“Estou aqui porque tenho um desafio”

Há dois anos não hesitou em aceitar o desafio de gerir a equipa da Amadeus Portugal e hoje, Miguel Ángel Puertas, acredita que está no bom caminho para conseguir o seu objetivo no mercado nacional, sublinhando que 2016 foi mesmo o melhor ano para a multinacional no nosso país. Em entrevista à Ambitur, nos novos escritórios da Amadeus Portugal, o diretor geral deste sistema de distribuição global falou do seu percurso que, há 20 anos, passa pela Amadeus, e de como consegue dividir a sua vida, profissional e pessoal, entre Madrid e Lisboa, todas as semanas. Não hesita em afirmar que Portugal é um mercado crucial para a Amadeus.

Como chegou ao Turismo?
Estudei Direito mas decidi que nunca seria advogado. Estava prestes a licenciar-me e havia 14 milhões de advogados na Comunidade Europeia. Portanto, ou era muito bom, o que não era o meu caso, ou teria o meu pai como advogado, o que também não era o caso. Gostava de viajar, sempre viajei muito com a família, e decidi, porque não? Gostava de tecnologia, a minha tradição familiar é nesta área, e decidi juntar as viagens e a tecnologia Comecei então a trabalhar na Iberia, primeiro a transportar malas e depois no sistema de check-in, passando ainda pelo sistema de reservas; tinha 23 anos. Depois deixei a Iberia e comecei a trabalhar na Halcon Viajes, onde cheguei a ser responsável por um escritório. Há 20 anos entrei na Amadeus, tinha 26 anos. Comecei na parte operacional. Foi um percurso muito lógico, de evolução dentro de uma multinacional. Fui formador, fui supervisor e depois diretor da unidade de serviço aos clientes, de operações.

E como chegou a Portugal?
Conheço muito bem Portugal. A equipa da Amadeus Portugal é relativamente nova e, há uns 15 ou 16 anos, vinha representar a Amadeus na BTL. Montava a feira, conhecia clientes, fazia demonstrações do sistema Amadeus. Depois começámos a construir a equipa Amadeus com Francisco Rebelo, que foi o primeiro General Manager em Portugal.

Sempre colaborei muito estreitamente com todos, especialmente com o Miguel Quintas, desde o princípio. O nosso chefe comum sabia que tínhamos uma boa relação e perguntou-me se queria tentar quando o Miguel Quintas saiu. E não hesitei. Gosto de Portugal, dos portugueses, da indústria, da tecnologia. Era uma oportunidade.

Como gere a sua vida?
Não estou a viver em Portugal. O primeiro impulso foi mudar a minha família para cá, mas depois pensei que seria muito egoísta da minha parte. Assim, fiz um compromisso: fico em Portugal três a quatro dias por semana. Hoje em dia o meu vice-presidente tem 90 mercados sob sua responsabilidade mas está em Madrid, e se tem que viajar, viaja. Graças às novas tecnologias hoje é possível trabalhar a partir de qualquer local. E com a minha equipa sou muito organizado: à segunda-feira faço uma videoconferência com a equipa diretiva da Amadeus Portugal (Pedro, Carlos e Carla); de terça ou quarta até quinta ou sexta-feira fico em Portugal, reúno com clientes; sexta-feira normalmente estou em Madrid, porque também tenho reuniões a nível europeu e, diretivo.

E como têm sido estes dois anos?
Se tivesse de utilizar uma só palavra, diria diversão, porque o mercado português é muito desafiante e muito diversificado. Foi uma etapa divertida, de descobrir coisas, a maneira de trabalhar, a maneira das pessoas se relacionarem no âmbito profissional.

Já conhecia bem a equipa, que era uma equipa incrível, bons profissionais, muito maduros, muito séniores. Em parte, graças a isso, posso ficar aqui apenas três ou quatro dias, porque eles mantêm o mercado, têm iniciativa, responsabilidade. Mas é mais duro do que esperava. É a primeira vez que sou um diretor geral. Tem uma faceta comercial muito importante, que acho que tenho mas que devo desenvolver mais ainda. Penso que estou a ter bons resultados. De facto, 2016 foi o melhor ano para a Amadeus Portugal. Foram bons resultados para mim, e é para isso que estou aqui. Estou aqui porque tenho um desafio. Se não tivesse um objetivo, seria o primeiro a dizer que não queria estar aqui.

É ambicioso?
Não gosto da palavra ambicioso, porque tem uma conotação negativa. Mais do que ambição, é crescimento, em duas facetas: profissional, que vem de eu definir um objetivo, um prazo, e saber que consigo chegar lá; depois há o crescimento pessoal, ser melhor pessoa, a maneira de me relacionar com as pessoas, com os parceiros, colegas de trabalho.

