A Ambitur.pt tem estado ao lado do setor da Hotelaria em Portugal, seguindo tendências, anunciando novidades, acompanhando mudanças. Hoje trazemos-lhe mais uma rubrica, desta feita procurando a visão das mulheres que escolheram o mundo dos hotéis para o seu percurso profissional. Como é ser mulher nesta indústria? É o que procuramos saber com “Hotelaria no Feminino”. Hoje estamos com Cláudia Freitas, Cluster Group Sales Executive do InterContinental Lisbon & Crowne Plaza Porto, que lembra com carinho o facto de ter sido a primeira mulher a trabalhar como empregada de mesa numa quinta de casamentos, uma oportunidade que surgiu das mãos de outra mulher.
É difícil ser mulher na hotelaria em Portugal nos dias de hoje? Observa alguma evolução desde o seu primeiro emprego no setor?
Na minha experiência profissional, e tendo por base os departamentos por que passei, tem sido visível a evolução do número de mulheres em cargos de decisão, e apesar de se manter a tendência de haver um número menor de mulheres em cargos de gestão. Ao longo dos anos, em Hotelaria desde 2010, tive a oportunidade de trabalhar em algumas áreas inseridas no departamento Comercial e Vendas e algumas áreas operacionais, onde via esta realidade. Cargos de direção maioritariamente masculinos e de gestão maioritariamente femininos. Tenho uma experiência pessoal muito particular, que guardo com carinho, de ter sido a 1ª mulher a trabalhar como empregada de mesa numa quinta de casamentos, onde apenas permitiam aos homens esta função (pela exigência física e cultura). Felizmente, correu bem e a partir desse momento, já permitiram mais mulheres fazerem essa função. Foi aberta uma exceção, a qual ficarei sempre grata pela oportunidade e amizade. Amizade essa de uma outra mulher, que impulsionou essa oportunidade e ajudou-me na altura a ter a possibilidade de pagar a viagem final de estágio do meu curso. Essa mulher foi também uma lutadora numa realidade pessoal e particular, dominada pelo masculino, negócio familiar dos pais de restaurante e quinta de casamentos gerida pelo pai e irmão, onde era, primeiramente, o papel da mulher estar na cozinha.
Nos dias de hoje, acredito que a hotelaria em Portugal tem evoluído significativamente em relação à igualdade de género. Em particular na importância e relevância dada à opinião feminina sobre os mais variados temas. Vejo uma maior consciencialização sobre a importância de promover a igualdade de oportunidades para todos, independentemente do sexo. No entanto, ainda há áreas onde o equilíbrio não é completamente atingido. E, também acredito que existem áreas em que devemos de facto distinguir e separar, de forma equilibrada e coerente, o papel de cada género.
Quando começou a trabalhar no setor hoteleiro e onde?
Comecei a trabalhar no setor hoteleiro há 15 anos (2010), no Grupo Pestana Pousadas, onde trabalhei durante os meus primeiros cinco anos e acompanhei a implementação do 1º call center para Hotelaria. Iniciei minha carreira como estagiária no departamento de Reservas individuais e desde miúda que sabia que Turismo era uma área onde eu queria estar envolvida. Inicialmente, a ideia seria passar pelo curso de Gestão do Lazer e Animação Turística, e trabalhar em Turismo Rural. Depois conheci, e fiz, o curso de Técnicas e Gestão Hoteleira da Escola de Turismo de Lisboa (Olaias), onde em dois anos estudámos todas as áreas operacionais/técnicas e de gestão e onde acreditei que poderia seguir com a minha paixão pelo Turismo. Ao mesmo tempo que estudava, trabalhava num hotel (Altis Park Hotel) em part-time no restaurante e fazia trabalhos extra em outros eventos como casamentos.
O que a motivou a trabalhar na hotelaria?
A minha motivação para entrar no setor hoteleiro surgiu da minha paixão por interagir com pessoas de diferentes culturas e contextos e conhecer novas realidades e diferentes línguas. A hotelaria deu-me a oportunidade de trabalhar com estas diferentes culturas, línguas e pessoas, onde eu estou a aprender constantemente e, ao mesmo tempo, faço parte de uma equipa maior que proporciona uma experiência única e acolhedora aos hóspedes e reforço a ligação profissional com os nossos clientes e parceiros. A ideia de fazer parte de algo maior, onde cada detalhe importa para o efeito final pretendido e tudo o que isso implica, complementa a minha escolha pela Hotelaria.
Qual a sua função/cargo no hotel/grupo hoteleiro em que trabalha? Desde quando ocupa esse cargo? E como é o seu dia a dia?
Atualmente, sou Cluster Group Sales Executive no InterContinental® Lisbon desde Junho de 2024. No meu dia a dia, lido com a venda e gestão de grupos de Séries e Lazer deste hotel e do hotel Crowne Plaza® Porto, e dou apoio na venda e coordenação de grupos MICE ou só Eventos. Cada dia traz novos desafios, o que torna meu trabalho dinâmico, e eu tenho a oportunidade de trabalhar com diferentes departamentos para garantir uma melhor experiência para os nossos hóspedes.
