Opinião: “Turismo em Corda Bamba! Funambulismo versus Sonambulismo”

Opinião: “Turismo em Corda Bamba! Funambulismo versus Sonambulismo”

Categoria Advisor, Opinião

Por Maria José Silva, investigadora, Professora Doutorada Especialista em Turismo, nomeadamente Operação e Distribuição Turística, Redes e Liderança Estratégica, e CEO da RAVT

O turismo, para além de perito em funambulismo e necessitar de gerir constantes (des)equilíbrios, é reconhecido como um setor global, com atuação mundial, transversal, com sistema complexo, assente numa cadeia de valor altamente interdependente, tanto quanto vulnerável a fatores externos, que o torna demasiado sensível a crises severas como o desta pandemia dos anos 20.

Irregularidades derivadas de eventos agressivos, abrangentes no espaço e no tempo, criam uma onda de impactos diversos, profundos, extremos, igualmente abrangentes, provocando ondas de choque que perturbam severamente toda uma cadeia de valor, levando a uma significativa disrupção que atravessa todos os players, todo um sistema e os demais conexos. A crise Covid-19 enquadra-se neste tipo de eventos, que refletem agora efeitos a todos os níveis PEST, mas também emocionais que têm levado à exaustão total das empresas e dos profissionais, com consequente perda de ativos, de todos os tipos, a cada dia. MAYDAY…MAYDAY…

O foco do turismo centra-se na liberdade de movimentos das pessoas, na mobilidade, na diversidade, na procura com confiança e de segurança para usufruir de momentos de felicidade, de realização pessoal ou profissional, através de atividades de lazer, de produção de bem-estar ou de atividades que facilitam o desenvolvimento pessoal e de negócios. Esta tem sido constantemente abalada pelas constantes alterações, pelas circunstâncias de alta incerteza, volatilidade, que levam a abrir e fechar fronteiras, a pôr e a tirar restrições, a fazer sentir os profissionais de turismo e os viajantes como uma bola de ping pong destabilizada. SIERRA OSCAR SIERRA!

A mobilidade transformou-se num elemento de poder, tanto no acesso a tipos de deslocações, ou nas cedidas vantagens a uns destinos/países/nacionalidades/origens em detrimento de proibição de outros, criando desigualdades, assimetrias de todo o tipo, originando acesso a recursos e ritmos diferentes. Um pouco por todos os países se verificaram imposições e restrições diversas nos movimentos, internamente nos países, nos locais naturais ou construídos, em todas as infraestruturas, aliviando à medida de crescimento de taxas de vacinação, em alguns destinos ainda baixíssimas. Porém, em retrocesso a cada nova variante que estimula o reino do pânico, do medo, das incertezas, do sensacionalismo, do populismo, como demonstra o momento presente. HELP!

É recorrente, em crises tão severas, instalar-se o caos nas organizações e nos setores afetados e ativar rivalidades entre colaboradores, empresas, organizações e políticos. Este caos tem originado difíceis e ferozes relações, com despoletar de ataques diversos, em desunião e em oportunismos pela atenção, pelo protagonismo, pelo poder, acabando por ser um dos maiores impedimentos para a coordenação, capacidade de resposta e de resolução eficaz de irregularidades. Estas rivalidades neutralizam muitas das estratégias, dificultam a coesão necessária para aportar a estabilidade e a sustentabilidade do setor. Algo bem sentido nos últimos 20 meses, tanto na parte política como no trade turístico.

Perante tais circunstâncias, tem-se assistido a uma política e governo sonâmbulo, tanto nos de pelouro como nos de oposição, que parece atuar, mexer, prometer, mas com as devidas faculdades sem estarem totalmente ativas, salvo raras exceções. As empresas, idem, já estão de tal modo em hibernação ou sonambulismo, que obrigam a todo um setor a fazer funambulismo de alto gabarito sendo que nem todos são mestres virtuosos na matéria. Os empresários deparam-se com desafios hercúleos, sob riscos incomensuráveis.

Bem sabemos que se vive um circo global, a histeria total, e que o turismo se tem habituado a ter que gerir imensas irregularidades das mais diversas espécies e por todos os lados, a ter que gerir desequilíbrios, mas não tem ainda tanta mestria para continuar na corda bamba, cada vez mais elevada, quase a romper a corda, com empresas e profissionais obrigados a atuar sem rede, em altos voos, produzindo piruetas arriscadas sob ventos de tornado. Têm sido malabaristas de expertise, sob julgamento de juízes de referee, a fazer girar todos os pratos e bolas e a queimarem-se já com as tochas de fogo. Daqui a pouco caem, sem rede e todos terão que aprender a andar sob brasas! MAYDAY! MAYDAY!

Sabemos que um dos maiores desafios dos líderes de turismo é encontrar meios de articular todos os interesses de segmentos empresariais e/ou dos poderes públicos, além da conciliação com outras atividades conexas, direta ou indiretamente ligados às diversas áreas do turismo, produtos e destinos. Desde logo, o maior desafio tem sido manter todas as responsabilidades e compromissos das empresas, fiscal ou para com os recursos humanos e clientes. Em 2022, estes desafios agravam-se derivados do desgaste de 21 meses de seca, da falta de cash flow, de fim de apoios, fim de moratórias, do maior desgaste financeiro e pessoal, quando será necessária maior capacidade financeira para poder retomar o turismo, repor equipamentos, infraestruturas, retomar viagens, cumprir com novas certificações, renovação de licenças diversas, novos procedimentos, novos sistemas. HELP! ASAP!

