Por Paulo Geisler, Presidente da RENA – Associação das Companhias Aéreas em Portugal
A aviação, um pilar fundamental da economia global e do turismo, enfrenta hoje um dos seus maiores desafios: a descarbonização. Com o aumento da consciência ambiental e a urgência climática, o setor está a ser impelido a adotar práticas mais sustentáveis. No centro desta transformação está o Sustainable Aviation Fuel (SAF) e as ambiciosas diretivas da União Europeia (UE) que visam revolucionar a forma como voamos.
SAF: O combustível da transição
O SAF é a peça-chave para um futuro mais verde na aviação. Ao contrário dos combustíveis fósseis tradicionais, o SAF é produzido a partir de matérias-primas não fósseis, como óleos de cozinha usados, resíduos agrícolas, algas e até mesmo dióxido de carbono capturado. A sua principal vantagem reside na significativa redução das emissões de gases de efeito estufa ao longo do seu ciclo de vida – uma redução que pode atingir mais de 80% em comparação com o querosene convencional.
A pesquisa e o desenvolvimento nestas áreas são cruciais para a viabilidade a longo prazo do SAF.
Atualmente, o processo mais comum de produção de SAF é o HEFA (Hydroprocessed Esters Fatty Acids), que utiliza resíduos biogénicos. No entanto, o futuro aponta para tecnologias mais avançadas e escaláveis, como o Power-to-Liquid (PtL) e o Sun-to-Liquid (StL). Estas tecnologias prometem produzir SAF a partir de eletricidade renovável (PtL) ou energia solar concentrada (StL), abrindo caminho para uma produção ainda mais sustentável e em larga escala. A pesquisa e o desenvolvimento nestas áreas são cruciais para a viabilidade a longo prazo do SAF.
Aqui há ainda que referir o eSAF (energy-based Sustainable Aviation Fuel), um combustível de aviação sintético produzido a partir de CO₂ capturado do ar ou de fontes industriais e hidrogênio verde obtido com energia renovável, como solar ou eólica. Ao contrário do SAF tradicional, que usa biomassa, o eSAF é 100% sintético e pode reduzir até 100% das emissões de CO₂ em comparação ao querosene fóssil.
As principais formas de eSAF incluem o PtL (Power-to-Liquid), que combina CO₂ e H₂ para gerar combustível líquido, os e-fuels, também baseados na síntese Fischer-Tropsch, e os solar fuels, que usam energia solar concentrada para criar combustíveis diretamente. Apesar das vantagens ambientais e do potencial de escala, os principais desafios do eSAF são o custo elevado, a necessidade de energia renovável em grande escala e o fato de ainda estar em estágio inicial de produção. A União Europeia já estabeleceu metas obrigatórias: 1,2% de eSAF do SAF total utilizado até 2030 e 35% até 2050
As diretivas da União Europeia: Rumo à obrigatoriedade
A União Europeia está na vanguarda da regulamentação para impulsionar a sustentabilidade na aviação. Desde o início do ano, todos os voos que partam de aeroportos da UE têm a obrigatoriedade de usar um mínimo de 2% de SAF. Esta percentagem será progressivamente aumentada, com metas ainda mais ambiciosas definidas para as próximas décadas, sublinhando o compromisso da UE com a descarbonização do setor.
Desde o início do ano, todos os voos que partam de aeroportos da UE têm a obrigatoriedade de usar um mínimo de 2% de SAF.
Estas diretivas não são apenas um incentivo, mas uma imposição legal que exige a adaptação de companhias aéreas, aeroportos e fornecedores de combustível. O objetivo é claro: criar um mercado robusto para o SAF, incentivando o investimento em novas tecnologias de produção e infraestruturas de distribuição. Ao mesmo tempo, a UE está a implementar regulamentações mais rigorosas sobre as emissões de CO2 por parte das empresas, com multas já em vigor em vários países europeus e a expectativa de que Portugal siga o mesmo caminho em breve. Esta pressão regulatória visa garantir que as empresas não só cumpram as metas de SAF, mas também relatem de forma transparente as suas práticas de sustentabilidade.
Desafios e oportunidades para a indústria
Apesar do entusiasmo em torno do SAF, existem desafios consideráveis, sobretudo o custo. Atualmente, o SAF é significativamente mais caro que o querosene fóssil, podendo ser três a cinco vezes mais dispendioso para o SAF biogénico e até 10 vezes mais para as novas gerações. Este diferencial de preço levanta questões sobre a competitividade e a forma como este custo adicional será absorvido ou partilhado. Além disso, uma vez que a produção ainda é limitada para satisfazer as necessidades, não permite ainda atingir economias de escala.
Atualmente, o SAF é significativamente mais caro que o querosene fóssil, podendo ser três a cinco vezes mais dispendioso para o SAF biogénico e até 10 vezes mais para as novas gerações.
Contudo, estes desafios abrem portas para inovações e novas estratégias de negócio, estando as companhias aéreas e empresas do setor do turismo a explorar soluções.
Porém, com o crescimento do uso de combustível sustentável de aviação, surgem categorias como Gold e Silver, que ajudam a distinguir o nível de sustentabilidade e rastreabilidade do produto.
SAF Gold – é o padrão mais elevado:
- Produzido a partir de resíduos e matérias-primas de baixo impacto ambiental
- Rastreabilidade total (chain of custody)
- Certificações rigorosas (ISCC+, RSB, CORSIA)
- Redução máxima de CO₂ (até 80% ou mais)
- Pode gerar benefícios sociais locais
- Custo mais elevado
SAF Silver – é uma opção mais acessível:
- Sustentável, mas com rastreabilidade parcial (ex: book & claim)
- Boa redução de CO₂, mas com menos benefícios adicionais
- Custo mais baixo
Ambas as categorias contribuem para a descarbonização da aviação. O importante é dar o primeiro passo – com transparência, compromisso e visão de futuro.
O futuro da aviação será inevitavelmente mais verde. As diretivas da UE e o avanço do SAF são elementos cruciais nesta jornada. A transição exigirá investimentos avultados, inovação contínua e uma colaboração sem precedentes entre todos os stakeholders do setor. No entanto, o resultado será uma aviação mais resiliente, ambientalmente responsável e preparada para as exigências do século XXI.
Este artigo foi publicado na edição 353 da Ambitur.



















































