“As agências de viagens têm de se assumir como o maior pilar da economia”

“As agências de viagens têm de se assumir como o maior pilar da economia”

Foi na aviação que começou, setor que assume ser uma das suas paixões, mas há cerca de 25 anos que está ligado à Travelport, na altura Galileo Portugal. Foi nos escritórios das multinacional no Parque das Nações que o Grande Entrevistado deste mês recebeu a Ambitur, dando-nos a conhecer quem é António Loureiro, qual o seu percurso até chegar onde está hoje e a sua visão do setor em Portugal. Ambicioso por querer ser diferente e apaixonado pelo trabalho, o diretor geral regional da Travelport Portugal admite que também teve muita sorte ao longo da sua carreira.

O que poderia ser um Centro de Inovação do Turismo Nacional?
Um espaço onde pudéssemos reunir tudo o que de bom se faz sem termos o estigma de que isso tem de ser feito essencialmente pelas universidades. Não existe nenhum Centro onde façamos a recolha de tudo o que é bom e se produz no mercado, era importante ter uma entidade neutra que fizesse essa recolha, administração e junção de todos os contributos válidos que possam resultar em inovação.
O país está formatado para ser um país de recetivo ao nível das viagens, assim aconteceria mesmo que não se tivesse feito nada. No entanto, pequenos empresários com uma capacidade de imaginação fantástica tornaram possível atingir os resultados que verificamos.
Por outro lado, as agências de viagens têm de se assumir como o maior pilar da economia nacional. O papel das agências de viagens não tem sido valorizado na nossa economia. Porque se as empresas não tivessem o crédito das agências de viagens, que passa desde as grandes exportadoras às novas empresas no mercado, não viajavam. E nós vivemos da exportação, não da importação.
Se pegarmos nisto, e a Secretária de Estado do Turismo tem esse conhecimento, e se ela conseguir juntar as duas vertentes da inovação – uma para responder à parte das viagens, que tantas vezes falamos em turismo e esquecemos, e outra na capacidade de atrairmos o que os empresários de sucesso têm feito na área do recetivo por Portugal – sem dúvida que vamos ter aqui uma grande resposta.
No caso da Travelport temos 36 soluções/ aplicações adotadas por todo o mundo feitas em Portugal, ao nível da distribuição, que não existem em qualquer outra parte do mundo. Esse tipo de inovação deveria estar contido num centro de recolha de inovação e deveria ser premiado de uma forma consistente.

Como é que um profissional do setor sem conhecimento avançado em tecnologias consegue compreender o que a Travelport tem para oferecer?
A falta de capacidade de investimento do nosso empresariado, e em concreto neste setor, é o alerta para o qual tenho chamado a atenção. Ou seja, temos que colocar a questão no sentido do que podemos fazer com a capacidade de investimento existente. As pessoas têm sempre medo do desconhecido. Se digo a um cliente que tenho toda a tecnologia disponível, o cliente só tem que definir qual o projeto que quer, sabendo onde quer estar. O empresário não se pode queixar argumentando que não sabe, tem que ter ambição de conhecimento.

Se tivesse uma pequena agência de viagens quais seriam as suas prioridades?
Muito foco na produtividade. Uma atividade automatizada até à exaustão. Um diálogo efetivo com as pequenas e médias empresas através de ‘self booking tools’. Depois é necessária uma leitura muito atenta sobre as realidades do mundo das viagens. Hoje consegue-se transformar uma viagem de trabalho também em lazer, por exemplo, ou seja, tem que se dar sempre uma alternativa ao profissional que viaja nos locais onde está. Tem que se gerir toda esta complexidade de uma forma muito eficaz e não nos cingirmos apenas ao que o cliente nos pediu.

Qual o âmbito de atuação da Travelport em Portugal?
A verdade é que a hotelaria portuguesa ainda não tem a noção do que a Travelport poderia fazer por eles. Por exemplo, nós somos a quarta maior forma de reserva a nível mundial na hotelaria. Muito poucos sabem isso em Portugal. Somos uma empresa de comércio eletrónico a nível global, esta é a definição mais correta, oferecendo ferramentas tecnológicas a todo o nível. Há algum desconhecimento da hotelaria nacional do que fazemos e apresentamos ao mercado. Com a entrada de Luís Monteiro para o Grupo Pestana, esta mentalidade pode vir a mudar, porque este profissional passou pela TAP e pela Google, e tem perfeita noção do que representa para a hotelaria estar hoje nos maiores sistemas de distribuição do mundo.
Por outro lado, as agências de viagens nacionais não utilizam muitas vezes os sistemas de reserva para outros serviços. Por exemplo, no mercado italiano ou francês, em cada 10 reservas de avião fazem-se seis de hotel, em Portugal a média é uma reserva de hotel por 10 de avião. Em termos de produtividade, se fizerem bem os cálculos, chegam à conclusão que os custos ou os ganhos são idênticos a outros canais do mercado.