Neste contexto, torna-se difícil encontrar uma fórmula única de atuação e de resposta eficaz, nem se reúne normal consenso na atuação, nas escolhas, nas ações a tomar, nem no que, como e quando fazer e quem deve ter determinadas funções. Contudo, considera-se imprescindível manter, até à Páscoa ou até ao levantamento de restrições, os apoios em layoff simplificado ou Apoio à Retoma, uma redução da carga fiscal, uma forma de capitalização das empresas, Apoios à recontratação. É crucial manter as empresas, é absolutamente essencial mais um “one shot” de financiamento a fundo perdido, alertando para o facto de existirem já significativas empresas com demasiados créditos, situação financeira com elevada sobrecarga, debilitada, não conseguindo mais acesso a mais empréstimos seja lá onde ou de que tipo for. MAYDAY! MAYDAY!

De alertar que, ou o poder político ajuda desta forma, ou terá um 2022 com mais carga com o elevado desemprego, maior dívida fiscal, clientes sem serviços, que terão que recorrer a fundos de garantia quando eles existirem, como no caso das agências de viagens, mas não noutros subsetores. Situações que despoletarão tão grave falha de confiança em toda a cadeia de valor do turismo, empresas, infraestruturas e serviços, que vão demorar anos para reconquistar a um custo que acabará por ser elevadíssimo para o país. SIERRA OSCAR SIERRA!

É vital um ambiente de segurança, confiança nos serviços e no destino para que ocorra procura efetiva e não fique, como se sente atualmente, apenas numa procura potencial imensa, retraída, altamente desejosa de viajar, de conquistar a sua liberdade, com a agravante de se sentir com maior capacidade financeira devido a níveis de poupança consideráveis.

MAYDAY! Em 2022 não pode ser mais adiada a estabilização de governos e de políticas, não podemos dar-nos ao luxo de desperdiçar os acessos a fundos europeus tão necessários. Não podem mais adiar um aeroporto com maior capacidade na grande Lisboa. Não podem mais adiar a reestruturação e a reabilitação da TAP. O país carece de maior estabilidade, decisões mais equilibradas, maior coerência, melhor comunicação, decisões mais equilibradas e atempadas. É essencial que o mundo seja mais inclusivo, menos segregador, evitando deixar de fora quem não tem acesso a altas tecnologias, equipamentos sofisticados, aplicações informáticas, como quando exigem códigos QR, registos e visualizações só digitais para viagens.

ASAP! Importa destacar que, desde logo, para que de futuro se possam definir e implementar estratégias mais adequadas ao setor, nomeadamente no subsetor de Agências de Viagens, é crucial reconhecer a real dimensão do subsetor com todos os seus tipos de atividade e de players e não somente considerar algumas das partes/empresas/atividades mais visíveis.

SIERRA OSCAR SIERRA! O setor e as circunstâncias carecem de campanhas promocionais externas e internas, ganhar a confiança do consumidor, elaborar campanhas para vários targets e pelos mais diversos canais. É absolutamente essencial apostar na flexibilidade de tarifas, de políticas de cancelamentos, trabalhar na direção de criar negócios mais sustentados, evitar repassar margens com políticas de descontos excessivos, práticas de dumping ou marketing de tal forma agressivo de desvaloriza todo o reconhecimento de valor do setor, das empresas e dos profissionais do turismo. É necessária uma maior lealdade entre parceiros, fornecedores, subsetores. Apostar na formação e na dignificação dos profissionais do turismo, conferindo maior reconhecimento e compensando em remunerações.

Conseguindo estimular todos os players do turismo e o setor em si, do turista espera-se que tenha em 2022 uma forma de viajar semelhante aos últimos 20 meses, crescendo gradualmente pelo menos no último semestre. Maior procura de produto doméstico, bem como de produto “exótico” e inovador que os faça viver experiências perdidas em mais de 2 anos, destinos mais seguros, produto fora de grandes aglomerados, viagens em pequenos grupos ou familiares, muito sol e praia, mais outdoor, natureza, maior procura por segmentos e nichos menos explorados antes de pandemia. Aos poucos espera-se também a retoma do turismo de negócios, tanto quanto do turismo religioso e espiritual em agradecimento de sair vivos de tais anos loucos. Contudo, pode-se contar com preços mais elevados derivados de crise de eletricidade e de combustíveis que afetam todos os materiais e a distribuição.

Em suma, não se pode mais continuar neste circo, na corda bamba, sem rede, com constante luta para equilíbrio perante governos e políticas sonâmbulas, numa total desarmonização de políticas nos países, nos acessos a produtos e destinos turísticos. Não pode mais ser adiada a liberdade, a mobilidade global, nem adiar o repensar de um turismo mais sustentável, winwin para todos. MAYDAY! MAYDAY! SIERRA OSCAR SIERRA! ASAP! OVER!

Maria José Silva