade da avifauna aqui existente. È um momento em que o visitante contacta com a ave de uma forma mais dinâmica e que é levado a pensar no papel da mesma no seu ecossistema.
O Zoomarine conta ainda com Oceanus, um aquário que está agora a ser reformulado para poder acolher mais animais e, no fundo, deixar de ser apenas um espaço de exposição para ser também um centro de conservação. Neste aquário estão atualmente representados mais de 20 ecossistemas de vários continentes, desde os mais próximos, como a Ria Formosa com os seus cavalo-marinhos, aos mais tropicais, como os bem conhecidos peixes-palhaço. É possível ainda ver tubarões no aquário central.
Hugo Brites resume: “percebemos que, através não só da interação com os animais mas também da interação com os nossos educadores e técnicos, os visitantes levam sempre algo mais”.
Por fim, e como não poderia deixar de ser num espaço onde a conservação ambiental é o lema, a sustentabilidade é também uma preocupação no Zoomarine. E aqui podemos ver que 50% da energia deste parque é gerada por mais de 2500 painéis fotovoltaicos, sendo a intenção conseguir chegar a 2027 com 70% da energia. Por outro lado, e no que diz respeito à água, em 2023 o parque reduziu a pressão sobre o consumo de água pública: o Zoomarine consome cerca de 95 mil metros cúbicos que, há 15 anos, eram todos provenientes da água da rede, e só no mês de setembro, por exemplo, foi buscar apenas 10% da água à rede pública, e essa porque a lei assim o obriga sendo necessária para consumo humano. A verdade é que os espaços do parque sáo abastecidos através de uma conduta diretamente do mar, havendo depois uma estação de tratamento dessa água. O parque recorre ainda à Água para Reutilização (a chamada ApR), que vai buscar à ETAR, procurando educar para as boas práticas, e tratando-se de uma água vitaminada e cheia de nutrientes, é usada para a rega, tornando o parque ainda mais verde.
No final, o Zoomarine — com a fórmula combinação de lazer e mensagem séria — mostra que, num mundo onde o turismo e a conservação se cruzam, há espaço para que “diversão” e “responsabilidade” andem de mãos dadas. Para quem visita, torna-se cada vez mais uma experiência consciente: uma tarde de escorregas e golfinhos mas também um momento para perceber como podemos ajudar o planeta — e porque “juntos protegemos”.
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