Porque na verdade não hesitou quando surgiu a proposta de ser o rosto da Amadeus Portugal…
Não tive dúvidas nenhumas. Se for convidado para ser diretor geral de outro país também gostaria mas sempre se concluir o meu objetivo aqui. Sou muito comprometido com os meus objetivos. Tenho ofertas de trabalho, da Amadeus e fora da Amadeus. Mas não quero sair da Amadeus Portugal porque tenho um objetivo aqui.

Como foi o primeiro contacto com a realidade do mercado turístico português?
A minha expectativa em relação ao mercado português era de muitos eventos, festas, muita imagem pública. Mas pensava que a faceta da relação comercial com os clientes era menos profunda. Gradualmente percebi que há um aspeto muito mais profundo nessa relação comercial. É muito esforço, muitos recursos para conseguir um objetivo, para projetar uma imagem da Amadeus no mercado.

Também é certo que no mercado português há um “establishment” muito difícil de romper. Agora estamos a falar com grandes clientes quando antes era impossível, porque havia um círculo muito fechado.

O que pensa dos profissionais portugueses?
São muito inteligentes. Tecnologicamente vejo duas vertentes. Por um lado, são pessoas cuja aposta é mais pela relação pessoal – como vendem, como distribuem o produto; por outro lado, há pessoas que são autênticos “freaks” da tecnologia, a sua base é tecnológica e, graças a isso, conseguem resultados muito interessantes. Considero que o profissional português é muito inquieto intelectualmente, está sempre a testar coisas novas. Startups, inovação, futuro, tudo isso está na ordem do dia do profissional português.

E o que diria faltar-lhes?
Penso que falta capacidade de adaptação. Há uma resistência à mudança, que é normal, mas aqui penso que é um pouco mais acentuada. Há um grupo que não quer mudança, quer que tudo fique como está, e há outro grupo que luta para romper essa “bolha” da tradição.

Que conselhos daria aos jovens portugueses que querem construir uma carreira neste setor?
Há uma diferença muito grande entre as distintas gerações. A geração Millennial tem um contexto muito difícil no qual tem de trabalhar e viver porque o desemprego é grande, há questões como o terrorismo e a crise económica. Mas são muito positivos. E depois temos a geração Z, plenamente conscientes de todo o contexto que os rodeia, e incrivelmente bem preparados academicamente. Querem não só trabalhar em algo positivo mas têm um compromisso para com a sociedade. A qualidade que todos devem ter é capacidade de adaptação.

Mas, para mim, mais do que essa pergunta, penso que se deve perguntar o que devem ter as empresas para atrair o talento dos jovens. Porque há muito talento que tem que ser atraído pelas empresas. Uma empresa tradicional, com formas muito protocolares de fazer as coisas, não é atrativa para um jovem. Um jovem bem preparado procura algo diferente, um método de trabalho mais flexível, mais dinâmico, mais rápido, multicultural, mais adaptável.

Pelo que já conhece do nosso mercado, pensa que Portugal vai continuar a crescer a este ritmo?
A previsão de crescimento de Portugal para 2017 é de 1,7%, uma previsão conservadora pois penso que pode crescer um pouco mais. Mas dados macroeconómicos dizem que destes 1,7%, uma percentagem altíssima vem do mundo do turismo. Há uma obrigação de crescimento do mundo do turismo. E aqui temos muita sorte, porque Portugal é “trendy. Temos uma oportunidade muito grande que temos que saber aproveitar. Temos o Turismo de Portugal muito comprometido, instituições públicas muito comprometidas, mas o compromisso de crescimento também deve vir da parte privada.

Se estou aqui estou por motivos de negócio, quero resultados, os meus investidores estão à procura de resultados económicos. Mas também há uma faceta que não sei se outras empresas têm em Portugal: olhamos sempre para o futuro. O slogan da Amadeus é “to shape the future of travel”. Mas moldar o futuro das viagens vem da Amadeus mas também de agentes de viagens, companhias aéreas, instituições, hoteleiros ou associações. Há uma grande parte do crescimento de Portugal que vem do turismo, e a nossa responsabilidade, como diretores de empresas, é apostar nesse crescimento. Sei que há muitas empresas que por limitações, linhas que não podem passar, não crescem ou decrescem; penso que têm de investir em estratégia, análise de tendências, análises macroeconómicas do consumo. Este é o principal desafio. Resumindo: em 2017 o crescimento vai ser muito importante, a economia vai estar muito bem alimentada pelo turismo.

 

Esta é a 2ª Parte da Grande Entrevista publicada na Edição 302 da Ambitur. Veja aqui a 1ª Parte.

Inês Gromicho e Pedro Chenrim/ Fotos de Raquel Wise