Alguma vez sentiu, ao longo da sua carreira, mais dificuldade em aceder a determinado cargo/função por ser mulher? Considera que ser mulher é um fator que dificulta o crescimento profissional?
Ao longo do meu percurso vi e presenciei algumas situações sim, mas acredito que esses obstáculos foram, na sua maioria, mais relacionados a questões de competência e experiência do que ao facto de ser mulher. Algumas situações pontuais, foram/são reflexos culturais. O papel de mulher, mãe e profissional são concorrentes de tempo. O tempo de uma mulher é diferente do de um homem, e o formato de trabalho que nos dias de hoje rege ainda este e outros sectores, foi criado com base numa força de trabalho disponível a uma realidade desatualizada (revolução industrial), que à data eram maioritariamente masculina, e faria sentido. Saberemos reconhecer que hoje este modelo não se aplica, e que ainda há um caminho a percorrer. É inegável que a presença feminina em certos cargos de liderança na hotelaria ainda é menor do que a masculina. Acredito que as mulheres precisam ser mais apoiadas para superar algumas barreiras históricas e/ou geracionais e serem reconhecidas pelas suas capacidades de gestão e méritos. É um trabalho evolutivo, e assim como é também importante ressaltar a presença da liderança masculina, acredito que a busca pelo ponto de equilíbrio entre duas forças distintas e não opostas será a maior força potenciadora que podemos almejar.
Na sua opinião, há um equilíbrio ou desequilíbrio no número de mulheres versus homens que trabalham no setor? De que forma isso se verifica – nos cargos exercidos, nos salários oferecidos? E porque razão considera que é assim?
Vejo ainda um desequilíbrio, especialmente quando se trata de cargos de maior responsabilidade, como gestão e direção. Acredito que isso ocorra devido a fatores culturais e históricos, onde a hotelaria, em muitas partes, ainda é vista como uma área predominantemente masculina e principalmente em posições de liderança. Embora o número de mulheres no setor tenha aumentado, ainda há desafios em termos de igualdade salarial e de oportunidades para mulheres em cargos mais altos. Acredito ser ainda também um factor geracional e nos próximos anos haver mais cargos disponíveis para serem assumidos por mulheres.
No seu hotel/grupo hoteleiro quem está em maioria – mulheres ou homens? E na equipa onde trabalha?
No grupo Hoteleiro em que estou a trabalhar, observo um equilíbrio maior em termos de género. No entanto, em cargos de liderança/direção, a proporção de mulheres ainda não é tão alta quanto a de homens, o que acredito ser uma área em que ainda precisamos de um maior progresso. Na minha equipa (departamento comercial e vendas) há largamente uma forte predominância de mulheres, temos 2 homens na equipa versus 14 mulheres. Não considerando cargos de direção.
No seu caso pessoal, gosta mais de trabalhar com equipas de mulheres, só de homens ou mistas?
Pessoalmente, gosto de trabalhar com equipas mistas. A diversidade traz diferentes perspetivas e soluções criativas para os desafios do dia a dia. Acredito que tanto homens quanto mulheres têm qualidades únicas que, quando combinadas, criam um ambiente de trabalho mais equilibrado, produtivo e inovador. Acredito que há habilidades interpessoais específicas que a mulher tem, assim como o homem na sua capacidade de trabalhar em equipa e que juntas serão tão valorizadas ou mais quanto o conhecimento técnico.
É fácil conjugar a sua vida pessoal/familiar com a vida profissional? Sente uma maior pressão em atingir este equilíbrio pelo facto de ser mulher?
Conciliar a vida profissional e pessoal pode ser desafiante, e acredito que o apoio das empresas e a flexibilidade são fundamentais. Sendo mulher, em algumas situações, sinto uma pressão extra para manter esse equilíbrio, entre ser uma profissional responsável e dar atenção à família. No entanto, acredito que com uma boa organização e um ambiente de trabalho que respeite o tempo pessoal, é possível encontrar esse equilíbrio. Atualmente, neste trabalho, vejo uma maior consciência para manter este equilíbrio, e permeabilidade para conciliar o tempo profissional com o pessoal. Seja tanto, na opção possível (no departamento em que me insiro e que não está em contacto direto com os clientes, como os departamentos operacionais de receção, F&B..) de ter 1 dia em teletrabalho, por exemplo, de facilitar e conciliar saídas para consultas médicas com o horário de trabalho, de ter uma médica de trabalho presente. O que facilita bastante a gestão do tempo e produtividade individual.
O que pensa que a visão feminina pode trazer de diferenciador e de positivo ao setor hoteleiro?
Acredito que a visão feminina pode trazer uma abordagem mais criativa, empática, colaborativa, com maior capacidade de adaptabilidade a novas realidades, resolução de conflitos e atenção aos pormenores. Ressalto que vejo o papel dos homens também muito importante e não acredito em isolar as forças, mas sim complementá-las. A nova geração acredito ser mais flexível e inclusiva à valorização por mérito e competências ao invés do género.
Leia também…
Hotelaria no Feminino com Andreia Zorrinho, do Hotel GatRossio



















































