Por Miguel Quintas, Presidente da ANAV – Associação Nacional das Agências de Viagens
O turismo é, hoje, um dos pilares da economia portuguesa. Representa cerca de 15% do PIB nacional, é uma das nossas maiores fontes de exportações e garante trabalho a centenas de milhares de pessoas em todo o país. Mas este sucesso traz consigo uma responsabilidade crescente: garantir que o crescimento económico não compromete os recursos naturais e sociais que o tornam possível.
Estamos num ponto de viragem. Depois de anos de crescimento acelerado, enfrentamos agora um novo desafio: conciliar a retoma e a competitividade com uma agenda de sustentabilidade que tem sido adiada, muitas vezes abafada por crises geopolíticas e prioridades de curto prazo. A pergunta que se impõe é clara: como podemos continuar a crescer e a criar emprego, sem destruir aquilo que nos torna atrativos enquanto destino?
A pergunta que se impõe é clara: como podemos continuar a crescer e a criar emprego, sem destruir aquilo que nos torna atrativos enquanto destino?
A ANAV defende uma visão estratégica e integrada para o futuro do turismo — uma visão que reconhece que a sustentabilidade não é um obstáculo, mas uma condição de viabilidade a longo prazo. Neste caminho, identificamos seis desafios essenciais, sendo que os dois primeiros merecem especial atenção já no curto prazo.
O primeiro grande desafio é definir limites ao crescimento sem pôr em causa a competitividade económica. A ideia não é travar o desenvolvimento, mas sim orientar esse crescimento com inteligência e responsabilidade. Precisamos de respeitar a capacidade de carga dos destinos — seja nas zonas costeiras, nos centros históricos ou nas áreas naturais. O turismo de massas descontrolado compromete os próprios ativos que sustentam o setor. É urgente avançar com políticas públicas que definam zonas de contenção, que regulem os fluxos turísticos e que promovam a sua dispersão por todo o território, reduzindo a pressão sobre os locais mais vulneráveis.
O primeiro grande desafio é definir limites ao crescimento sem pôr em causa a competitividade económica. A ideia não é travar o desenvolvimento, mas sim orientar esse crescimento com inteligência e responsabilidade.
O segundo grande desafio, muito ligado ao primeiro, é a integração real do turismo nos Planos Diretores Municipais (PDM) e nas estratégias de ordenamento do território. Não podemos continuar a planear cidades ignorando o impacto — e o potencial — do turismo. A pressão sobre a habitação, a proliferação de alojamentos locais e a perda de identidade urbana são sintomas claros de uma falta de articulação. O turismo tem de deixar de ser um corpo estranho ao território. Tem de ser incluído, com regras claras, metas ambientais e indicadores de sustentabilidade definidos nos próprios PDM. Só assim podemos garantir que o turismo contribui positivamente para a qualidade de vida nas cidades e vilas portuguesas.
Mas estes não são os únicos desafios.
O terceiro é o peso da pegada carbónica da atividade turística, sobretudo no transporte aéreo. Portugal tem aqui uma oportunidade de liderança, promovendo ligações ferroviárias eficientes, rotas turísticas de baixa emissão e soluções de mobilidade mais limpas.
O quarto diz respeito à gestão de recursos e resíduos. Em época alta, o consumo de água, energia e a produção de lixo disparam. É imperativo investir em soluções de economia circular e em infraestruturas preparadas para responder a esta pressão.
O quinto desafio é o impacto social do turismo nas comunidades locais. O setor deve gerar benefícios económicos, mas também sociais. Isso implica garantir emprego com qualidade, respeitar a cultura local e evitar a expulsão dos residentes dos seus bairros.
É preciso premiar quem faz bem — com vantagens fiscais, acesso a financiamentos verdes e sistemas de certificação com verdadeiro peso no mercado.
O sexto e último desafio é a ausência de incentivos concretos para a sustentabilidade. Muitos operadores gostariam de fazer mais, mas não encontram condições nem retorno para investir em boas práticas. É preciso premiar quem faz bem — com vantagens fiscais, acesso a financiamentos verdes e sistemas de certificação com verdadeiro peso no mercado.
Portugal tem todas as condições para se afirmar como um destino turístico sustentável de referência. Mas essa afirmação não acontecerá sozinha. Requer liderança política, compromisso empresarial e uma visão partilhada de futuro.
Na ANAV, assumimos essa missão com seriedade. E sabemos que, se queremos continuar a ser líderes no turismo, temos de o ser também na responsabilidade.
Este artigo foi publicado na edição 353 da Ambitur.



















































