AHRESP: 80% das empresas estimam zero vendas em abril e maio 

AHRESP: 80% das empresas estimam zero vendas em abril e maio 

Todo o setor da hotelaria em todas as regiões do país está a ser afetado pelos impactos económicos da Covid-19. Esta é uma das conclusões de um inquérito da Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal (AHRESP), apresentado esta sexta-feira, numa conferência online. 

Ana Jacinto, secretária geral da AHRESP, referiu que o inquérito foi realizado entre os dias 1 e 3 de março e surge numa ótica de observação permanente. “A AHRESP tem acompanhado e monitorizado esta pandemia, quer na restauração quer no alojamento”, indica a responsável, revelando que, ao longo do inquérito, foram obtidas mais de 2 mil respostas. 

Empresas não conseguem pagar salários de abril

Os dados do inquérito não são nada animadores. “Neste momento, (dos inquiridos) temos cerca de 74% das empresas encerradas”, frisa Ana Jacinto, notando que 49% das empresas vai mesmo ativar o mecanismo de “lay off”. Destas, sendo metade microempresas, 75% diz que o mecanismo será “para aplicar a todos os trabalhadores”, com a mesma percentagem a admitir a  “suspensão total dos contratos de trabalho”. Apenas 18% admite reduzir parcialmente o horário de trabalho e 7% das empresas admite os dois regimes. 

A situação torna-se mais dramática quando, em todo o universo de inquiridos, 30% das empresas asseguram que não conseguiram pagar os salários de março e 70% das empresas  queadmitem avançar para “lay off” dizem não conseguir pagar os salários em abril “se a Segurança Social não fizer a entrega atempada do apoio”, previsto para o dia 28 de abril. 80% das empresas estima que a faturação será nula, ou seja, “zero vendas”, em abril e maio.  

Apesar deste cenário, apenas 23% das empresas inquiridas irão recorrer a linhas de apoio à tesouraria (dois terços recorrerão à linha de apoio do Turismo de Portugal). Esta discrepância explica-se pelo facto de 60% das empresas inquiridas indicaram que as linhas de apoio existentes “não são adequadas às suas necessidades”, priorizando o “apoio a fundo perdido sob pena de não se conseguir suster e manter os postos de emprego”.

No entanto, 94% das empresas inquiridas afirmam que ainda não efetuaram quaisquer despedimentos. Das que efetuaram despedimentos, 44% diz ter dispensado até um trabalhador. 

“Dinheiro a fundo perdido para apoiar as tesourarias das empresas”

O cenário não é animador e Ana Jacinto não tem dúvidas do impacto “tremendo” que a pandemia está a ter no “emprego e na faturação”.

“Reconhecemos o esforço que o Governo tem feito”, afirma a responsável, esclarecendo contudo que muitas das medidas “ainda não foram implementadas” e muitas são “inadequadas ao setor que representamos”. O recurso ao “lay off” que ficou disponível há dois dias é, neste momento, o único apoio que as empresas têm. No entanto, neste recurso, as empresas são responsáveis pelo “pagamento de 30% dos dois terços dos salários”, diz Ana Jacinto, acreditando que será “difícil suportar estes 30%”.

Já sobre a linha de apoio do Turismo de Portugal, a AHRESP regista que “alguns empresários têm recorrido” a esta ferramenta mas só está disponível para “microempresas”. Ana Jacinto acredita que as restantes linhas de apoio não são o mecanismo mais adequado pois “não são de fácil acesso”. Além disso, entre o momento da candidatura e da aprovação, podem passar 40 dias úteis: “As empresas não aguentam tanto tempo”.

Ana Jacinto voltou a reforçar a medida de “dinheiro a fundo perdido para apoiar as tesourarias das empresas”, algo que AHRESP tem vindo a reclamar. “Tudo o que está a ser feito são alívios temporários” que a curto prazo terão “custos enormes. A retoma não se faz de um momento para o outro”, atenta. 

No cenário em que o setor se depara, “urgem medidas sérias de apoio direto à tesouraria das empresas para que elas sobrevivam e consigam manter os postos de trabalho”. Caso contrário, “não morremos da doença mas morremos da cura”, remata.

Cristiana Macedo