O Algarve é o destino do mês de novembro da Ambitur. Viemos pois conhecer um espaço icónico da região, o Autódromo Internacional do Algarve (AIA), localizado em Portimão, que com os seus 4684 quilómetros de extensão, e capacidade para 100 mil espetadores, é hoje uma estrutura fundamental para atrair visitantes a este destino do país. Miguel Praia, administrador do AIA e ex-piloto do Mundial de Superbikes, conta-nos a história deste espaço e de que forma se procura reinventar todos os dias, assumindo-se atualmente como uma plataforma de eventos, mais do que apenas uma pista do desporto motorizado. E não perca, já entre hoje e domingo (7 e 9), mais uma edição do MotoGP. Leia aqui a primeira parte desta entrevista, cuja sequência será publicada na próxima semana.
Podemos começar por conhecer um pouco da história do Autódromo Internacional do Algarve e perceber como se tornou uma infraestrutura tão importante para a região e para o país?
O Autódromo foi inaugurado a 2 de novembro de 2008 mas foi projetado oito anos antes. Eu entro quatro anos antes da estrutura existir, mesmo no início, como piloto no Mundial de Superbikes. Foi na sequência destas minhas participações que o nosso fundador, Paulo Pinheiro, teve a ideia de aproveitar a minha presença em diferentes circuitos de todo o mundo, e juntamente com a mão-de-obra portuguesa – porque este foi sempre um chavão do nosso projeto – primeiro projetar, e depois implementar aquele que viria a ser o Autódromo Internacional do Algarve (AIA). Desde esse momento que o Paulo identificou o Algarve como uma zona fantástica para receber estes grandes eventos, porque consegue conciliar uma série de vantagens e domínios que outros destinos não conseguem. E, efetivamente, o tempo veio a provar que o Paulo estava certo. E, na altura, foi um projeto contestado e de implementação muito difícil, foi um projeto PIN que passou uma fase inicial muito difícil, porque acaba por conciliar toda uma conjuntura económica dificílima e uma conjuntura europeia também difícil, o que afetou muito esta indústria motorizada. A verdade é que foi um projeto que demorou a ganhar alguma “tração” mas felizmente essa “tração” aconteceu lá mais à frente.
O Paulo conseguiu consolidar o espaço, especialmente com o regresso da Fórmula 1 e do MotoGP, momento em que o AIA deixa de ser um espaço, que já o era, de comércio e indústria das principais marcas de pneus, motos e carros, que sempre foi o nosso core, e com a conquista da Fórmula 1 e do MotoGP passa a ter uma exposição completamente diferente. A partir daí também se posiciona como o grande palco do desporto motorizado em Portugal e na Europa e, neste momento, é reconhecido como um dos circuitos mais icónicos do mundo.
Quais foram os principais marcos no AIA?
As dificuldades foram, efetivamente, a fase inicial do projeto porque apanhou uma conjuntura toda ela muito complicada, que foi difícil de ultrapassar pois não conseguimos controlar. Tentámos diversificar a nossa oferta, deixámos de ser apenas uma pista para testes e uma pista de alugueres normais, implementámos uma escola – a AIA Racing School, dinamizámos também o Kartódromo, criámos o Parque off-Road, uma pista todo-o-terreno e, mais tarde, o Algarve Race Resort (que inclui um hotel) e diversificámos muito a nossa oferta. Com isto conseguimos abranger muito mais mercados, muito mais clientes. Diria que esta foi a grande dificuldade de uma fase inicial.
Foi logo desde o início que vocês sentiram a necessidade de fazer algo mais do que só as pistas?
Sim, sem dúvida. Naturalmente, a partir do momento que houve um grande “apagão” ou “constipação” da economia geral, nesta conjuntura macroeconómica, demorámos quatro ou cinco anos até ganhar essa tração.
Depois há um grande momento de viragem, e penso que também marca bem a visão e o caráter do nosso fundador, que foi uma grande dificuldade, transversal, mas especialmente nesta indústria: a pandemia. A pandemia marca efetivamente um momento difícil, porque o circuito deixou de operar, portanto fechou portas. Mas, na verdade, aproveitámos todo o balanço positivo da forma como o nosso país geriu toda este período de pandemia, com protocolos de testagem que estavam muito adiantados e que foram amplamente elogiados por todo o mundo, e agarrámos efetivamente esse bom planeamento, conseguindo convencer os principais campeonatos a olharem para nós. E é aqui que conseguimos trazer o MotoGP e a Fórmula 1 para Portugal, exatamente em função da pandemia. Foi um momento em que os fees financeiros deixaram de ser uma prioridade para os principais promotores de Fórmula 1 e de MotoGP, e onde nós, devido a todo este enorme espaço e à capacidade de testagem e de organização do país, onde fomos pioneiros e estivemos na linha da frente, e assim conseguimos organizar duas corridas de Fórmula 1 em seis meses, ou seja, terminámos um ano com uma e começámos o ano seguinte com outra. E fizemos também duas corridas de MotoGP no mesmo ano. O que mostra bem a capacidade de confiança que, tanto a Fórmula 1 como o MotoGP, reconheceram ao Autódromo, e naturalmente aos seus parceiros, porque a parte da testagem estava associada a laboratórios credenciados, e a todos os organismos de saúde que fizeram um trabalho tremendo em conjunto connosco. E graças a isso conseguimos deixar a nossa marca e, a partir daí, a nossa infraestrutura ganha uma visibilidade completamente diferente. Acredito posi que a grande conquista vem a partir do momento em que recebemos o MotoGP e também a Fórmula 1, o pináculo das competições. Não temos atualmente a Fórmula 1, mas continuamos a ter MotoGP.

