Opinião: “Baralhar e dar de novo”

Opinião: “Baralhar e dar de novo”

Por Miguel Quintas, CEO Consolidador.com

O círculo aperta-se em volta das agências de viagens mais uma vez. A implementação do New Distribution Capability (NDC) vai permitir aumentar ainda mais os estragos na rentabilidade das agências de viagens. Quer ao nível da receita por voo voado (via segmentos), quer ao nível do acesso ao conteúdo desejado para vender (as companhias poderão decidir quem vende o quê e a que preço). Seguramente esta guerra de sentido único, não irá ficar por aqui. A sede de controlo e de exercício de monopólio por parte das companhias aéreas é enorme. Nota-se pela sua necessidade permanente de consolidar na sua dimensão, assim como nas medidas comercialmente discriminatórias praticadas diariamente de diferenciação de preço e produto.

Por outro lado os GDS’s, que acordaram tardíssimo para esta realidade, correm atrás do prejuízo que irão ter a médio e longo prazo e que esta nova realidade lhes vai infligir. Entretanto, cientes que ainda detém algum poder de distribuição, procuram capitalizar quem ainda os segura, o lado das agências de viagens. A aposta passa por ainda procurar rentabilizar a margem perdida com o NDC, fruto da queda dos preços. Para o fazer, irão retirar essa margem às agências. O valor por voo realizado (segmento) em breve valerá infinitamente menos do que vale hoje. À parte disto tudo e apenas como meros espetadores estão as agências de viagens. Estranha sina esta, de ser um dos canais que mais vende e aquele que mais atacado é.

Do lado das companhias acabam-se as comissões, o acesso a tarifas, o acesso a conteúdo, a discriminação dos preços, e inicia-se o primado do “meu” interesse sobre os parceiros comerciais.

Do lado dos GDS’s – aqueles que poderiam ter sido grandes aliados das agências e o garante de ambas as rentabilidades futuras – por naquela corrida, colocam-se “de lado”. Procuram manter a sua importância na cadeia de valor através da distribuição, mas veem esse caminho começar a ser-lhes cortado nas grandes agências de viagens, através de ligações diretas às companhias. O valor acrescentado passa agora a ser mais na sua capacidade tecnológica de agregadores para a pequena e média distribuição. Com o desenvolvimento de novas tecnologias e mais recentemente com o aparecimento do Blockchain, diria que esta atividade terá também dias muito difíceis pela frente. Vai ser necessário diversificar. E para fazê-lo, é bom que comecem a aproveitar o que têm na mão, ou seja, as agências de viagens.

Finalmente, restam as agências de viagens. O elo mais fraco. Estas, perante a incapacidade que têm de se organizar sofrem a erosão diária daquilo que as sustenta: A sua rentabilidade.

Nada disto é surpreendente na minha opinião, à margem da discriminação de preço e produto por canal. É a guerra comercial a acontecer. Faz parte da vida e do dia-a-dia da atividade económica. O que sim me espanta, é saber que isto acontece diariamente, e ouvir vozes de resignação também diárias, em particular de quem mais deve defender os interesses dos elos mais fracos nesta cadeia – as próprias agências de viagens. A história mundial está cheia de exemplos de lutadores, mesmo em causas inicialmente perdidas, que acabam por sair vencedores. Não defender os interesses é o mesmo que entregar os pontos de forma gratuita. É desistir. E por conseguinte perder. E quando se perde, apenas resta baralhar e dar de novo, para uma nova partida e um novo ciclo.

Este artigo foi publicado na edição 324 da Ambitur.