“Estamos no meio de uma ponte, precisamos de crescer mais” (I)

“Estamos no meio de uma ponte, precisamos de crescer mais” (I)

Em Lisboa, onde o Grupo Oásis Atlântico está sedeado, Agostinho Abade recebeu a Ambitur para falar do seu percurso profissional na cadeia hoteleira que criou, juntamente com outros accionistas. Hoje é o filho, Alexandre Abade, quem dá “a cara” pela empresa, mas Agostinho Abade admite continuar a ter uma voz activa dentro do grupo, e explica como tudo começou. Tendo passado também pelo Governo, o empresário afirma que em tudo o que faz gosta de sentir prazer, aliando sempre “o sonho à parte prática”.

Como surge a área do turismo na sua vida?

A minha ligação com o turismo começa há muitos anos, com a Avis Portugal, da qual fui membro do Conselho de Administração durante mais de 30 anos. Como investidor surge em Cabo Verde, numa viagem de amigos. Gostámos do arquipélago e damos um primeiro passo tímido na compra de terrenos. Mais tarde compramos o Hotel Porto Grande, um ano e meio depois concorremos naquele país à privatização dos hotéis do Estado (Companhia de Fomento que detinha o Belo Horizonte, na Ilha do Sal, Hotel Xaguate, Ilha do Fogo, e Praiamar, na Ilha de Santiago) e começa a surgir este projecto.

O Grupo Oásis nasce nessa viagem? Quem são os accionistas fundadores?

Tem origem nessa viagem. Houve três fundadores, dos quais hoje dois ainda são accionistas, depois entraram outros empresários, hoje somos seis accionistas. Um dia quem sabe a Oásis poderá contar com capital internacional.

Quando ganha o grupo uma cultura hoteleira?

Foi apreendida ao longo dos anos. Hoje estamos numa fase de reorganização do Grupo no sentido de uma melhor sustentabilidade, virados para o produto dos cinco estrelas. Ou seja, um processo que visa o crescimento futuro, procurando parcerias internacionais ou internacionalizando o grupo ao nível accionista.

A vossa cultura hoteleira é ganha após a experiência que tiveram com a Barceló na gestão das vossas unidades do Sal, numa parceria que teve os seus percalços?

Sim, claramente. Nós, portugueses, temos um certo complexo que os outros é que fazem melhor. Essa experiência deu para perceber que não é bem assim. Muitas vezes somos até mais criativos, e não falo nós Oásis, mas sim portugueses em geral. São é necessárias regras.

Porquê Cabo Verde e Brasil?

O desenvolvimento em Cabo Verde resulta da oportunidade inicial que tivemos e que nos permitiu diversificar produtos. Na altura, decidimos que a nossa estratégia de expansão englobaria os países lusófonos. Isso aconteceu então no Ceará, que é o estado brasileiro mais próximo de Portugal, sendo que Cabo Verde está no meio desse trajecto. Comprámos aí terrenos, ficámos com a gestão de um resort, que deixámos entretanto, e gerimos dois hotéis na cidade de Fortaleza. Estamos preparados para, um dia olhar, para o mercado brasileiro numa óptica de expansão. Mas para isso é necessário bons parceiros locais. Em Cabo Verde temos terrenos para expandir nos próximos 10 anos, se for necessário. Temos os melhores terrenos do Sal e da Boavista, tanto para imobiliário como para hotelaria. O nosso desejo é avançar o quanto antes com um projecto na Boavista, com um resort de cinco estrelas de grande dimensão. Estamos a estudar a sua viabilização e a provável inclusão de parceiros.

Investir em Portugal nunca aconteceu…

Nunca aconteceu, mas poderá acontecer. Quando os grupos como o nosso começam a crescer é necessário financiamento, senão o crescimento tem de ser mais lento. Isso é que neste momento nos ocupa mais, arranjar fórmulas de parcerias e modelos financeiros. Neste momento, olhando para o país e para a banca, não é fácil. Sendo assim temos que nos virar para o mundo. Nesta fase, há muito trabalho invisível realizado por nós de identificação de oportunidades de financiamento. Tem de se trabalhar numa «aldeia global» e não nos restringirmos a este cantinho que é Portugal. Comprar um hotel em Lisboa tem alguns desafios. Ou é um negócio muito apelativo ou o payback estende-se por muitos anos. Por isso olhamos para outros países onde esses retornos não são tão longos.

Imaginava, quando fizeram a aquisição dos primeiros terrenos em Cabo Verde, que a empresa estivesse onde está hoje?

Sim. O que não imaginava era as fortes crises por que tivemos que passar. Normalmente as pessoas só pensam em crescimento (risos). Mas era este o caminho que pensei que a empresa iria tomar, agora estamos no meio de uma ponte, precisamos de crescer mais.

Nos últimos anos, o seu filho, Alexandre Abade, tornou-se uma voz activa dentro da empresa. Como foi esta evolução?

Sim. Eu sou o chairman da empresa. O processo foi intencional, com alguns riscos, mas no mundo empresarial é assim. Esta evolução foi fundamental e ele tem muitos anos pela frente para adquirir mais conhecimentos e para dar oportunidades a outros jovens, para poder prosseguir.

Tem dois dos seus filhos a trabalhar consigo, é um processo fácil?

Não é difícil. Tecnicamente têm que ter os conhecimentos adequados à função que desempenham, como acontece com os outros colaboradores da empresa. Esta também é uma forma de as empresas se apetrecharem. Ao nível dos valores transmitidos, além dos éticos, ao nível de família, há os profissionais. No caso do Alexandre ele teve a sua formação académica muitíssimo boa, teve vários estágios em empresas nacionais e internacionais. E vai aprendendo muito aqui. Foi ele que desejou vir para a Oásis, abdicando de uma carreira internacional.

Qual o seu papel no grupo?

Continuo a ter uma voz activa, mais do que devia (risos)… tenho muitos hobbies e gostaria de ter mais tempo para mim.

É um profissional ambicioso? Já foi mais?

Sou sobretudo um profissional que alia o sonho à parte prática. Naquilo que faço, gosto de sentir prazer. Nunca me veria num bom negócio se não me desse prazer. Há que ter gozo naquilo que se faz. Isso acontece em Cabo Verde, onde temos centenas de funcionários e somos um bom operador para a dimensão daquele país. Ajudamos a desenvolver um país menos desenvolvido. Temos que ter empresas lucrativas, ganhar dinheiro, crescer, mas também temos que pensar nos contextos onde estamos inseridos, tem de haver um equilíbrio.

Quais os momentos que o marcaram ao nível profissional?

Tive um percurso profissional trabalhando para terceiros, sendo na parte final para multinacionais, como a Castrol, Avis, Mercedes Benz, Mitsubishi, entre outros. Também passei pelo Governo português, por uma secretaria de Estado, e pela organização do Sporting Clube de Portugal.

Que experiência o marcou mais?

Ainda hoje sinto que foi a experiência de «ser o recordista» da descida de inflacção no país, 15% em pouco mais de um ano, enquanto secretário de Estado do Comércio Interno, tendo como Ministro Joaquim Ferreira do Amaral.

A Ambitur.pt tem vindo a publicar parte das Grandes Entrevistas que tem realizado ao longo dos últimos anos nas suas edições impressas, com alguns excertos inéditos.

Pedro Chenrim