E está planeado que a Fórmula 1 regresse?
Esse canal sempre esteve e estará sempre aberto. Nós tentamos, mas as condições neste momento são completamente diferentes. Mas temos a porta aberta.
E o MotoGP está para ficar?
Temos contrato para 25 e 26, e queremos renovar o contrato.
E têm planeados novos eventos?
Sim, para além de tentar sempre o melhor, que é a Fórmula 1, da qual nunca desistimos.
Além disso, organizamos 23 corridas por ano, entre Kartódromo e Autódromo. As grandes novidades para o ano são a manutenção do Mundial de Superbikes, é uma prova que tem uma parte “romântica”, porque foi a corrida que inaugurou o nosso circuito. E tem uma relação muito especial com a nossa infraestrutura também. E a manutenção do European Le Mans Series, uma extensão das 24 horas do Le Mans para outros circuitos europeus. E a manutenção também do MotoGP. Estas são os grandes chavões para 2026. Mas, para além disso, conseguimos recuperar o GT World Series, o campeonato de GTs oficial. E também o Ferrari Challenge, é uma competição monomarca mas, por ter a marca Ferrari, é obviamente importante para nós.
Mas tudo isto gera um dossiê de 23 corridas, todas elas muito interessantes.
O que torna este autódromo tão icónico e único?
O que o torna único, garantidamente, é o seu traçado desafiante. Ou seja, a montanha-russa, como é conhecido o nosso circuito, é efetivamente um grande desafio para equipas e pilotos, seja como conquista de condução do domínio da pista, seja naquilo que é a vertente técnica, a afinação de um carro ou de uma moto para este circuito. E isto faz com que os pilotos e as equipas saiam daqui com aquele sentimento de desafio, de quererem conquistar o circuito. E isto é algo que as pessoas nos transmitem sempre com muita alegria. Às vezes há marcas que nos dizem que um carro mediano ou mau aqui sai sempre elevado porque a pista é tão interessante que as pessoas focam-se na pista e não tanto no carro.
Por outro lado, é um circuito muito exigente. Os vencedores das últimas 10 edições das 24 horas de Le Mans testaram aqui. O circuito é reconhecido tecnicamente por ter uma exigência tal que acaba por simular os mais difíceis condicionantes daquilo que é o principal desafio de desporto motorizado, as 24 Horas de Le Mans.
E isto faz com que, juntamente com o Algarve, com a meteorologia, com a oferta hoteleira, ou seja, o bem receber, o bem comer, nós sejamos um circuito único.
Somos uma empresa que promove muito o chave na mão. Tentamos, especialmente para os clientes que vêm de fora, que são 95% do nosso core, organizar chave na mão com os parceiros certos para entregar o melhor serviço. Portanto, o hotel certo, o restaurante certo, o parceiro certo na mobilidade também enriquece bastante a experiência dos nossos clientes. E o que queremos, efetivamente, é que os clientes tenham experiências únicas. E o circuito é apenas uma parte desta experiência.
Neste aspeto, penso que o circuito, Portimão e o Algarve, acabam por se diferenciar porque conseguimos, dentro deste ecossistema que acabei de descrever, entregar experiências. Nós deixámos de nos identificar como uma pista. Somos uma plataforma de eventos. E, na verdade, organizamos eventos que, muitas das vezes, podem ou não incluir pista. Cada vez mais organizamos conferências, reuniões, eventos desportivos, muito na área da hospitalidade.
E diversificámos muito o nosso negócio com a escola. Somos, atualmente, uma academia oficial AMG nas quatro rodas e uma academia oficial Yamaha nas duas rodas. Temos a certificação de ambas as federações para desenvolver atividades de condução defensiva, para formar melhor as frotas, as empresas, os condutores normais do dia-a-dia para utilizarem as suas viaturas de uma forma mais segura, mas também mais eficiente, incluindo no consumo do próprio combustível em si, otimização geral na utilização da viatura. Mas o nosso core na área da escola é, efetivamente, o lazer. E aí trazemos quatro mil pessoas de todo o mundo, por ano, que podem experienciar um AMG GT de 250 mil euros, o mais aproximado que há de um carro de Fórmula 1, em que o comum mortal pode chegar à nossa escola e ter uma experiência como piloto profissional e conduzir nesta maravilhosa pista.
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