Por Nuno Sepúlveda, Presidente da Direção do CNIG – Conselho Nacional da Indústria do Golfe
Fala-se muito, e bem, da sustentabilidade ambiental. Mas quando o tema se cruza com o turismo — e mais concretamente com o golfe — há ainda um longo caminho a percorrer. E não só em práticas. O maior desafio está muitas vezes na perceção pública e política, que nem sempre acompanha a evolução que o setor tem feito no terreno.
O golfe em Portugal continua, por muitos, a ser visto como um consumidor excessivo de água. Mas a verdade é que os campos têm vindo a adaptar-se, com relvados mais resilientes ao clima, sistemas inteligentes de rega, maquinaria elétrica e zonas verdes pensadas para reforçar a biodiversidade. Estamos a mudar. E depressa.
Ainda existe algum desconhecimento sobre as boas práticas que já estão implementadas nos campos portugueses e sobre o muito que ainda se quer fazer.
Quando se fala em desafios, talvez o mais difícil de ultrapassar continue a ser a ausência de um diálogo verdadeiramente eficaz com os decisores políticos. Ainda existe algum desconhecimento sobre as boas práticas que já estão implementadas nos campos portugueses e sobre o muito que ainda se quer fazer. A juntar a isso, temos a burocracia, que tende a atrasar processos importantes como a reutilização de águas residuais ou a instalação de painéis solares. Tudo leva tempo, e enquanto isso, o mundo continua a avançar num ritmo que não espera por ninguém.
As linhas de apoio para projetos de sustentabilidade ou de requalificação de infraestruturas são escassas, e muitas vezes não chegam aos clubes mais pequenos, que são os que mais precisam.
Também há um peso mediático difícil de contrariar. Em períodos de seca, os campos de golfe tornam-se alvos fáceis. A opinião pública tende a simplificar o debate, sem perceber que somos dos setores que mais evoluiu na eficiência da rega e na gestão dos recursos hídricos. E mesmo quando há vontade de investir — e há — nem sempre é fácil. As linhas de apoio para projetos de sustentabilidade ou de requalificação de infraestruturas são escassas, e muitas vezes não chegam aos clubes mais pequenos, que são os que mais precisam.
A isto junta-se outro problema estrutural: temos campos envelhecidos, que precisam de investimento urgente para se manterem competitivos e ambientalmente eficientes. Mas esse investimento só acontece se houver retorno. E, para isso, é preciso atrair mais jogadores, mais turistas, mais receitas.
O futuro do golfe também passa por capacitar os profissionais, que vão desde os greenkeepers a diretores, com conhecimento sólido sobre práticas ESG.
E não podemos esquecer a questão da formação. O futuro do golfe também passa por capacitar os profissionais, que vão desde os greenkeepers a diretores, com conhecimento sólido sobre práticas ESG. Sem isso, ficamos presos ao passado. E depois há o público. Os turistas continuam a associar qualidade a campos sempre verdes, mesmo quando isso não faz sentido num clima como o nosso. Estamos a tentar mudar essa perceção, mas é uma tarefa demorada. Principalmente quando países concorrentes como Espanha ou Marrocos estão a investir fortemente na modernização e na sustentabilidade dos seus destinos de golfe.
Apesar de tudo isto, continuo a acreditar que o golfe tem um papel estratégico na economia do turismo em Portugal. Ajuda a combater a sazonalidade, gera emprego qualificado, e atrai um perfil de visitante que valoriza o território e permanece mais tempo. Só precisamos de condições para crescer de forma sustentável.
A redução do IVA nos serviços de golfe não deve ser vista como um privilégio. Deve ser encarada como um estímulo à competitividade e à modernização do setor.
E é aqui que entra um tema que, para alguns, ainda é sensível: o IVA. A redução do IVA nos serviços de golfe não deve ser vista como um privilégio. Deve ser encarada como um estímulo à competitividade e à modernização do setor. Se essa redução vier acompanhada de compromissos claros por parte dos operadores (como reinvestir em eficiência energética, mobilidade elétrica, ou soluções hídricas mais inteligentes) todos saímos a ganhar. O ambiente, os clubes, a economia.
Portugal tem todas as condições para liderar uma nova geração de turismo de golfe: mais consciente, mais preparado, mais resiliente. Mas para isso é preciso fazer mais do que dar tacadas certeiras. É preciso jogar em equipa.
Este artigo foi publicado na edição 353 da Ambitur.



















