Quais os momentos mais marcantes dos 25 anos da Travelport em Portugal?
Nas renegociações com a TAP, que constituem um momento tão crítico em termos estratégicos, sempre que chegamos a bom porto da nossa parte há uma celebração. Recentemente foi possível ver isso com a saída das ‘brand fares’ da TAP, um marco fantástico, representando um salto na forma de distribuição do produto turístico a nível nacional. Após a TAP desenvolver a sua estratégia, teve em nós um parceiro para ajudar a executá-la.
Esta relação e implementação de soluções no mercado nacional permitiram que os agentes de viagens, ao longo das últimas décadas, pudessem ter, ao nível da tecnologia, um avanço face a outros países europeus. Veja-se o que se passa hoje em Espanha; Portugal hoje consegue ser mais criativo em termos de tecnologia e tem rotinas próprias que não vejo no mercado do país vizinho.
Uma das nossas alegrias foi a recuperação da Travelstore que foi um marco importante para dar consistência ao que achamos que fazemos diferente.

Como encara a empresa o futuro, em concreto em Portugal?
O Country Manager nacional vai ser o ‘drive’ de toda a oferta do grupo, controlando todas as empresas do grupo. Esta vai ser a grande novidade em termos de consolidação de conhecimentos. Estamos agora a levar a cabo ações de formação, a nível internacional, e de alinhamento, que permitam que o Country Manager tenha a sua forma de olhar para o mercado. O que quer dizer que a Travelport vai sair do universo apenas das agências de viagens, companhias aéreas e rent-a-cars, para estar mais diretamente relacionada com as empresas, e isso só traz benefícios às agências de viagens. Por exemplo, se nos quiserem usar como parceiro face a empresas que querem soluções móveis, estamos cá para isso. ‘One stop shop’ é isto mesmo. O ‘kick-off’ foi a 26 de janeiro.

Como é feita a renovação dos contratos com os clientes com maior peso em Portugal?
Quando se celebra um contrato de longa duração temos que ter a certeza que este tem sustentabilidade. Ou seja, os contratos são hoje muito mais dinâmicos, com um grau de responsabilização completamente diferente do que aqueles que tínhamos anteriormente. Por outro lado, é importante, e a duração destes contratos permite-o, estabilizar o mercado, trabalhando com todos, dos grandes aos pequenos. Isto permite perceber o mercado como um todo e não estar numa guerra diária de preços, o que nos dá a hipótese de lançar coisas novas nos próximos anos.

Como vê a evolução dos consolidadores em Portugal?
Os consolidadores nascem para suprir uma falta natural de capacidade de investimento e das mais-valias do que significa ser ou não ser IATA hoje em dia. Cada vez mais acho que se a IATA não se começar a orientar, essa vai ser a realidade na Europa. Quando estava no Brasil, apercebi-me de que os consolidadores dominavam as negociações com as companhias aéreas. Li um artigo há pouco tempo que indica que em Espanha está a acontecer a mesma realidade.
Percebeu-se no mercado que se os consolidadores, para além da venda de um bilhete IATA, levarem a agência de viagens a comprar algo mais sobre o qual eu tenho determinada comissão, isso tem interesse para todos. No fundo, os consolidadores acabam por tornar-se plataformas de distribuição concorrentes dos agentes de viagens, não digo dos GDS.
Os consolidadores terão que evoluir, não podem ficar na simples emissão do bilhete IATA. O maior concorrente dos consolidadores são os franchisados, um fenómeno que ainda não temos em grande dimensão, mas os espanhóis sim. O consolidador, neste cenário, pode ser o maior aliado das agências de viagens.

 

*Esta é a 1ª Parte da Grande Entrevista publicada na Edição 298 da Ambitur. 

Pedro Chenrim e Inês Gromicho/ Fotos de Raquel Wise